Uso de álcool influencia sobrevida de pacientes com câncer de mama triplo negativo

Postado em

Uma pesquisa brasileira avaliou como os fatores sociodemográficos, clínicos e patológicos influenciam os desfechos em mulheres com câncer de mama triplo negativo (CMTN).

O câncer de mama é a neoplasia maligna mais comum entre mulheres na maior parte do mundo. O câncer de mama triplo negativo, definido como “tumor negativo para receptores de estrogênio, progesterona e fator de crescimento epidérmico humano 2 (HER2, sigla do inglês, Human Epidermal Growth Factor 2)”, corresponde a 12% a 17% dos casos.

Esse tipo de câncer frequentemente ocorre em mulheres mais jovens e é associado a mau prognóstico.

Pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (Inca) avaliaram mulheres diagnosticadas com câncer de mama triplo negativo entre 2010 e 2014 que foram submetidas a quimioterapia neoadjuvante seguida de cirurgia curativa.

O estudo foi publicado no periódico Breast Cancer: Basic and Clinical Research.

O Dr. Jessé Lopes da Silva, oncologista clínico no Inca e primeiro autor do estudo, destacou ao Medscape, por e-mail, a importância dessa pesquisa: “O atendimento oncológico das pacientes com câncer de mama deve ser global e multifacetado. Estar focado apenas em questões específicas do tratamento antineoplásico, sem focar nas circunstâncias sociodemográficas, pode induzir a resultados inferiores”, explicou.

Detalhes do estudo

Foram incluídas 235 pacientes com câncer de mama triplo negativo na coorte, após a exclusão de 702 mulheres com doença metastática, tratadas com cirurgia primária, inelegíveis para cirurgia curativa após o tratamento neoadjuvante ou cujas condições gerais ou comorbidades tornavam a quimioterapia neoadjuvante proibitiva.

A média de idade das participantes foi de 50,1 anos, com predominância de brancas (47,6%), com pelo menos oito anos de instrução (55,2%). O índice de massa corporal (IMC) médio foi de 28,1 kg/m².

Tabagismo e consumo de álcool foram relatados por 24,2% e 22,9% das pacientes, respectivamente.

A maioria das pacientes apresentava tumor avançado ao diagnóstico (85,1% em estadiamento ≥ IIIa). O subtipo histológico predominante foi carcinoma ductal invasivo de alto grau (72,1%).

No momento da cirurgia, 23,4 % das pacientes apresentava invasão linfovascular e 11,0% tinha invasão perineural.

Mastectomia foi o tratamento de escolha para 97,4% das pacientes, e foi realizada dissecção axilar em 86,8% delas. Menos de 7% das mulheres fizeram quimioterapia após a cirurgia. O tempo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento foi de 90 dias.

Uma resposta patológica completa, definida como ausência de tumor viável na mama e axila, ocorreu em 21,2% das mulheres. O único fator que influenciou a taxa de resposta patológica completa foi o estadiamento II, com uma razão de chances ajustada (aOR, sigla do inglês, adjusted Odds Ratio) de 2,95 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 1,25 a 6,86; P = 0,12).

As pacientes foram acompanhadas por uma mediana de 64,3 meses, com recorrência locorregional ocorrendo em 21,7% dos casos, e recidivas à distância em 40,4% dos casos. Os sítios distantes mais frequentes foram pleuropulmonar, linfonodal, hepático, ósseo e sistema nervoso central.

A sobrevida livre de eventos em três anos foi de 59,4% (IC 95%, de 53,4 a 66,2%) e em cinco anos foi de 53,3% (IC 95%, de 47,0 a 60,5%).

Pacientes com resposta patológica completa tiveram uma redução de 85% no risco de eventos em comparação com aquelas que não apresentaram resposta patológica completa (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 0,15; IC 95%, de 0,06 a 0,34; P < 0,001).

Quanto à sobrevida global, a probabilidade de estar viva em três e cinco anos foi, respectivamente, de 68,2% (IC 95%, de 62,3 a 74,6%) e 59,6% (IC 95%, de 53,0 a 66,5%). A mediana de sobrevida global foi de 83,36 meses.

A resposta patológica completa também influenciou a sobrevida global. Pacientes com resposta patológica completa tiveram uma redução de 89% no risco de morte versus aquelas que não apresentaram resposta patológica completa (HR de 0,11; IC 95% de 0,04 a 0,31; P < 0,001).

O consumo de álcool influenciou tanto a sobrevida livre de eventos como a sobrevida global, aumentando em 74% o risco de algum evento (P = 0,02) e em 97% o risco de morte (P = 0,002). Já o tabagismo não teve impacto estatisticamente significativo nessas taxas.

Fatores de mau prognóstico

Os dados de sobrevida e outros desfechos da pesquisa mostram o mau prognóstico de boa parte dos casos de câncer de mama triplo negativo.

Uma questão importante a ser considerada é que, muito frequentemente, as mulheres foram diagnosticadas tardiamente, já com um estadiamento avançado, e que o tempo mediano entre o diagnóstico e início do tratamento foi bastante longo.

O Dr. Jessé destacou ainda a importância de se considerar a carga tumoral residual após a quimioterapia neoadjuvante. “Hoje, para câncer de mama triplo negativo, já temos algumas sugestões de tratamento adjuvante complementar de manutenção, como o uso da capecitabina adjuvante, baseado no estudo CREATE-X”, explicou.

Quanto ao consumo de bebidas alcoólicas, os autores do estudo discutem que pode haver interferência do álcool na farmacocinética da quimioterapia, assim como implicações sociais relacionadas com uma menor adesão ao tratamento.

“Essa influência pode potencialmente se dar tanto de forma direta, por meio de alterações do metabolismo de drogas antineoplásicas, quanto de forma indireta pela pior adesão dessas pacientes às recomendações de tratamento oncológico.”

Entretanto, para aprimorar essas conclusões, seria importante avaliar dados como dose e frequência de consumo, que não estavam disponíveis nessa coorte.

O Dr. Jessé informou que os autores têm a intenção de realizar estudos prospectivos sobre o tema, e, possivelmente, pesquisas intervencionistas.

“Entender os fatores sociodemográficos que cercam a população de pacientes com câncer de mama e suas influências nos resultados finais do tratamento oncológico pode ser crucial na abordagem dessas pacientes, principalmente em populações potencialmente mais vulneráveis, como é o caso da população atendida no Sistema Único de Saúde (SUS)”, concluiu.

Medscape Notícias Médicas © 2020 WebMD, LLC

Citar este artigo: Uso de álcool influencia sobrevida de pacientes com câncer de mama triplo negativo – Medscape – 23 de outubro de 2020.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s