Alergia a ovo e à proteína do leite de vaca e o surgimento de eczema em crianças

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copo de leite que não pode ser dado a criança com alergia à proteína do leite de vaca

A incidência de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) mediada por imunoglobulina E (IgE) foi maior em crianças atópicas com eczema facial grave durante o primeiro ano de vida, de acordo com o estudo Association between sites and severity of eczema and the onset of cow’s milk and egg allergy in children.

Alergia à proteína do leite de vaca

A alergia alimentar ocorre com frequência em crianças de vários países. A incidência relatada de alergia alimentar varia de 6 a 10% na Europa, Estados Unidos e Japão e aumentou para 8% nas últimas duas décadas, de acordo com uma pesquisa realizada em 98 países na terceira fase do International Study of Asthma and Allergies in Childhood. A sensibilização transdérmica é um fator amplamente envolvido no desenvolvimento de alergia alimentar, e as intervenções destinadas a prevenir o aparecimento de eczema devem preveni-la. O estabelecimento de métodos eficazes de prevenção pode limitar o desenvolvimento de doenças alérgicas subsequentes.

Em muitos locais, o leite de vaca se torna a principal fonte de nutrição infantil após o leite materno. Contudo, a presença de APLV prejudica muito a qualidade de vida não somente das crianças, mas também de seus cuidadores. O ovo também é um nutriente essencial que fornece ácidos graxos, vitaminas e proteínas e beneficia a nutrição infantil e o desenvolvimento cerebral.

O leite de vaca e o ovo são os antígenos relatados mais frequentemente envolvidos na alergia alimentar: a incidência de APLV mediada por IgE e alergia ao ovo (AO) é de 2,3% e 2,5% na Europa, respectivamente.

Metodologia

Com o objetivo de avaliar a associação entre APLV e AO e os locais e a gravidade do eczema infantil, pesquisadores japoneses realizaram um estudo retrospectivo baseado em dados de pacientes com idades de 2 a 19 anos, portadores de doença atópica.

Esses pacientes receberam tratamento no período entre julho de 2015 e março de 2019 na no Pediatric Allergy Clinic in National Hospital Organization Nagoya Medical Center, no Japão. Foram coletados dados sobre a história de sintomas mediados por IgE, eczema no primeiro ano de vida, história parental de doenças atópicas e nutrição infantil.

Resultados

Foram incluídos 289 pacientes, dos quais 81 (28%) e 111 (38%) crianças tinham APLV e AO mediados por IgE, respectivamente.

Nenhum fator relacionado à nutrição infantil (incluindo sexo, história de doença atópica dos pais e tabagismo dos pais durante a gravidez) foi significativamente associado a APLV e AO.

Embora não tenha havido relação entre a ingestão de leite de vaca na infância e APLV (P = 1,000), a proporção de crianças com ingestão de leite de vaca após 7 meses de idade foi significativamente menor em pacientes com APLV do que naqueles sem APLV (11% versus 37 %, P <0,001). A incidência de APLV foi significativamente maior no grupo com períodos de amamentação mais longos. No entanto, não houve relação estatística com a ingestão de leite de vaca ou período de amamentação em pacientes com AO.

Mais de 80% das crianças foram introduzidas à alimentação sólida entre os 5 e 7 meses de idade. Nenhuma criança com AO foi introduzida a alimentos sólidos antes dos quatro meses de idade. Não houve prevalência elevada significativa de APLV e AO entre as faixas etárias de introdução de alimentos sólidos.

Mais de 80% das crianças tiveram episódios de eczema infantil. Foi encontrada forte correlação entre os membros superiores e inferiores (coeficiente de correlação r = 0,83). Correlações moderadas foram encontradas entre o tronco e o membro superior (r = 0,69) e entre o tronco e o membro inferior (r = 0,65).

As taxas de APLV e AO foram maiores nas crianças com eczema infantil do que naquelas sem eczema: 30% versus 9% e 42% versus 21%, nessa ordem. A taxa de APLV também foi maior em crianças com eczema facial. Diferenças significativas foram observadas na taxa de APLV entre crianças com eczema facial de exsudação (odds ratio ajustado 2,398; P = 0,017) e pápulas (odds ratio ajustado 2,787; P = 0,008), usando análise multivariada.

Limitações

Limitações do estudo incluem:

  1.  Por ser um estudo retrospectivo, não foi possível determinar a relação causal potencial entre eczema facial grave e alergia alimentar;
  2. Não foi incluída a idade de introdução do ovo como uma covariável. Isso porque essa informação não estava nos registros médicos eletrônicos;
  3. Não foram analisados detalhes sobre a duração da amamentação ou ingestão de leite de vaca. Os resultados revelaram que a proporção de APLV não era dependente da duração da amamentação ou da ingestão de leite de vaca aos seis meses de idade, sugerindo que a ingestão exclusiva de leite materno, embora não preventiva contra APLV, pode prevenir o desenvolvimento geral de doenças atópicas;
  4. A coorte do estudo atual foi limitada a crianças atópicas. Ainda não está claro se os resultados do estudo podem ser expandidos para a população em geral. No entanto, os pesquisadores puderam observar relação específica do eczema com APLV, mas não com AO, em crianças atópicas.

Conclusões

O estudo concluiu que a taxa de APLV mediada por IgE foi alta entre crianças atópicas com eczema facial grave durante a infância. No entanto, futuros estudos de coorte de nascimento são necessários para se avaliar a relação de causa-efeito entre eczema facial grave e APLV e a relação com outras alergias alimentares.

Autora:

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

  • Kawada S, Futamura M, Hashimoto H, Ono M, Akita N, Sekimizu M, et al. (2020) Association between sites and severity of eczema and the onset of cow’s milk and egg allergy in children. PLoS ONE 15(10): e0240980. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0240980

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