#Quais as principais recomendações para uma #alimentação saudável em crianças?

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Recomendações sobre o papel dos cuidadores na formação de comportamentos alimentares infantis associados a um peso corporal saudável foram emitidas pela American Heart Association (AHA). Essas recomendações foram publicadas no artigo Caregiver Influences on Eating Behaviors in Young Children no Journal of the American Heart Association.

Comportamentos alimentares em crianças

Segundo a AHA, uma boa alimentação e um risco reduzido de obesidade são suportados quando:

  1. As gestações são iniciadas com um peso saudável, as diretrizes atuais para a ingestão de calorias, gorduras e açúcares totais são respeitadas e o ganho de peso durante a gestação é mantido dentro recomendado.

Existem poucos estudos sobre o assunto realizados em seres humanos. Mas as evidências indicam que uma obesidade prévia, a dieta materna e o ganho de peso excessivo durante a gravidez podem estar associadas ao aumento do risco de obesidade em crianças: fatores como o consumo de proteínas e gorduras aos 10 anos de idade podem se correlacionar com a ingestão materna desses macronutrientes durante a gestação.

  1. Os cuidadores sabem diferenciar quando a criança está com fome e saciada dos hábitos não relacionados ao apetite.

Os primeiros sinais de fome na criança incluem sucção, abertura/fechamento da boca repetidamente, e maior atenção à mamada. Sinais iniciais de saciedade na infância englobam o interesse pelo ambiente, a diminuição do nível de atividade, afastamento abrupto ou desconexão do mamilo e quando a criança adormece.

  1. Os cuidadores prestam atenção aos sinais verbais e não verbais das crianças e não as pressionam a comer mais do que desejam.

Para uma criança que não está abaixo do peso (pelo Índice de Massa Corporal – IMC), os cuidadores devem permitir que elas escolham quando parar de comer durante uma refeição e até mesmo não comer nada.

 

  1. Os cuidadores não se concentram no que ou no quanto uma criança come. Em vez disso, uma dieta variada é incentivada, como pela oferta consistente e repetida de alimentos saudáveis, alimentos “preferidos” e pelo consumo entusiasmado desses alimentos pelos próprios cuidadores.

Pesquisas sugerem que, para uma boa autorregulação da alimentação infantil, o período pré-escolar é crítico. A autorregulação é o mecanismo biológico que leva as crianças a comer em resposta à fome e a parar de comer em resposta à saciedade. As abordagens que se concentram no que (ou na quantidade) que uma criança está comendo, a pressão para comer certos alimentos ou a restrição dos tipos e quantidade de alimentos consumidos, geralmente são bem-intencionadas (o objetivo geralmente é melhorar a qualidade da dieta, por exemplo, o consumo de vegetais). No entanto, tem sido associada a uma capacidade prejudicada de autorregular comportamentos alimentares na pré-escola e a uma menor compensação de energia na infância.

Por outro lado, práticas restritivas de alimentação, como limitar a ingestão de certos alimentos (como salgadinhos, por exemplo), têm sido associadas a um maior consumo de alimentos quando não há fome, a uma maior ingestão de energia, maior adiposidade e maior probabilidade da criança não parar de comer quando está satisfeita. Ademais, os comportamentos alimentares podem ser condizentes com o temperamento da criança, além da saúde mental do cuidador. Quando o medo do julgamento baseado nos comportamentos alimentares ideais da criança é tratado, os cuidadores podem promover um melhor relacionamento alimentar entre eles e os filhos.

  1. É estabelecida uma estrutura apropriada em torno dos alimentos, que se concentra não no comportamento infantil, mas fornece regras e limites nas refeições das crianças, por meio de rotinas de lanches, horários das refeições e disponibilidade seletiva de alimentos em casa.

Em relação às condições socioeconômicas, cuidadores que vivem em situação de pobreza ou com poucos recursos podem enfrentar desafios únicos para implementar as práticas alimentares recomendadas. A renda e o status socioeconômico podem influenciar as práticas alimentares por meio de muitos caminhos inter-relacionados e complexos, incluindo o acesso limitado a alimentos saudáveis relativamente mais caros para muitas famílias pobres, especialmente quando esses alimentos exigem tempo, conhecimento e instalações para preparo e armazenamento.

Além disso, horários imprevisíveis de trabalho podem restringir o planejamento das refeições e mitigar rotinas regulares, como as refeições em família.

 

Outros pontos

A AHA destaca que qualquer conselho dado aos cuidadores sobre seus comportamentos alimentares precisa ser oferecido dentro do contexto dos desafios de implementação. É importante reconhecer que:

  • Bebês e cuidadores podem aprender um com o outro sobre práticas alimentares saudáveis e responsivas e o reconhecimento de sinais de fome e saciedade, independentemente de decisões sobre do que o bebê está se alimentando;
  • Modificar os comportamentos alimentares de alguém pode ser mais difícil para alguns cuidadores do que para outros. Os comportamentos alimentares do cuidador não são “definidos”, mas diferem com base no temperamento da criança e no bem-estar psicológico do cuidador. A culpa e o julgamento que alguns cuidadores sentem quando o filho não se conforma com a ideia de “bons comportamentos alimentares” podem ser abandonados, o que pode, em última instância, encorajar uma parceria mais responsiva entre o cuidador e a criança;
  • As estratégias ideais de alimentação podem diferir, dependendo do perfil comportamental geneticamente influenciado da criança. Por exemplo, pais com obsessão por perda de peso podem influenciar desordens alimentares na criança. As estratégias de bons hábitos alimentares devem ser adotadas por toda a família.

 

O comitê responsável pelas recomendações destaca que reconhece as dificuldades inerentes à implementação de mudanças no ambiente alimentar e incentivam políticas que abordem barreiras no contexto socioeconômico mais amplo, incluindo os determinantes sociais da saúde, juntamente com os esforços dos cuidadores individuais na prevenção da obesidade infantil.

Embora os esforços que incentivam os profissionais de saúde a fornecer um ambiente de alimentação estruturado e responsivo possam ser um componente importante da redução da obesidade e do risco cardiometabólico ao longo da vida, é provável que eles sejam mais eficazes como parte de uma estratégia de prevenção de múltiplos componentes.

Autora:

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referência bibliográfica:

  • WOOD, A. et al. AHA Scientific Statement: Caregiver Influences on Eating Behaviors in Young Children. J Am Heart Assoc, v.9, e014520, 2020. DOI: 10.1161/JAHA.119.014520

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