Estudo associa consumo de ômega 3 a melhor prognóstico no IAM com supradesnível de ST

Postado em

O consumo regular de alimentos ricos em ácidos graxos ômega 3 foi associado a melhor prognóstico após um infarto agudo do miocárdio (IAM) com supradesnível do segmento ST em um novo estudo observacional.

estudo prospectivo, que incluiu 944 pacientes com infarto agudo do miocárdio com supradesnível do segmento ST submetidos a intervenção coronariana percutânea (ICP), mostrou que os níveis plasmáticos de ácidos graxos no momento do IAM foram inversamente associados tanto a eventos adversos cardiovasculares maiores (mace, sigla do inglês, Major Adverse Cardiovascular Events) como a reinternações por causas cardiovasculares (razão de risco ajustada ou adjusted hazard ratio, HR, de 0,76 e 0,74 para aumento 1-DP; P < 0,05 para ambos).

Não foi observada associação com o desfecho de mortalidade por todas as causas.

“Nós mostramos que o consumo de peixe e de outras fontes de ácidos graxos ômega 3 antes do infarto do miocárdio impacta no prognóstico após o infarto. É uma nova abordagem, porque não se trata de prevenção primária ou secundária”, disse o Dr. Aleix Sala-Vila, Ph.D., do Institut Hospital del Mar d’Investigacions Mèdiques (IMIM), na Espanha.

O Dr. Aleix; um dos autores principais, Dr. Antoni Bayés-Genís, Ph.D., médico do Hospital Universitari Germans Trias I Pujol, na Espanha; e a primeira autora do estudo, Dra. Iolanda Lázaro, Ph.D., também do IMIM, relataram seus achados on-line em 26 de outubro no periódico Journal of the American College of Cardiology.

Já foi estabelecido que a ingestão de ácido eicosapentaenoico ômega 3 (EPA) tem propriedades cardioprotetoras, mas estudos observacionais e ensaios clínicos randomizados sobre o consumo de EPA apresentaram achados discrepantes.

O estudo em tela evitou as armadilhas habituais da pesquisa epidemiológica nutricional – diários alimentares por autorrelato e questionários. Para esse estudo, os pesquisadores mediram os níveis titulares de EPA e ácido alfa-linolênico (ALA) por meio dos níveis séricos de fosfatidilcolina, que refletem a ingestão nas últimas três ou quatro semanas.

Essa técnica, segundo o Dr. Aleix, não apenas fornece uma medida mais confiável da ingestão de ácidos graxos ao longo do tempo, mas também evita erros de medida relacionados com a variação do teor de ácidos graxos.https://e1ebb963e8c7220b07e3f6bd43748d00.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Por exemplo, “a quantidade de EPA contida em uma porção de peixe consumida em janeiro pode ser muito diferente da de uma consumida em junho”, explicou o Dr. Aleix.

Dito isso, ele reconhece que essa técnica, que utiliza cromatografia a gás, não tem atualmente uma clara aplicação clínica. “É bem difícil apenas converter os níveis de EPA medidos pela fosfatidilcolina sérica para o consumo de peixes gordurosos. Nós acreditamos que a melhor orientação hoje é a da American Heart Association (AHA), de comer duas porções de peixes gordurosos por semana.”

EPA e ALA: parceiros na prevenção?

Além desses achados a respeito do EPA, os pesquisadores também constataram que o ALA medido pela fosfatidilcolina sérica foi inversamente associado a mortalidade por todas as causas após o infarto agudo do miocárdio com supradesnível do segmento ST (HR de 0,65 para aumento 1-DP; P < 0,05).

Foi observada uma tendência de associação entre ALA e menor risco de mace incidente (P = 0,093).

O ALA é facilmente encontrado em fontes alimentares baratas (por exemplo, sementes de chia, sementes de linhaça, nozes e soja) e tem sido associado a menor mortalidade por todas as causas em indivíduos de alto risco.

Esse ácido graxo ômega 3 geralmente recebe pouca atenção no mundo dos ácidos graxos por conta de um processo enzimático em sete etapas necessário para convertê-lo em formas mais benéficas.https://e1ebb963e8c7220b07e3f6bd43748d00.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

“Nós sabemos que a conversão do ALA em EPA ou ácido docosahexaenóico (DHA) é marginal, mas decidimos incluí-lo no estudo, pois acreditamos que esse ácido graxo está se tornando mais importante, porque existem algumas questões com o consumo de peixe – as pessoas estão preocupadas com poluentes e sustentabilidade, e algumas simplesmente não gostam”, explicou o Dr. Aleix.

“Nós ficamos chocados ao observar que os ácidos graxos provenientes do mar ou de vegetais não parecem competir, mas na verdade agem sinergicamente”, disse o Dr. Aleix. Os pesquisadores sugeriram que os ácidos graxos marinhos e vegetais podem agir como “parceiros na prevenção”.

“Nós não estamos metabolicamente adaptados para converter ALA em EPA, mas, apesar disso, existem muitas evidências sugerindo que uma forma de aumentar a quantidade de EPA e DHA em nossas membranas é ingerindo essas fontes de ácidos graxos”, disse.

Por quase 20 anos, o Dr. Aleix vem estudando como o consumo de alimentos ricos em ômega 3 afeta as doenças. Dois de seus projetos atuais envolvem o estudo do ALA nas membranas dos eritrócitos como fator de risco de acidente vascular cerebral isquêmico e o status do ômega 3 em indivíduos com declínio cognitivo e alto risco de doença de Alzheimer.

Aplicável a todos os pacientes com aterosclerose

Comentando sobre o estudo para o Medscape, o Dr. Deepak Bhatt disse que o estudo é “incrível” e acrescentou que “melhor não fica” em termos de pesquisa nutricional observacional.

“Eu acho que é preciso reconhecer esses achados em um universo mais amplo do que é realmente uma revolução para as pesquisas com ácidos graxos ômega 3”, disse o Dr. Deepak.

Esse universo, ele disse, inclui importantes pesquisas observacionais mostrando os benefícios do ômega 3, dois ensaios com resultados (JELIS e REDUCE-IT) que mostraram os benefícios da suplementação de EPA, e dois estudos de imagem (EVAPORATE e CHERRY) que mostraram efeitos favoráveis do EPA nos vasos.

REDUCE-IT, no qual o Dr. Deepak participou como primeiro autor, mostrou que o tratamento com icosapent etil, uma forma purificada de EPA em altas doses, levou a uma redução de 25% no risco relativo de mace na população de alto risco do Ocidente.

Os resultados, disse o Dr. Deepak, que coescreveu um editorial que acompanha o artigo do Dr. Aleix, “provavelmente se aplicam a todos os pacientes com aterosclerose ou que estão em alto risco” e apoiam a prática de aconselhar os pacientes a aumentar seu consumo de alimentos ricos em ácidos graxos ômega 3.

O campo pode estar para sofrer uma reviravolta, ele observou. No encontro da AHA, em novembro, serão apresentados os resultados de outro estudo de prescrição de suplemento de EPA/DHA, e espera-se que sejam negativos.

AstraZeneca anunciou em janeiro de 2020 o encerramento precoce do estudo STRENGTH da Epanova depois que uma análise interina mostrou uma baixa probabilidade de seu produto demonstrar benefício na população recrutada.

O Epanova é uma mistura derivada de óleo de peixe com ácidos graxos livres, principalmente EPA e DHA. Está aprovado nos Estados Unidos e é indicado como adjunto à dieta para reduzir níveis e triglicerídeos em adultos com hipertrigliceridemia grave (≥ 500 mg/dL). Essa indicação não é afetada pelos dados do estudo STRENGTH, de acordo com um comunicado de imprensa da empresa.

O Dr. Aleix recebeu financiamento e apoio da California Walnut Commission, inclusive para subsidiar parte do estudo em tela. Os Drs. Antoni e Deepak têm relações financeiras com diversas empresas.

J Am Coll Cardiol. 2020;76:2089-97. Publicado on-line em 26 de outubro. Texto completoEditorial

Medscape Notícias Médicas © 2020 WebMD, LLC

Citar este artigo: Estudo associa consumo de ômega 3 a melhor prognóstico no IAM com supradesnível de ST – Medscape – 11 de novembro de 2020.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s