#Características epidemiológicas e clínicas da #Covid-19 em crianças

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Criança se protege durante a pandemia de Covid-19

A doença do novo coronavírus (Covid-19) apresentou manifestações clínicas diversas em uma série de casos de crianças e adolescentes hospitalizados em Nova York, segundo o estudo Epidemiology, clinical features, and disease severity in patients with coronavirus disease 2019 (Covid-19) in a children’s hospital in New York City, New York, de Zachariah e colaboradores, publicado em 03 de junho de 2020, no jornal JAMA Pediatrics. O objetivo desse estudo foi descrever as características epidemiológicas, clínicas e laboratoriais de pacientes com Covid-19 hospitalizados em um hospital infantil e comparar esses parâmetros entre pacientes hospitalizados com e sem doença grave.

 

Estudo sobre Covid-19 em crianças em Nova Iorque

O estudo foi realizado no New York-Presbyterian Morgan Stanley Children’s Hospital, um hospital infantil terciário afiliado a Columbia University Irving Medical Center, hospital infantil afiliado academicamente na cidade de Nova York, estado de Nova York, Estados Unidos. Os pesquisadores realizaram uma revisão retrospectiva de registros médicos eletrônicos. Foram incluídas 50 crianças e adolescentes com idade igual ou inferior a 21 anos, hospitalizados e que foram testados com base na suspeita clínica de Covid-19 entre 1° de março e 15 de abril de 2020, com resultados positivos para o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 – SARS-CoV-2).

Os resultados encontrados foram:

  • 27 pacientes (54%) eram meninos;
  • 25 pacientes (50%) eram hispânicos;
  • A mediana de dias desde o início dos sintomas até a admissão foi de 2 dias [intervalo interquartil (IIQ), 1-5 dias];
  • 40 pacientes (80%) apresentaram febre. 32 (64%), apresentaram sintomas do trato respiratório superior/inferior (como tosse, congestão nasal, dor de garganta e/ou dispneia). 3 pacientes (6%) tiveram somente manifestações clínicas do trato gastrointestinal;
  • As apresentações atípicas incluíram convulsões ou atividade do tipo convulsiva [3 (6%)], odinofagia grave [1 (2%)], perda de olfato [3 ([6%)], pneumotórax recorrente [1 (2%)] e hepatite em um paciente que recebeu um transplante de fígado cujo doador foi considerado com SARS-CoV-2 positivo pós-transplante [1 (2%)];
  • Nenhum dos 14 lactentes e somente 1 de 8 pacientes imunocomprometidos apresentaram doença grave;
  • Dezesseis pacientes (32%) necessitaram de suporte ventilatório. Destes, 9 (18%) necessitaram de ventilação mecânica (VM). Um paciente (2%) evoluiu para óbito;
  • A comorbidade mais prevalente foi a obesidade [11 (22%)]. Outras comorbidades encontradas foram: asma, imunossupressão, doença neurológica, anemia falciforme, cardiopatia, diabetes, síndrome genética e doença respiratória crônica;
  • A obesidade foi significativamente associada à VM em crianças de 2 anos de idade ou mais [6 de 9 (67%) versus 5 de 25 (20%); P = 0,03);
  • A linfopenia foi comumente observada na admissão [36 (72%)], mas não diferiu significativamente entre aqueles com e sem doença grave;
  • Pacientes com doença grave apresentaram proteína C reativa significativamente mais alta (mediana, 8.978 mg/dL versus 0,64 mg/dL) e níveis de procalcitonina (mediana, 0,31 ng/mL versus 0,17 ng/mL) na admissão (P < 0,001), assim como níveis elevados de interleucina 6, ferritina e D-dímero elevados durante a hospitalização;
  • A hidroxicloroquina foi administrada a 15 pacientes (30%), mas não pôde ser completada em 3;
  • A positividade do teste prolongado (máximo de 27 dias) foi observada em 4 pacientes (8%).

Limitações

O estudo apresentou algumas limitações. O hospital atende predominantemente uma comunidade hispânica, portanto, os achados podem não ser generalizáveis para outras populações. A generalização também pode ser limitada pelo pequeno tamanho da amostra. Os pesquisadores descreveram que podem não ter capturado todas as comorbidades ou sinais e sintomas. Além disso, no cenário de ampla transmissão comunitária, a detecção de SARS-CoV-2 também pode ser coincidente com outros diagnósticos e a detecção pode representar uma doença anterior, sintomas leves e/ou infecção assintomática, gerando erros de classificação.

Conclusão

Zachariah e colaboradores concluíram que, à medida que a transmissão comunitária do SARS-CoV-2 continua, os hospitais devem estar atentos às apresentações variáveis da Covid-19, testar livremente, tentar a estratificação de risco precoce das populações e ter protocolos clínicos e de prevenção e controle de infecção bem estabelecidos. Por fim, o tratamento precisa considerar o risco de toxicidade, controle da replicação antiviral e o reconhecimento e o tratamento precoces da desregulação imunológica.

 

Autor(a):

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

  • Zachariah P, et al. Epidemiology, Clinical Features, and Disease Severity in Patients With Coronavirus Disease 2019 (Covid-19) in a Children’s Hospital in New York City, New York. JAMA Pediatrics. 2020. doi:10.1001/jamapediatrics.2020.2430

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