#No Reino Unido, há mais #açúcar em #alimentos para bebês nos últimos sete anos  

Postado em

  
Bebê consome alimentos sob observações dos pais que procuram reduzir o seu consumo de açúcar antes do tempo.

Segundo pesquisadores da Universidade de Glasgow, a gama de alimentos à venda para bebês cresceu rapidamente nos últimos sete anos, mas seus níveis de açúcar ainda são muito elevados. O estudo Changes in the UK baby food market surveyed in 2013 and 2019: the rise of baby snacks and sweet/savoury foods, publicado no jornal Archives of Disease in Childhood, teve como objetivo avaliar como o mercado de alimentos para bebês mudou entre 2013 e 2019 no Reino Unido.

Em 2013, no Reino Unido, muitos alimentos foram comercializados para bebês a partir dos 4 meses de idade, apesar das recomendações para se adiar a alimentação de sólidos até 6 meses. Além disso, quase metade dos produtos era doce. A maioria das mercadorias disponíveis era composta por alimentos úmidos tipo papas, fornecidos em potes.

Dessa forma, foi realizada uma pesquisa transversal de todos os alimentos infantis disponíveis para compra online e em loja física em 2019 no Reino Unido. O conteúdo nutricional e as descrições dos produtos foram registrados e comparados com um banco de dados de 2013.

 

Características do estudo

Em 2019, 898 alimentos para bebês foram identificados. Destes, 611 (68%) eram produtos para comer de colher, embalados principalmente em bolsas (54%), enquanto 253 (28%) eram produtos secos. Outros produtos foram itens diversos, como bebidas (1,8%), molhos (0,7%), cubos de caldo (0,7%) e massas secas (0,3%). Alinhando-se à pesquisa de 2013, o molho de macarrão, o macarrão seco, as bebidas e os cubos foram excluídos de todas as análises, deixando 865 produtos no conjunto de dados de 2019. Além disso, pó seco e cereais matinais foram excluídos da análise nutricional porque o teor total de nutrientes ao adicionar líquido não pode ser estimado.

Os produtos para lanches eram feitos de petiscos secos de milho com sabor de frutas ou vegetais (40,5%, 12,3% com sabor a frutas), frutas secas apenas (14,8%), frutas ou vegetais misturados com cereais (22,3%,88,1% à base de frutas), biscoitos (18,4%) e bolos de arroz com sabor de frutas ou vegetais (8,1%). Os lanches são definidos pelo Public Health England (PHE) como pedaços de alimentos pequenos e fáceis de comer que os bebês podem pegar e comer sozinhos. A promoção dos lanches para bebês parece estar vinculada pelos fabricantes à crescente popularidade do desmame “liderado pelo próprio bebê”.

Achados sobre os alimentos para bebês

Os pesquisadores descreveram que os fabricantes desses alimentos estão tendendo a comercializar lanches como benéficos para as habilidades de alimentação e úteis para alimentação complementar conduzida pelo bebê. O PHE constatou que os lanches compõem 22% dos produtos infantis, mas 35% das vendas e 59% das compras de porções.

Os pesquisadores observaram que menos produtos foram descritos como adequados para bebês de 4 meses em 2019 (201, 23%) em comparação a 2013 (178, 43%; p < 0,001), enquanto a proporção de alimentos para crianças na faixa etária de 6 a 7 meses aumentou (2013: 135, 33%; 2019: 369, 43%; p = 0,001). A proporção de produtos doces e salgados não mudou. Os alimentos doces para comer de colher apresentaram uma pequena, mas significativa, redução no teor de açúcar (6%) entre 2013 e 2019. Entretanto, os alimentos salgados para comer de colher mostraram um aumento de 16%. Os lanches doces permaneceram muito doces (mediana de ~ 20 g/100 g de açúcar nos dois momentos).

No conjunto de dados de 2019, o suco concentrado foi adicionado a 29% (n = 253) dos produtos e 18% (n = 80) dos produtos “salgados” eram compostos por mais de 50% de vegetais ou frutas doces. O número e a proporção de lanches aumentaram acentuadamente em 2019 (185, 21%) em comparação a 2013 (42, 10%; p = 0,001), enquanto a proporção de papas diminuiu (2013: 326, 79%; 2019: 611, 71% ; p = 0,001).

 

Conclusões

Esse estudo mostrou que a variedade de produtos industrializados para alimentação do bebê aumentou drasticamente nos últimos 7 anos no Reino Unido, tanto o número de marcas quanto os tipos de produtos. Agora, menos alimentos são comercializados para bebês de 4 meses, mas o aumento de lanches e o teor de açúcar em alimentos salgados é uma grande preocupação. Os lanches para bebês são muito mais difundidos e a maioria dos alimentos úmidos agora é fornecida em embalagens tipo bolsas.

A transição de uma dieta exclusivamente à base de leite para alimentos sólidos deve ser um processo gradual pelo qual alimentos adequados e nutritivos são introduzidos para os bebês. Se essa transição for feita de forma adequada, permitirá o crescimento e o desenvolvimento, além de promover hábitos alimentares saudáveis futuros. Crianças menores de 1 ano não precisam de lanches, mas pesquisas com consumidores indicaram que a maioria dos pais usa lanches prontos, considerando-os aceitáveis ou desejáveis. Além disso, o ambiente alimentar exerce uma influência importante na escolha dos pais desde o início da vida do bebê. Portanto, monitorar o marketing e a qualidade nutricional dos alimentos comercializados para bebês é extremamente importante para promover a saúde infantil. Por fim, a compreensão dos tipos de produtos disponíveis é importante para os médicos aconselharem as famílias.

Para os pesquisadores, embora atualmente não haja evidências clínicas disponíveis, as consequências de alimentos tipo lanche na saúde de bebês em suas habilidades de alimentação, ingestão de líquidos/leite e a exposição contínua ao açúcar na cavidade oral provavelmente terá implicações para a execução de diretrizes de alimentação saudável. Mais pesquisas sobre a prevalência e a extensão dessas estratégias de marketing são necessárias e pode haver necessidade de regulamentos mais rígidos sobre embalagens para desencorajar o uso de lanches para bebês.

 

Situação brasileira

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) enfatiza que a introdução alimentar seja realizada aos seis meses de vida, de preferência, quando os sistemas renal e digestivo e também o desenvolvimento neuropsicomotor da criança estão adequados para receber alimentos que não sejam líquidos. Essa recomendação da SBP é válida para crianças que estejam ou não em uso de leite materno:

  • Até 6º mês – Leite materno exclusivo;
  • 6° a 24º mês – Leite materno complementado;
  • 6º mês – Frutas (amassadas ou raspadas);
  • 6º mês – Primeira papa principal (almoço ou jantar);
  • 7º a 8º mês – Segunda papa principal (almoço ou jantar);
  • 9º a 11º mês – Passar para a refeição da família com ajuste gradual da consistência;
  • 12º mês – Comida da família – observando a adequação dos alimentos consumidos pela família.

Além disso, a SBP salienta que a adoção de hábitos alimentares saudáveis é determinante para a saúde. O uso de açúcar simples em alimentos não é indicado antes do segundo ano de vida de bebês. Mesmo após esta idade, o consumo deve ser esporádico e não de rotina. O açúcar, além de apresentar elevado teor glicêmico e energético, estimula o paladar mais receptivo ao sabor doce, interferindo nas opções alimentares futuras e riscos provenientes do seu consumo exagerado e indevido.

Autor(a):

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s