Dor crônica e reabilitação pós-infecção por Covid-19

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Representação gráfica do vírus causador da Covid-19, que pode causar dor crônica e gerar a necessidade de reabilitação após a internação

Junto com o aparecimento da mais nova doença que domina o mundo atual, o Covid-19, surgiram complicações pós-internação hospitalar, a longo termo, principalmente nos pacientes mais graves que necessitam de tratamento em unidade de terapia intensiva, o que cria a necessidade de reabilitação pós-internação.

Sabe-se que cerca de 17% dos pacientes que são hospitalizados com a forma severa do Covid-19, necessitam de ventilação mecânica e cuidados intensivos. Sabe-se também que a infecção por Covid-19 não é somente uma infecção de acometimento respiratório, mas também de outros órgãos e sistemas como: coração, rim, sistema neurológico e sistema hematológico. Devido a isso, estudos vêm demonstrando que grande parte desses pacientes apresenta no período pós alta hospitalar algumas complicações clínicas, principalmente relacionadas a quadro de dor crônica, que deve ser avaliado e tratado adequadamente.

Atualmente, existe uma tendência ao call to action de equipes de reabilitação multidisciplinar para avaliar e promover uma reabilitação tanto física como mental desses pacientes. Essa característica está sendo descrita atualmente como síndrome pós-tratamento intensivo que influencia de maneira extremamente relevante na qualidade de vida desses pacientes.

Causas

O risco de desenvolvimento de dor crônica nos pacientes tratados de Covid-19 pode ser estabelecido sobre alguns pilares. Alguns fatores desencadeantes baseiam-se principalmente no foco único do tratamento da patologia em si, negligenciando mesmo que inconscientemente (principalmente pelo grande número de pacientes assim como pelo número reduzido de equipe treinada), outros sintomas durante a internação, como dor e desconforto que criam gatilhos para o desenvolvimento da dor crônica.

Os pacientes sobreviventes ao Covid-19 que necessitam de tratamento intensivo passam por períodos prolongados de imobilização, sedação e ventilação mecânica, assim como a administração de bloqueadores neuromusculares e corticoides por um longo período, levando ao aparecimento da weakness ICU-acquire, uma síndrome de fraqueza motora associada a grandes períodos de internação em unidades fechadas. Essa síndrome evolui com fraqueza motora, dores articulares, contraturas, miopatias, polineuropatias e atrofia muscular.

A presença de dor aguda, não tratada adequadamente no início da internação, causada pelos próprios procedimentos rotineiros de manipulação do paciente, como intubação, ventilação mecânica, aspiração constante de vias aéreas, troca de decúbito, punções venosas e outros procedimentos invasivos contribuem fortemente como gatilho para o desenvolvimento do quadro de dor crônica e alterações psíquicas e comportamentais.

Além disso, a necessidade da realização de pronação em muitos pacientes para melhora do padrão ventilatório pode levar a lesões de plexo braquial, subluxações articulares e pequenos danos teciduais que podem evoluir para lesões neuropáticas com parestesias, paresias e dor crônica de algum membro.

Comorbidades

Fatores relacionados ao próprio paciente como idade mais avançada e o tropismo do vírus por pacientes com comorbidades como diabetes e obesidade também contribuem para o desenvolvimento de dor crônica nesse período.

Outro fator importante, porém ainda em estudo, é a probabilidade do acometimento do sistema nervoso pelo próprio vírus levando a lesão neural com o desenvolvimento de polineuropatias e até casos de síndrome de Guillain-Barré. A Covid-19 por si, também está intimamente relacionado a quadros álgicos como mialgia, artralgia, cefaleia intensa, dor retro-orbitária, dor abdominal e dor torácica e até pacientes que não necessitam de internação hospitalar em algumas situações precisam ser submetidos a tratamento à base de opioides.

Devido a maioria desses fatores descritos acima e com o avanço de maiores conhecimentos relacionados ao Covid-19, atualmente existe uma grande necessidade de acompanhamento com reabilitação multidisciplinar, pós alta hospitalar desses pacientes. O tratamento adequado da síndrome de dor crônica que vem acometendo grande parte dessa população torna-se imprescindível para um retorno mais rápido e adequado as atividades laborativas e sociais. Apesar dos tratamentos clínicos atuais terem bastante significância na boa evolução da doença aguda, um novo desafio emerge em relação a cuidados das sequelas promovidas pelo Covid-19.

Autor(a):

Gabriela Queiroz

Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC) ⦁ Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA) ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) ⦁ Ênfase em cirurgias de trauma e emergência, obstetrícia, plástica estética reconstrutiva e reparadora e procedimentos endoscópicos ⦁ Experiência em trauma e cirurgias de emergência de grande porte, como ortopedia, vascular e neurocirurgia ⦁ Experiência em treinamento acadêmico e liderança de grupos em ambiente cirúrgico hospitalar ⦁ Orientadora acadêmica junto à classe de residentes em Anestesiologia ⦁ Orientadora e auxiliar em palestras regionais e internacionais na área de Anestesiologia.

Referências bibliográficas:

  • Kemp HI, Corner E, Colvin LA. Chronic pain after COVID-19: implications for rehabilitation. British Journal of Anaesthesia. 2020;125 (4): 436e449. doi: 10.1016/j.bja.2020.05.021
  • Stam HJ, Stucki G, Bickenbach J. Covid-19 and post intensive care syndrome: a call for action. J Rehabil Med. 2020 Apr 15;52(4):jrm00044. doi: 10.2340/16501977-2677.
  • Kemp HI, Laycock H, Costello A, Brett SJ. Chronic pain in critical care survivors: a narrative review. Br J Anaesth. 2019 Aug; 123(2): e372–e384. doi: 10.1016/j.bja.2019.03.025

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