#Plasma de pacientes recuperados para o tratamento da Covid-19?

Postado em

Kathleen Doheny

COVID-19 (coronavirus) update - Royal College of Surgeons in Ireland

 

 

Robert Pace, um padre episcopal norte-americano, está acostumado a colocar os outros em primeiro lugar e a ajudar. Então, quando o pneumologista que o tratou da Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) perguntou se ele gostaria de doar sangue para ajudar outros pacientes, ele não hesitou.

“Eu disse: ‘Com certeza'”, lembrou Robert, 53 anos. Ele disse que a ideia foi ‘muito interessante’. Quando estava com Covid-19, em março, o padre passou três dias no hospital, isolado, recebendo fluidos por via intravenosa (IV) e oxigênio. Ele teve dispneia e taquicardia. Agora, totalmente recuperado, seu sangue é algo precioso, rico em anticorpos e potencialmente capaz de salvar vidas.

Enquanto os pesquisadores lutam para encontrar medicamentos para combater a Covid-19, outros estão testando um tratamento antigo. Eles estão coletando sangue de pacientes curados para uso em pacientes com infecção grave, um tratamento conhecido como terapia com “plasma convalescente”.

Os médicos disseram que o tratamento provavelmente poderá ser usado até que outros medicamentos e uma vacina estejam disponíveis.

Embora a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos considere o tratamento experimental, no final de março, a agência facilitou o acesso a ele. Os pacientes podem recebê-lo como parte de um ensaio clínico ou por meio de um programa de acesso expandido supervisionado por hospitais ou universidades. Um médico também pode solicitar permissão para tratar um único paciente.

“A justificativa é que se trata de uma necessidade emergente e compassiva”, disse o Dr. John Burk, médico pneumologista do Texas Health Harris Methodist Hospital, nos EUA, que tratou o padre Robert. “É uma maneira de disponibilizá-la na prática clínica”. E a aprovação pode ser rápida. Dr. John disse que recebeu uma aprovação da FDA apenas 20 minutos depois de solicitá-la para um paciente grave.

Como funciona

A premissa de como isso funciona é “bastante simples”, disse o Dr. Michael Joyner, médico e professor de anestesiologia da Mayo Clinic, nos EUA. “Quando alguém se recupera e não é mais sintomático, você pode coletar esses anticorpos do sangue e dá-los para outra pessoa e, espera-se que isso vá mudar a evolução do paciente. “Dr. Michael é o primeiro pesquisador do Expanded Access to Convalescent Plasma for the Treatment of Patients with Covid-19, da FDA, com abrangência nacional e 1.000 locais participantes.

A terapia com “plasma convalescente” foi usada no combate de muitos outros vírus, como o Ebola, a síndrome respiratória aguda grave (SARS, sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome), a gripe “aviária”, a gripe por H1N1 e durante a pandemia de gripe de 1918. O Dr. Michael disse que a evidência mais forte vem da década de 50, quando esta terapia foi usada para tratar uma doença transmitida por roedores chamada febre hemorrágica argentina. O uso de terapia com “plasma convalescente” nesta infecção reduziu a taxa de mortalidade de quase 43%, antes do tratamento se tornar comum no final da década de 50, para cerca de 3% após ser amplamente utilizado, segundo um relatório.

Os dados sobre terapia com “plasma convalescente” especificamente para Covid-19 são limitados. Pesquisadores chineses publicaram um estudo com cinco pacientes graves, todos em ventilação mecânica, tratados com plasma após terem recebido antivirais e anti-inflamatórios. Três pacientes tiveram alta após de 51 a 55 dias, e dois estavam em condição estável no hospital, 37 dias após a transfusão.

Em outro estudo com 10 pacientes graves, os sintomas desapareceram ou melhoraram para todos os 10 até três dias após a transfusão. Dois dos três em ventilação passaram para uso de oxigênio apenas. Nenhum morreu.

Os pesquisadores chineses também relataram três casos de pacientes com Covid-19 que receberam terapia com “plasma convalescente” e tiveram uma recuperação satisfatória.

Pesquisadores que revisaram o histórico desta terapia para outras doenças concluíram recentemente que o tratamento não parece ter efeitos colaterais graves e deve ser estudado para a Covid-19.

Embora as informações sobre os efeitos colaterais específicos deste tratamento estejam evoluindo, o Dr. Michael disse que eles são “muito, muito poucos”.

Segundo a FDA, reações alérgicas podem ocorrer com terapias com plasma. Como o tratamento para Covid-19 é novo, não se sabe se os pacientes podem ter outros tipos de reação.

Quem pode doar?

Representantes dos bancos de sangue e pesquisadores que administram os programas de terapia com plasma convalescente” disseram que o desejo de ajudar é grande, e que receberam inúmeros candidatos para doações. Mas os requisitos são rigorosos.

Os doadores devem ter evidências da infecção por SARS-CoV-2 (sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) documentada de várias formas, como por teste diagnóstico por swab nasal ou exame de sangue mostrando a presença de anticorpos. E eles devem estar sem sintomas por 14 dias, se tiverem o resultado dos testes ou por 28 dias se não.

O tratamento envolve a coleta de plasma, não do sangue. O plasma, a parte líquida do sangue, ajuda na coagulação e na imunidade. Durante a coleta, o sangue de um doador passa por uma máquina que coleta apenas o plasma, e devolve os glóbulos vermelhos e as plaquetas ao doador.

Ensaios clínicos

Os requisitos podem ser mais rigorosos para os doadores participantes de um ensaio clínico formal do que em um programa de acesso expandido. Por exemplo, potenciais doadores em um ensaio clínico randomizado em andamento na Stony Brook University devem ter níveis mais altos de anticorpos do que o exigido pela FDA, disse o líder do estudo Dr. Elliott Bennett-Guerrero, diretor médico de qualidade perioperatória e segurança do paciente e professor da Renaissance School of Medicine.

Ele espera recrutar até 500 pacientes da área de Long Island, NY. Os ensaios clínicos costumam ter uma divisão de 50-50, metade dos indivíduos recebe o tratamento e a outra metade recebe placebo. A distribuição no estudo de Dr. Elliott será de 80% dos pacientes para a terapia com “plasma convalescente” e de 20% para o plasma padrão.

Julia Sabia Motley, 57, de Merrick, Nova York, espera se tornar doadora para o estudo Stony Brook. Ela e o marido, Sean Motley, 59, testaram positivo para Covid-19 no final de março. Ela precisa passar por mais um teste antes de poder participar do estudo. Seu marido também quer doar. “Finalmente, há algo que posso fazer”, disse Julia. Seu filho está no programa de medicina da Stony Brook e contou a ela sobre o estudo.

Ainda há muitas perguntas

O tratamento para Covid-19 ainda está engatinhando. O Dr. John usou o “plasma convalescente” em dois pacientes. Um está se recuperando em casa e o outro está no ventilador, mas está melhorando, disse ele.

Cerca de 200 pacientes em todo o país receberam a terapia, disse o Dr. Michael. Ele espera que o suprimento de sangue aumente à medida que mais pessoas puderem doar.

Ainda não se conhece a efetividade da terapia com “plasma convalescente”. Embora os especialistas saibam que os anticorpos contra o SARS-CoV-2 “podem ser úteis no combate ao vírus”, eles não sabem “quanto tempo os anticorpos permanecem no plasma”, disse o Dr. Elliott.

Os médicos também não sabem para quem a terapia pode ser útil, além das pessoas com doença grave ou com risco de morte. Quando é usada para outras infecções, geralmente é administrada nos estágios iniciais, ao início dos sintomas, disse o Dr. Michael.

O Dr. Michael disse que vê o tratamento como uma medida paliativa, “até que os anticorpos concentrados estejam disponíveis”. Várias empresas farmacêuticas estão atuando na coleta de anticorpos de doadores e na produção de medicamentos com anticorpos concentrados.

“Normalmente, consideraríamos o “plasma convalescente” como um tratamento a ser usado até que terapias seguras, efetivas e que possam ser produzidas em massa estejam disponíveis, como uma vacina ou um medicamento”, disse o Dr. Elliott.

Mesmo assim, ele disse que não acha que terá problemas para atrair doadores e que terá doadores recorrentes, que querem muito ajudar.

Mais informações para potenciais doadores

Bancos de sangue, a Cruz Vermelha norte-americana e outros envolvidos com a terapia com “plasma convalescente” publicaram informações on-line para potenciais doadores. As pessoas que não atendem aos requisitos para doação de plasma para Covid-19 ainda podem doar sangue nos bancos de sangue comuns se atenderem a esses critérios.

Segundo a FDA, uma doação pode salvar a vida de até quatro pacientes com Covid-19.

O padre Robert já está planejando outra visita ao banco de sangue. Para passar o tempo da última vez que doou, ele disse que orou pela pessoa que eventualmente receberia seu sangue.

# Medscape

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