Feriados e risco de alergia alimentar a amendoim e tree-nuts em crianças canadenses

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Alergia a amendoim e tree-nuts é responsável por grande parte de internações por anafilaxia.

Até 9% das crianças no Canadá têm, pelo menos, uma alergia alimentar. Um estudo mostrou que a incidência de anafilaxia (principalmente induzida por alimentos) no departamento de emergência de dois hospitais infantis canadenses quase dobrou de 2012 a 2016. Os principais vilões na anafilaxia induzida por alimentos são amendoim e tree-nuts, responsáveis pela maioria dos casos fatais em toda a América do Norte. Tree-nuts consideradas alérgenos prioritários incluem amêndoas, castanhas-do-pará, castanha de caju, avelãs, nozes de macadâmia, noz pecan, pinhões, pistache e nozes. O amendoim faz parte da família das leguminosas e não é considerado uma noz.

A anafilaxia, que consiste em uma reação alérgica envolvendo, no mínimo, dois sistemas orgânicos ou resultando em hipotensão, é a manifestação mais grave da alergia alimentar, com importante risco de vida. Não se sabe se o risco de anafilaxia induzida por amendoim ou tree-nuts em crianças aumenta em épocas específicas do ano. Com o objetivo foi avaliar o risco de anafilaxia induzida por esses dois tipos de alimentos durante certos feriados culturais em crianças canadenses, pesquisadores do Montreal Children’s Hospital of the McGill University Health Centre (MCH-MUHC) conduziram o estudo Risk of peanut- and tree-nut–induced anaphylaxis during Halloween, Easter and other cultural holidays in Canadian children, publicado em setembro no jornal CMAJ.

Metodologia

Em 2011, os pesquisadores Leung e equipe elaboraram um grande registro para recrutamento de pacientes com anafilaxia que se apresentaram a departamentos de emergência pediátrica em quatro províncias canadenses: Quebec, Ontario, Newfoundland and Labrador e British Columbia. O objetivo desse registro era coletar dados sobre as frequências, gatilhos e manejo de anafilaxia nessas diferentes províncias canadenses.

Foram incluídos dados do período de 15 de abril de 2011 a 31 de janeiro de 2020. Os pesquisadores recrutaram pacientes com menos de 18 anos de idade que apresentaram anafilaxia induzida por noz desconhecida, amendoim ou tree-nuts.

Foram avaliados o número médio de casos por dia e a razão de taxa de incidência (incidence rate ratio – IRR) de anafilaxia induzida por noz desconhecida, amendoim ou tree-nuts, que se apresentaram durante cada um dos seis feriados celebrados no Canadá (Halloween, Natal, Páscoa, Diwali, Ano Novo Chinês e Eid al-Adha) em relação ao resto do ano:

  • Halloween: 31 de outubro de cada ano;
  • Natal: 25 de dezembro de cada ano;
  • Páscoa: domingo de Páscoa ocidental;
  • Diwali: 13º dia do sétimo mês do calendário hindu;
  • Ano Novo Chinês: primeiro dia do primeiro mês do calendário chinês;
  • Eid al-Adha: 10º dia do último mês do calendário islâmico.

Cada categoria de feriado teve um período de 5 dias: o dia anterior ao feriado, o dia da celebração e os 3 dias seguintes. A expectativa era que o maior risco de exposição e reações seria durante este intervalo de tempo, uma vez que podem ocorrer reações devido ao consumo precoce e contínuo de alimentos associados aos feriados.

Os IRR e os intervalos de confiança (IC) de 95% foram estimados por meio de regressão de Poisson.

Resultados

Foram coletados dados de 1.390 casos pediátricos de anafilaxia. A mediana de idade foi de 5,4 anos, e 864 (62,2%) das crianças eram meninos.

Os pesquisadores observaram que, para a anafilaxia desencadeada por noz desconhecida durante o Halloween e a Páscoa, houve um aumento de cerca de 70% na contagem média diária em comparação com o resto do ano (IRR 1,66, IC 95% 1,13-2,43 e IRR 1,71, IC 95% 1,21 -2,42, respectivamente). A contagem média diária foi semelhante durante o Natal, Diwali, Ano Novo Chinês e Eid al-Adha em comparação com o resto do ano.

Para a anafilaxia desencadeada por amendoim, a contagem média diária de eventos aumentou 85% durante o Halloween em comparação com o resto do ano (IRR 1,86, IC 95% 1,12–3,11). Durante a Páscoa, houve um aumento de 60% em comparação com o resto do ano (IRR 1,57, IC 95% 0,94–2,63). Nenhuma variação na contagem média diária de eventos foi observada para os outros feriados1.

Para anafilaxia desencadeada por tree-nuts, nenhuma variação na contagem média diária de eventos foi observada para qualquer feriado em comparação com o resto do ano.

A anafilaxia induzida por noz desconhecida, amendoim ou tree-nuts foi mais provável em crianças com 6 anos ou mais do que em crianças menores.

Conclusões

Os pesquisadores descreveram um risco maior de anafilaxia induzida por noz desconhecida e amendoim durante o Halloween e a Páscoa do que durante o resto do ano em crianças canadenses. Nenhum risco aumentado foi observado durante o Natal, Diwali, Ano Novo Chinês ou Eid al-Adha. Essa diferença na incidência de anafilaxia entre os feriados pode ser devido ao ambiente social em que cada feriado ocorre. No Halloween e na Páscoa, as crianças costumam receber doces e outras guloseimas de pessoas que podem não estar cientes de suas alergias. A ausência de tal associação no Natal pode ser porque o Natal é uma celebração mais íntima entre membros da família e amigos próximos, que estão mais vigilantes em relação à exposição a alérgenos. A rotulagem canadense também pode ser um fator, pois no Halloween e na Páscoa é comum a distribuição de embalagens individuais de doces e salgadinhos, que são isentos dos requisitos de listagem de ingredientes. A maioria das reações anafiláticas a tree-nuts, em contraste com reações a amendoins, ocorreu em crianças que, em princípio, não apresentavam alergia a esses alimentos, o que destaca a necessidade de vigilância em relação às primeiras exposições durante os feriados.

Os pesquisadores enfatizam que programas e estratégias educacionais que aumentem a vigilância entre famílias de crianças com alergia a amendoim ou tree-nuts e entre as pessoas que interagem com elas são necessários para tornar os feriados mais seguros para todas as crianças canadenses.

Observações:

  1. O coco e a noz-moscada não são considerados nozes para fins de rotulagem de alérgenos alimentares no Canadá e geralmente não são restritos à dieta de alguém alérgico a nozes.
  2. Em países desenvolvidos, os alimentos que mais comumente causam alergia são: amendoim, ovo, leite de vaca, soja, trigo e peixe, sendo estes responsáveis por 90% dos casos de alergia alimentar mediada por IgE. No Brasil, os dados sobre prevalência de alergia alimentar são escassos e limitados. Senna e colaboradores constataram que, em Belo Horizonte, mais de 86,6% dos casos de alergia alimentar são causados por leite de vaca e ovo e que amendoim, soja, peixe e trigo não foram causas frequentes de alergia alimentar. Esta diferença provavelmente ocorre devido aos diferentes hábitos alimentares da população brasileira. Todavia, sendo o Brasil um país de dimensões continentais e de hábitos alimentares distintos, os alimentos mais prevalentes como causadores de alergia alimentar podem ser variáveis de acordo com a região.

Autor(a):

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

  • Leung M, et al. Risk of peanut- and tree-nut-induced anaphylaxis during Halloween, Easter and other cultural holidays in Canadian children. CMAJ. 2020;192(38):E1084-E1092.
  • Food Allergy Canada. Tree nuts. 2020. Disponível em: https://foodallergycanada.ca/allergies/tree-nuts/ Acesso em: 30/10/2020
  • Senna SN, et al. Achados epidemiológicos de alergia alimentar em crianças brasileiras: análise de 234 testes de provocação duplo-cego placebo-controlado (TPDCPCs). Arq Asma Alerg Imunol. 2018;2(3):344-350.

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