Níveis de vitamina D na gestação parecem estar associados ao QI da criança

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Níveis de vitamina D na gestação parecem estar associados ao QI da criança

De acordo com um estudo publicado no The Journal of Nutrition, concentrações de vitamina D na gestação foram positivamente associadas ao quociente de inteligência (QI) da criança na idade de 4 a 6 anos, sugerindo que a vitamina D desempenha um papel importante na programação do desenvolvimento neurocognitivo.

A deficiência de vitamina D é um problema mundial que afeta o público em geral e as mulheres em idade fértil, principalmente negras. A síntese cutânea é reduzida em negros e indivíduos com a pele pigmentada devido à absorção da radiação ultravioleta (UV) pela melanina, tornando essas populações especialmente vulneráveis à deficiência da vitamina.

Estudos observacionais mostraram uma associação entre o baixo teor de vitamina D perinatal e pré-natal a distúrbios do desenvolvimento cerebral, incluindo esquizofrenia e autismo, e alguns, mas não todos os estudos de coorte, encontraram associações positivas entre a vitamina D gestacional e o QI da infância. Durante a gestação, a vitamina D influencia a expressão de genes que regulam a produção, migração e diferenciação de estruturas neuronais, estabelecendo a base para muitos aspectos do futuro desenvolvimento neurocognitivo.

Metodologia

O estudo utilizou dados da coorte CANDLE (Conditions Affecting Neurocognitive Development and Learning in Early Childhood). Entre 2006 e 2011, o CANDLE recrutou 1.503 mulheres em seu segundo trimestre de gestações únicas saudáveis. Os critérios de inclusão para esta análise foram gestação de ≥ 34 semanas e disponibilidade de 25 hidroxivitamina D [25(OH)D] e dados de QI. As associações entre a concentração plasmática de 25(OH)D no segundo trimestre e as pontuações de QI de Stanford Binet Intelligence Scales, Fifth Edition (SB5) na prole com idades entre 4 a 6 anos foram examinadas usando regressão linear multivariável. Termos de interação foram usados para explorar possíveis modificações de efeitos por raça.

Resultados

A concentração média ± desvio-padrão (DP) de 25(OH)D entre 1.019 díades elegíveis foi de 21,6 ± 8,4 ng/mL, medida em uma média ± DP da idade gestacional de 23,0 ± 3,0 semanas. A deficiência de vitamina D [25(OH)D <20 ng/mL] foi observada em 45,6%. O 25(OH)D materno diferiu por raça com uma média ± DP de 19,8 ± 7,2 ng/mL em negras e 25,9 ± 9,3 ng/mL em brancas (p < 0,001). Em modelos ajustados, um aumento de 10 ng/mL em 25(OH)D foi associado a um QI de escala completa 1,17 pontos mais alto, um QI verbal 1,17 pontos mais alto, e um QI não verbal 1,03 pontos mais alto. Não foi observada nenhuma evidência de modificação de efeito por raça.

Conclusões

A conclusão desse estudo é que as concentrações de vitamina D gestacional foram positivamente associadas ao QI na idade de 4 a 6 anos, sugerindo que a vitamina D desempenha um papel importante na programação do desenvolvimento neurocognitivo. O status de vitamina D pode, portanto, ser um importante fator modificável durante a gravidez e que pode ser otimizado por meio de recomendações e orientações nutricionais adequadas. A deficiência de vitamina D foi especialmente prevalente entre as mulheres negras nesta coorte, sugerindo uma maior necessidade de triagem e intervenção nutricional nesta população vulnerável. No entanto, estudos futuros avaliando os níveis da vitamina D durante a gravidez devem ser realizados para elucidar as janelas críticas potenciais durante a gestação.

Para Melissa Melough, pesquisadora principal do estudo, há três conclusões principais: 1) a deficiência de vitamina D é comum durante a gravidez, e mulheres negras correm maior risco porque o pigmento de melanina na pele reduz a produção de vitamina D; 2) Níveis mais altos de vitamina D entre as mães durante a gravidez podem promover o desenvolvimento do cérebro e levam a maiores pontuações de QI na infância; 3) A triagem e a suplementação nutricionais podem corrigir a deficiência de vitamina D nas mulheres com alto risco e promover a função cognitiva na prole.

Autor(a):

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

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