#Quais os possíveis efeitos do #isolamento pela #Covid-19 em jovens?

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Adolescente praticando isolamento social em época de pandemia da Covid-19

A pandemia da Covid-19 resultou em medidas de contenção de doenças, como fechamento de escolas, distanciamento social e quarentena em residências. Crianças e adolescentes estão vivenciando um estado prolongado de isolamento físico de seus colegas, professores, e redes familiares e comunitárias.

A quarentena em adultos geralmente tem efeitos psicológicos negativos, como confusão, raiva e sofrimento pós-traumático. A duração da quarentena, medos de infecção, tédio, frustração, falta de suprimentos necessários, falta de informação, perda financeira e estigma parecem aumentar o risco de resultados psicológicos negativos.

 

Isolamento pela Covid-19 e os mais jovens

O distanciamento social e o fechamento das escolas podem, portanto, aumentar os problemas de saúde mental em crianças e adolescentes, já com maior risco de desenvolver problemas de saúde mental em comparação aos adultos em um momento em que também experimentam ansiedade devido a uma ameaça à saúde e ameaças ao emprego/renda familiar.

É provável que o distanciamento social e o fechamento das escolas resultem em maior solidão em crianças e adolescentes cujos contatos sociais habituais são restringidos pelas medidas de contenção da doença. A solidão é a dolorosa experiência emocional de uma discrepância entre o contato social real e o desejado. Embora o isolamento social não seja necessariamente sinônimo de solidão, informações precoces no contexto da Covid-19 indicam que mais de um terço dos adolescentes relatam altos níveis de solidão e quase metade dos jovens com idades entre 18 e 24 anos está solitária durante o confinamento.

 

Estudos sobre os impactos do isolamento

Com o objetivo de estabelecer o que se sabe sobre como as medidas de solidão e contenção de doenças têm impacto na saúde mental de crianças e adolescentes, Loades e colaboradores realizaram o estudo Rapid Systematic Review: The Impact of Social Isolation and Loneliness on the Mental Health of Children and Adolescents in the Context of Covid-19, divulgada pelo Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. Os pesquisadores efetuaram busca de artigos publicados entre 01/01/1946 e 29/03/2020, nas bases MEDLINE, PSYCHINFO e Web of Science. Foram utilizados termos como isolamento social, solidão, quarentena e saúde mental.

Métodos dos estudos sobre efeitos do isolamento avaliados

Os pesquisadores identificaram 4.531 estudos em inglês publicados desde 1946. Sessenta e três estudos envolvendo 51.576 participantes saudáveis e utilizando medidas válidas de avaliação foram analisados. Como as medidas de isolamento e solidão têm considerável sobreposição, os pesquisadores as trataram como um único construto. Desses 63 estudos, 61 foram observacionais, 18 eram longitudinais e 43 eram transversais, avaliando a solidão autorreferida em crianças e adolescentes saudáveis. Um desses estudos foi uma investigação retrospectiva após uma pandemia.

Dois estudos avaliaram intervenções. Os estudos tiveram um alto risco de viés, embora os estudos longitudinais tivessem melhor qualidade metodológica. O isolamento social e a solidão aumentaram o risco de depressão e, possivelmente, a ansiedade no período em que a solidão foi avaliada e entre 0,25 a 9 anos depois. A duração da solidão foi mais fortemente correlacionada com os sintomas de saúde mental do que a intensidade da solidão. Ansiedade generalizada e social também foram associadas ao isolamento. Foram encontradas associações entre isolamento/solidão e ideação suicida, automutilação e comportamentos alimentares desordenados. Em um estudo que avaliou problemas de saúde mental após isolamento forçado em pandemias anteriores, as crianças submetidas a quarentena tiveram cinco vezes mais chances do que os controles de necessitar de serviços de saúde mental.

 

Conclusões sobre consequências do isolamento sobre os jovens

Os pesquisadores concluíram, portanto, que os mais jovens têm, provavelmente, maior probabilidade de apresentar altas taxas de depressão e ansiedade durante e após o término do isolamento forçado pela pandemia da Covid-19. Isso pode aumentar à medida que o isolamento imposto continua. Dessa forma, os serviços clínicos devem oferecer apoio preventivo e intervenção precoce sempre que possível e devem estar preparados para o aumento dos problemas de saúde mental na faixa etária pediátrica. Os pediatras e os pais também devem estar atentos para manifestações de estresse, como desatenção e irritabilidade, principalmente em crianças mais novas. No entanto, embora os indivíduos estejam isolados, a atual pandemia de Covid-19 tem mostrado um expressivo compartilhamento de experiências, e isso pode diferenciar positivamente essa pandemia das experiências identificadas nesses estudos.

Autor(a):

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

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