Suspeita de associação entre apendicite aguda, Covid-19 e MIS-C

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Em carta ao editor do jornal The Pediatric Infectious Disease Journal, pesquisadores da Cidade do Cabo, na África do Sul, destacaram a suspeita de associação entre apendicite aguda, Covid-19 e síndrome inflamatória multissistêmica em crianças (multisystem inflammatory syndrome in children – MIS-C).

Segundo a carta, a África do Sul tem o maior número de casos de Covid-19 na África até o momento, com a Cidade do Cabo como epicentro inicial. Até 20 de agosto de 2020, 78 crianças que positivaram o teste de reação em cadeia da polimerase (PCR) para o vírus SARS-CoV-2 foram internadas no Hospital Tygerberg, na capital do país. Os pesquisadores descreveram os casos de quatro dessas crianças (dois meninos), com idades entre 5 e 12 anos, com diagnóstico de apendicite e SARS-CoV-2 confirmado em PCR de amostras respiratórias. Três crianças foram inicialmente diagnosticadas com apendicite aguda e tratadas cirurgicamente. A MIS-C foi diagnosticada em todas as três após as apendicectomias. A quarta criança foi internada com apendicite clínica e testada para SARS-CoV-2 devido à política do hospital, mas foi tratada de forma não cirúrgica e não tinha MIS-C.

Suspeita de associação entre apendicite aguda, Covid-19 e síndrome inflamatória multissistêmica.

Comparação com outro centro

Os pesquisadores compararam seu relato a uma série de casos ocorridos em Londres que, de forma semelhante, mostrou que crianças com Covid-19 podem apresentar características clínicas sugestivas de apendicite ou apendicite atípica como parte da MIS-C. Os pacientes 1 e 2 foram incluídos em um relatório recente sobre MIS-C na Cidade do Cabo, e todas as crianças foram diagnosticadas com apendicite durante um período em que um aumento nesses casos foi identificado no Hospital Tygerberg. No entanto, de forma diferente ao que ocorreu com as crianças em Londres, todas as crianças com MIS-C e apendicite tiveram PCR positivo para SARS-CoV- 2. Além disso, as crianças em Londres foram diagnosticadas com ileíte terminal e nenhuma necessitou de cirurgia. No relato sul-africano, três das crianças tinham apendicite confirmada cirurgicamente. Destas, duas com lesão em íleo terminal e sua relação com ileíte terminal foi bem documentada.

Não está bem esclarecido se a apendicite pode ocorrer como uma complicação da SARS-CoV-2 por meio de mecanismos propostos semelhantes relacionados à inflamação associada à entrada viral ou hiperplasia linfoide reativa que causa obstrução luminal. A apendicite aguda é conhecida por estar associada à doença de Kawasaki, da qual a MIS-C compartilha muitas características clínicas e patológicas comuns, possivelmente relacionadas à vasculite da artéria apendicular. Além disso, na doença de Kawasaki, as características abdominais podem representar uma doença mais grave. Nenhum fecaloma foi encontrado em qualquer uma das crianças necessitando de apendicectomia, o que, possivelmente, sustenta a teoria de inflamação ou vasculite como mecanismo patológico.

Mensagem final

Para os pesquisadores, os cirurgiões devem se familiarizar com a MIS-C para facilitar a identificação precoce e o encaminhamento de possíveis casos, o que pode impactar no diagnóstico da apendicite, na recuperação pós-operatória e no manejo do envolvimento multissistêmico, diferenciando-a da apendicite aguda isolada. Além disso, os pediatras que diagnosticam MIS-C devem estar vigilantes e continuar a avaliar cuidadosamente as crianças quanto a complicações cirúrgicas, incluindo apendicite e perfuração, especialmente se a dor abdominal for parte da queixa apresentada. Exames de imagens para diferenciar apendicite de ileíte terminal podem ser limitados em alguns locais, mas se houver dúvidas, as imagens mais sofisticadas disponíveis devem ser buscadas.

O artigo conclui sobre a importância de se pensar na associação suspeita entre apendicite aguda, Covid-19 e MIS-C, particularmente em crianças com apendicite clínica que são PCR positivas para SARS-CoV-2 à admissão.

Autor(a):

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

  • Lishman J, Kohler C, de Vos C; van der Zalm MM, Itana J, Redfern A, Smit L, Rabie H. Acute Appendicitis in Multisystem Inflammatory Syndrome in Children With Covid-19, The Pediatric Infectious Disease Journal. 2020 Dec;39(12):e472-e473. doi: 10.1097/INF.0000000000002900

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