#Quais as possíveis #manifestações oculares relacionadas ao novo #coronavírus?

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médico escrevendo sobre manifestações oculares do coronavírus

Desde dezembro de 2019, o coronavírus (Covid-19) foi reportado entre pacientes chineses. O vírus SARS-CoV-2 é um novo coronavírus, diferente de outro coronavírus que já afetou alguns pacientes em outros anos (SARS-CoV-1). Comparado com o SARS-CoV-1, o SARS-CoV-2 tem receptores similares, achados patológicos sistêmicos e características epidemiológicas similares. Apesar de não existir nenhuma evidência de que a replicação do SARS-CoV-1 resulta em conjuntivite e outras doenças oculares, alguns artigos tem descrito o olho como um potencial sítio de transmissão viral.

Da mesma forma, a transmissão do SARS-CoV-2 através do olho também é suspeita. Não existe, porém, artigo na literatura médica que identifique uma relação direta entre SARS-CoV-2 e o olho. Um estudo publicado no JAMA por um grupo da China em 31 de março avaliou o envolvimento ocular nos pacientes altamente suspeitos ou confirmados com COVID-19.

 

Coronavírus e manifestações oculares

De 9 a 15 de fevereiro de 2020, 38 pacientes hospitalizados no Yichang Central People’s Hospital foram diagnosticados e foram analisados os sintomas, manifestações oculares, tomografia pulmonar e o PCR de swab conjuntival e nasofaríngeo para SARS-CoV-2. Dos 38 pacientes, 25 eram homens (65,8%) e a média de idade era 65.8 anos. Vinte e oito pacientes (73.7%) tiveram PCR nasofaríngeo positivo para Covid-19 e desses dois pacientes (5.2%) tiveram também PCR positivo conjuntival.

Os outros dez pacientes se mantiveram suspeitos para SARS-CoV-2 pelo guideline PC-NCP (National Guideline on Prevention and Control of the Novel Coronavirus Pneumonia), com febre, sintomas respiratórios e tomografia compatível com pneumonia por Covid-19.

Um total de 12 dos 38 pacientes (31.6%) tiveram manifestações oculares compatíveis com conjuntivite, incluindo hiperemia conjuntival, quemose, epífora e secreção. Desses 12 pacientes, quatro casos foram considerados moderados (febre e/ou sintomas respiratórios e achados tomográficos), dois casos foram considerados graves (dispneia, saturação de O2 menor que 93%) e seis casos foram considerados críticos (falência respiratória ou choque ou disfunção de múltiplos órgãos), de acordo com o guideline PC-NCP4.

Desses pacientes, um teve epífora como primeiro sintoma de Covid-19. Nenhum apresentou embaçamento visual. Pacientes com sintomas oculares tiveram uma maior tendência a ter aumento dos leucócitos, contagem de neutrófilos e níveis elevados de procalcitonina, proteína C reativa e desidrogenase láctica que pacientes sem sintomas oculares. Onze dos 12 pacientes (91,7%) com anormalidades oculares tiveram resultado positivo para SARS-CoV-2 no PCR do swab nasofaríngeo. Desses, dois tiveram PCR positivo tanto no swab conjuntival quanto nasofaríngeo.

 

 

Resultados

A investigação sugeriu que entre os pacientes com Covid-19, 31,6% tiveram anormalidades oculares, com a maioria dos pacientes com manifestações sistêmicas graves ou achados anormais nos testes sanguíneos. Esses resultados sugerem que os sintomas oculares comumente aparecem em pacientes com pneumonia grave. O estudo mostrou uma baixa prevalência (5.2%) de nucleotídeos de SARS-CoV-2 nos espécimes conjuntivais de pacientes com Covid-19, consistente com os estudos prévios na SARS.

Foi encontrado apenas um paciente com conjuntivite como primeiro sintoma. Artigos anteriores mostraram a contaminação potencial da infecção ocorrendo em pacientes sem febre e poucos ou sinais ausentes de infecção. Olhos não protegidos foram associados com um risco aumentado de transmissão de SARS-CoV-1 e os resultados desse novo estudo sugerem que o SARS-CoV-2 pode também ser transmitido através dos olhos.

As limitações do estudo incluem uma amostra pequena e a ausência de um exame ocular mais detalhado para excluir outras doenças oculares. Além disso, foi coletada apenas uma amostra do olho de cada paciente, o que pode ter gerado mais falsos negativos. Ainda aguardamos mais estudos que possam elucidar de forma mais consistente a transmissão pela via conjuntival.

Autora:

Juliana Rosa

Pós graduação Lato Sensu em Córnea pela UNIFESP ⦁ Especialização em lentes de contato e refração pela UNIFESP ⦁ Residência médica em Oftalmologia pela UERJ ⦁ Graduação em Medicina pela UFRJ ⦁ Contato: julianarosaoftalmologia@gmail.com

Referência bibliográfica:

  • Wu P, Duan F, Luo C, et al. Characteristics of Ocular Findings of Patients With Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) in Hubei Province, China. JAMA Ophthalmol. Published online March 31, 2020. doi:10.1001/jamaophthalmol.2020.1291

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