Diretrizes para uso de terapia com dieta cetogênica na epilepsia finalmente abrangem adultos

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Dra. Mackenzie Cervenka

Assim como para crianças com epilepsia, a terapia com dieta cetogênica pode ser segura e efetiva para adultos com epilepsia, mas deve ser realizada apenas com o suporte de profissionais de saúde capacitados para seu uso, disse o grupo.

“Motivação é a chave para o sucesso da adesão à terapia com dieta cetogênica”, disse ao Medscape a primeira autora das recomendações, Dra. Mackenzie Cervenka, médica e diretora do Adult Epilepsy Diet CenterJohns Hopkins University School of Medicine, nos Estados Unidos.

“Pacientes que têm autonomia precisam de automotivação, e ter uma estrutura de apoio sólida também é importante. Para os pacientes que são dependentes, seus cuidadores precisam estar motivados a administrar suas dietas”, disse a Dra. Mackenzie.

As diretrizes foram publicadas on-line em 30 de outubro no periódico Neurology Clinical Practice.

Novidade na neurologia de adultos

As terapias com dieta cetogênica são ricas em gorduras, com baixo teor de carboidratos e são adequadas em proteínas que induzem o metabolismo da gordura e a produção de cetonas. Apesar do uso desta dieta como terapia anticonvulsivante desde cerca de 1920, esse tratamento ainda é uma novidade na neurologia de adultos.https://7b9ad05d327ed84683fb44ffc601d090.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Além disso, embora existam diretrizes estabelecidas para a terapia com dieta cetogênica como método de redução de convulsões em crianças, até o momento não havia recomendações formais para adultos.

Reunindo a experiência de especialistas que atuam em 20 centros que utilizam a terapia com dieta cetogênica em mais de 2.100 adultos com epilepsia em 10 países, a Dra. Mackenzie e uma equipe internacional elaboraram recomendações para o uso do tratamento em adultos.

Os especialistas pontuam: “Com um perfil de efeitos colaterais relativamente leve e o potencial de reduzir convulsões em quase 60% dos adultos com epilepsia resistente a medicamentos, a terapia com dieta cetogênica deveria ser parte do repertório de opções disponíveis.”

As terapias com dieta cetogênica são apropriadas para serem oferecidas a adultos com tipos de convulsão e síndromes epiléticas para as quais esses tratamentos são sabidamente efetivos em crianças, disseram os autores.

Isso inclui o complexo da esclerose tuberosa, as síndromes de Rett, Lennox-Gastaut e da deficiência do transportador de glicose tipo 1, as epilepsias generalizadas genéticas e as epilepsias focais com alterações migracionais subjacentes e resistentes a anticonvulsivantes.

No entanto, para adultos com epilepsia focal resistente a medicamentos, a avaliação cirúrgica deve ser considerada primeiro, dada a alta taxa antecipada de resolução das convulsões com esse tratamento, disseram os especialistas.

Foco na adesão

Especialistas de quase todos os centros relataram usar duas ou mais terapias com dieta cetogênica. Noventa por cento utilizam a dieta de Atkins modificada, 84% usam a dieta cetogênica clássica e 63% usam a dieta cetogênica modificada e/ou um tratamento de baixo índice glicêmico.

Mais da metade dos centros (58%) usam óleo de triglicerídeos de cadeia média em combinação com a terapia com dieta cetogênica para otimizar a produção de corpos cetônicos.

Os fatores mais importantes que influenciam a escolha da terapia com dieta cetogênica são a facilidade de realização da dieta para o paciente (100%) e a preferência do paciente e/ou cuidador, contexto doméstico e forma de alimentação (90%).https://7b9ad05d327ed84683fb44ffc601d090.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

O painel recomenda que a terapia com dieta cetogênica seja ajustada de acordo com as necessidades do indivíduo, levando em conta suas características físicas e mentais, patologias clínicas subjacentes, preferências alimentares, tipo e quantidade de suporte de familiares e outros, nível de autossuficiência, hábitos alimentares e facilidade em seguir a dieta.

“A maior parte das diferenças entre as recomendações para crianças e adultos têm a ver com a adesão. Muitas vezes é mais desafiador para os adultos do que para as crianças”, disse a Dra. Mackenzie.

Os especialistas recomendam dar ideias de receita para os adultos, bem como treinamento individualizado com um nutricionista sobre o estilo de vida associado à dieta cetogênica e orientações para o planejamento das refeições antes do início da dieta. Isso resultará em maior probabilidade de sucesso, visto que os pacientes frequentemente relatam dificuldades em lidar com a restrição de carboidratos, observaram.

“Na prática pediátrica, os bons respondedores geralmente permanecem na terapia com dieta cetogênica por dois anos antes de considerar o desmame. A terapia com dieta cetogênica em adultos não é limitada pelo tempo. No entanto, recomenda-se pelo menos três meses de dieta antes de qualquer avaliação de resposta”, aconselharam os autores.

O grupo aponta as contraindicações metabólicas absolutas e que os cuidados relacionados com dificuldades alimentares, disfunção gastrointestinal e digestão permanecem os mesmos para crianças e adultos.

No entanto, acrescentam que uma variedade de doenças comuns do adulto, como hiperlipidemia, doença cardíaca, diabetes e baixa densidade mineral óssea, além da gestação, requerem “considerações adicionais, cautela e monitoramento da terapia com dieta cetogênica”.

Além da epilepsia

As diretrizes também orientam estudos bioquímicos em pacientes adultos antes da terapia com dieta cetogênica para o rastreamento de alterações pré-existentes e para estabelecer um parâmetro de comparação a partir dos resultados obtidos no acompanhamento após 3, 6 e 12 meses, e então anualmente ou quando necessário.

Os autores também observaram que exames metabólicos, como ácidos orgânicos urinários e níveis séricos de aminoácidos, geralmente não são necessários em adultos, a não ser que haja uma forte suspeita clínica de transtorno metabólico subjacente.

Uma avaliação genética atualizada também pode ser considerada em adultos com deficiência intelectual e epilepsia de origem desconhecida. Exames de densidade mineral óssea seriados podem ser obtidos a cada cinco anos.

As diretrizes recomendam ainda o monitoramento de cetonas (βHB sérico ou AA urinários) durante os primeiros meses de terapia com dieta cetogênica, a fim de indicar a adesão ao tratamento e a resposta bioquímica.

Ajustes na alimentação devem focar na otimização da resposta ao tratamento, redução dos efeitos colaterais e maximização da sustentabilidade.

Adultos realizando a terapia com dieta cetogênica também devem ser orientados a usar polivitamínicos e suplementos minerais, e a beber muito líquido.

Os especialistas dizem que as evidências emergentes também apoiam o uso da terapia com dieta cetogênica em outras doenças neurológicas do adulto, como migrânea, doença de Parkinson, demência e esclerose múltipla.

No entanto, o grupo afirmou que mais evidências são necessárias para orientar as recomendações sobre o uso de terapia com dieta cetogênica em outras doenças neurológicas.

A pesquisa não teve financiamento direto. A Dra. Mackenzie relatou receber fundos da Nutricia, Vitaflo, BrightFocus Foundation e Army Research Laboratory; honorários da American Epilepsy Society, The Neurology Center, Epigenix, LivaNova e Nutriciaroyalties da Demos; e realizar consultoria para Nutricia, Glut1 Deficiency Foundation e Sage Therapeutics. As declarações de conflitos de interesses dos demais autores constam no artigo.

Neurol Clin Pract. Publicado on-line em 30 de outubro de 2020. Abstract

Medscape Notícias Médicas © 2020 WebMD, LLC

Citar este artigo: Diretrizes para uso de terapia com dieta cetogênica na epilepsia finalmente abrangem adultos – Medscape – 15 de dezembro de 2020.

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