Associação entre depressão e ansiedade materna

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Depressão materna pode afetar o risco de desenvolvimento de depressão nos filhos

A depressão e ansiedade maternas durante a gestação estão associadas a distúrbios emocionais e comportamentais nos filhos durante a infância, e podem aumentar os riscos de depressão e ansiedade nos adolescentes e adultos. Estudos recentes publicados no The Journal of the American Medical Association (JAMA) decidiram investigar essa associação através de revisão sistemática da literatura e meta-análise.

Definição

A depressão perinatal é definida como o evento depressivo que ocorre em mulheres durante a gestação (antenatal) ou em até 12 meses após o fim da mesma (pós-natal) e pode ocorrer em aproximadamente 10 a 20% das mulheres nesse período. Essa condição acaba afetando também as crianças, aumentando o risco de problemas de saúde físicos e mentais, e contribuindo para dificuldades familiares e sociais.

Os efeitos adversos da depressão e ansiedade perinatal no desenvolvimento das crianças e adolescentes já são bem estabelecidos, e incluem distúrbios comportamentais e comprometimento de habilidades cognitivas, sócioemocionais, de linguagem e motoras. Os estudos perceberam que consequências adicionais para adolescentes de mães que tiveram eventos depressivos incluíam ansiedade, bullying e depressão.

As causas para esses transtornos maternos são heterogêneas, e incluem fatores ambientais e genéticos, ambos relacionados também com o risco aumentado de depressão na geração seguinte. Os principais fatores de risco para esse processo são: habilidades parentais comprometidas, baixas condições socioeconômicas, distúrbios psiquiátricos maternos e violência/maus-tratos.

Alguns estudos demonstraram mudanças significativas no neurodesenvolvimento de fetos expostos a depressão antenatal, especialmente nas regiões da amígdala cerebral direita, hipocampo e outras áreas córtico-límbicas. Contudo, o exato mecanismo dessa transmissão ainda é incerto. Níveis elevados de mediadores inflamatórios, como interleucinas e proteína C-reativa, foram reportados em pacientes com depressão, tanto antenatal quanto pós-natal. Esses marcadores também foram relacionados ao aumento da secreção de cortisol em bebês imediatamente após o nascimento e com um ano de idade. O risco estimado de depressão nos filhos adolescentes associada à depressão perinatal é variável de acordo com cada estudo, podendo chegar a até 4,7 vezes mais, no caso da depressão pós-natal.

Associação entre depressão e ansiedade materna no período perinatal e o desenvolvimento da doença na adolescência.

Dois estudos relacionados à depressão perinatal e o desenvolvimento de ansiedade e depressão em adolescentes foram publicados em 2020 no JAMA. Ambos foram pioneiros ao realizarem revisões sistemáticas da literatura e conduzir uma meta-análise dos artigos selecionados.

O primeiro deles, de Tirumalaraju et al., fez uma análise de todos os estudos de coorte longitudinais prospectivos que avaliaram a associação entre depressão materna antenatal e pós-natal e depressão filial na adolescência e idade adulta. A pesquisa foi realizada através das plataformas PubMed e PsycINFO, no período entre maio e junho de 2019. Os critérios de inclusão foram: os estudos deveriam ser longitudinais prospectivos acompanhando as mães durante a gestação e/ou durante o período pós-natal e durante a adolescência e idade adulta de seus filhos; as mães deveriam ter sido rastreadas para depressão durante a gravidez e/ou por, pelo menos, um ano após a gestação; os filhos cujas mães não foram expostas à depressão durante o período perinatal foram usados como grupo controle; os resultados dos estudos foram obtidos com base em escalas e questionários padronizados.

Já os critérios de exclusão foram: outros tipos de estudos; mães com outras comorbidades psiquiátricas durante a gestação e filhos com menos de 12 anos de idade no momento da avaliação da depressão. A estratégia de pesquisa reuniu um total de 6.923 estudos,  ao qual 88 artigos preencheram critérios de elegibilidade para a revisão sistemática. Ao final, seis artigos foram selecionados para a revisão final e meta-análise.

A amostra dos estudos

O tamanho total da amostra foi de 19.535 binômios mãe-filho. A meta-análise demonstrou que filhos de mães com eventos de depressão perinatal tiveram maiores taxas de depressão (odds ratio [OR] 1,70; intervalo de confiança de 95% [IC 95%] 1,06-2,65), indicando 70% de aumento das taxas de depressão na adolescência e vida adulta nos descendentes dessas mães. Apesar da metarregressão não ter evidenciado uma forte associação entre o período da depressão materna perinatal e a depressão nos filhos (antenatal vs pós-natal, probabilidade posterior (PP) [OR>1] = 53,8%), a análise dos subgrupos mostrou discreto aumento no risco dos estudos antenatais (OR 1,78; IC 95% 0,93-3,33; PP [OR>1] = 96,2%) em relação aos pós-natais (OR 1,66; IC 95% 0,65-3,84; PP [OR>1] = 88%), aumentando de 66% para 78%. Adolescentes do sexo feminino apresentaram maiores taxas de depressão na análise da metarregressão, variando de 40,6% a 55,8% de acordo com o estudo (OR 1,06; IC 95% 0,99-1,14).

O estudo de Tirumalaraju et al. teve algumas limitações: perdas no acompanhamento da amostra, especialmente nos grandes estudos de coorte; a falta de um único critério considerado padrão-ouro para o diagnóstico de depressão a ser utilizado em todos os estudos; apesar do limite mínimo de idade estabelecido para entrada na revisão ter sido de 12 anos, o tempo de acompanhamento desses adolescentes foi variável em cada estudo; o número de estudos incluídos (6) foi relativamente pequeno e poderia limitar a precisão das estimativas obtidas; a porcentagem de mães que tiveram tanto depressão antenatal quanto pós-natal não foi disponibilizada em nenhum dos trabalhos; por fim, deve-se notar que os efeitos da depressão materna podem ainda não ser específicos para essa desordem (apesar das participantes com outras comorbidades psiquiátricas terem sido excluídas da revisão, sintomas subclínicos de outras patologias poderiam estar presentes).

A segunda revisão, de Rogers et al., utilizou as plataformas CINAHL Complete, Cochrane Library, Embase, Informit, MEDLINE Complete e PsycINFO para pesquisa de estudos existentes que reportam associação entre os transtornos mentais perinatais e o desenvolvimento dos adolescentes. Os estudos incluídos foram os que estavam publicados em língua inglesa, do tipo longitudinal, relacionados a depressão perinatal e/ou ansiedade e desenvolvimento socioemocional, cognitivo, de linguagem, motor e/ou adaptabilidade nos descendentes e que investigavam associação entre  depressão perinatal ou ansiedade e o desenvolvimento dos adolescentes. Dos 27.212 artigos identificados, 191 foram selecionados para a meta-análise. Os dados foram extraídos por observadores múltiplos independentes e submetidos a séries de metarregressões. A análise foi realizada de 01 de janeiro de 2019 a 15 de março de 2020.

Nesta revisão, o tamanho da amostra foi de 195.751 binômios mãe-filho. Foi observada associação entre depressão e ansiedade perinatal materna e pior desenvolvimento socioemocional (antenatal OR 0,21 [IC 95% 0,16-0,27] e pós-natal OR 0,24 [IC 95% 0,19-0,28]), cognitivo (antenatal OR -0,12 [IC 95% -0,19 a -0,05] e pós-natal OR -0,25 [IC 95% -0,39 -0,09]), de linguagem (antenatal OR -0,11 [IC 95% -0,20 a 0,02] e pós-natal OR -0,24 [IC 95% -0,40 a 0,03]), motor (antenatal OR -0,07 [IC 95% -0,18 a 0,03], pós-natal OR -0,07  [IC 95% -0,16 a  0,03]) e no comportamento adaptativo (antenatal OR -0,26 [IC 95% -0,39 a -0,12 /pós-natal OR 0,24; IC 95% 0,19-0,28). A metarregressão confirmou a robustez dos resultados.

O aumento das taxas de depressão nos filhos das mães que passaram pela experiência da depressão perinatal evidenciado na análise corrobora a hipótese inicial do estudo. Uma revisão recente mostrou que, apesar de 50% das mulheres com depressão antenatal e 30% das mulheres com depressão pós-natal terem o diagnóstico, apenas 6% a 8% destas recebem o tratamento adequado. A depressão materna durante e após a gravidez tem sido associada a menores taxas de crescimento, desnutrição, aumento do risco de asma e atopias, obesidade infantil, infecções e maus-tratos infantil.

Esse estudo apresentou limitações: a maioria dos estudos utilizou questionários de autoavaliação para identificar transtornos mentais maternos e desenvolvimento infantil (assim como citado na outra meta-análise, o ideal seria o uso de critérios bem estabelecidos para diagnóstico das doenças); as pesquisas estavam mais focadas em estágios iniciais do desenvolvimento (novas pesquisas explorando estágios de desenvolvimento mais avançados poderiam reforçar ainda mais as evidências); muitos estudos tinham amostras que representavam apenas parcelas populacionais de regiões mais desenvolvidas, com pouca diversidade (seria mais interessante se tivessem explorado outros grupos sociodemográficos).

Conclusão

As meta-análises publicadas pelo JAMA são a mais robusta evidência de que a depressão e ansiedade maternas perinatal, especialmente a antenatal, pode desempenhar um importante papel para início da depressão em adolescentes e adultos. A educação sobre os benefícios e riscos da psicoterapia e do tratamento medicamentoso deve ser sempre oferecida aos pacientes e familiares. Dadas as significativas consequências da depressão perinatal à  saúde pública, uma melhora constante dos métodos de rastreio e acompanhamento dos doentes, bem como alocação otimizada de recursos das iniciativas de saúde são de suma importância. Maiores pesquisas explorando as potenciais vias neurobiológicas e genéticas da depressão poderiam ampliar nosso entendimento acerca das complexidades dos transtornos depressivos, auxiliando no desenvolvimento de estratégias para o enfrentamento dessas condições durante a gestação, com prevenção e intervenção de forma precoce.

Autor(a):

Danillo Barros

Graduado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ) ⦁ Especialista em Pediatria pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fundação Oswaldo Cruz) ⦁ Especialista em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria ⦁ Especialista em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fundação Oswaldo Cruz) ⦁ Atualmente, é médico pediatra no Hospital Pasteur, Hospital Quinta D’Or e no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira ⦁ Contato: danillo.barros@iff.fiocruz.br

Referências bibliográficas:

  • Rogers A, Obst S, Teague SJ, et al. Association Between Maternal Perinatal Depression and Anxiety and Child and Adolescent Development: A Meta-analysis. JAMA Pediatr. 2020;174(11):1082–1092. doi:10.1001/jamapediatrics.2020.2910.
  • Tirumalaraju V, Suchting R, Evans J, et al. Risk of Depression in the Adolescent and Adult Offspring of Mothers With Perinatal Depression: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Netw Open. 2020;3(6):e208783. doi:10.1001/jamanetworkopen.2020.8783

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