Influenciadores mirins e propagandas de produtos não saudáveis

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Segundo um estudo recente publicado no jornal Pediatrics, os influenciadores mirins geram milhões de impressões para propagandas de marcas de alimentos e bebidas não saudáveis.

Estudo sobre as impressões geradas com propagandas de marcas de alimentos e bebidas não saudáveis.

O estudo sobre as propagandas de produtos não saudáveis

Pesquisadores do Department of Population Health, School of Medicine and School of Global Public Health, da New York University, em Nova Iorque, usaram os dados da empresa de marketing de mídia social Socialbakers para identificar os cinco influenciadores mirins, com idades entre 3 e 14 anos, mais assistidos no YouTube em 2019. Foram pesquisados 50 de seus vídeos mais assistidos e 50 de seus vídeos que apresentavam alimentos e/ou bebidas na imagem em miniatura.

Os pesquisadores também codificaram se as crianças influenciadoras consumiram ou brincaram com alimentos ou brinquedos, quantificaram o número de minutos em que alimentos e/ou bebidas apareceram e registraram os nomes das marcas. Além disso, foi avaliada a qualidade nutricional dos alimentos por meio do “Modelo de Perfil Nutricional” e identificado o número de bebidas com adição de açúcar.

Um total de 418 vídeos do YouTube atendeu aos critérios de pesquisa, sendo que 179 desses vídeos apresentavam alimentos e/ou bebidas. Os alimentos e/ou as bebidas foram apresentados nesses vídeos 291 vezes. Os cinco canais de influenciadores mirins mais assistidos foram: Ryan’s World, Sandaroo Kids, The Engineering Family, Daily Bumps e The Tube Family. Os vídeos desses influenciadores no YouTube foram vistos coletivamente 48,2 bilhões de vezes, e os vídeos com alimentos e/ou bebidas foram vistos 1 bilhão de vezes. 

Os resultados

A maioria dos alimentos e/ou bebidas eram: 

  • Itens não saudáveis de marcas: n = 263; 90,34% (por exemplo, McDonald’s);
  • Itens não saudáveis sem marca: n = 12; 4,1% (por exemplo, cachorros-quentes);
  • Itens saudáveis sem marca: n = 9; 3,1% (por exemplo, frutas);
  • Itens saudáveis de marcas: n = 7; 2,4% (por exemplo, iogurte Yoplait).

Pontos fortes do estudo incluem o fato de ser o primeiro a analisar uma amostra de vídeos para determinar a frequência de exibição de alimentos e/ou bebidas, a inclusão dos canais mais assistidos voltados para crianças e o uso de ferramentas de pontuação nutricional objetivas. Entretanto, o estudo tem algumas limitações. A amostra incluiu um subconjunto (n = 418) dos 10.058 vídeos postados nesses canais, o que pode ter subestimado a quantidade de produtos exibida pelos influenciadores mirins.

Veja mais da autora: https://pebmed.com.br/jogos-no-computador-ajudam-na-memoria-de-criancas-hiperativas/

Embora os pesquisadores tenham relatado que instruíram os programadores a pausar o vídeo quando alimentos e/ou bebidas aparecessem, algumas podem ter sido perdidas. Além disso, foi calculado o número de minutos em que alimentos e bebidas apareceram nos vídeos, mas os pesquisadores sugerem que, em estudos futuros, poderia haver maior precisão se o número de segundos for calculado.

Uma outra limitação é que, embora os dados sugiram que o McDonald’s seja responsável pela maior parte dos produtos, é possível que a metodologia não tenha permitido encontrar outras marcas. Ademais, os dados sobre quanto as famílias receberam pela exibição desses produtos não estão disponíveis publicamente. Uma família supostamente ganhou US$ 26 milhões em seu canal no YouTube incluindo, pelo menos, US$ 1 milhão em vídeos de patrocínio pago. Por fim, os pesquisadores não avaliaram como a exposição desses produtos pode afetar as escolhas alimentares.

Concluindo

Portanto, este é o primeiro estudo a documentar a ampla gama de marcas de alimentos e bebidas não saudáveis que são promovidas por meio de vídeos do YouTube com influenciadores mirins. A maioria das pesquisas de publicidade de alimentos tem se concentrado em comerciais de televisão ou anúncios online produzidos por empresas.

Segundo os pesquisadores, essa nova fronteira da publicidade não tem sido amplamente estudada e é pouco regulamentada, sugerindo a necessidade de estudos experimentais futuros para avaliar até que ponto assistir a esses tipos de vídeos aumenta o consumo de alimentos não saudáveis e se o endosso de influenciadores mirins aumenta as preferências pelo produto entre bebês, crianças pequenas e pais. 

Autora:

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referência bibliográfica:

  • Alruwaily A, Mangold C, Greene T, Arshonsky J, Cassidy O, Pomeranz JL, Bragg M. Child Social Media Influencers and Unhealthy Food Product Placement. Pediatrics. 2020 Nov;146(5):e20194057. doi: 10.1542/peds.2019-4057. PMID: 33106342

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