Cirurgia bariátrica e uso de bebidas alcoólicas

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Cirurgia bariátrica e uso de bebidas alcoólicas

A cirurgia bariátrica é extremamente benéfica, gerando melhora da qualidade de vida dos pacientes que são submetidos, assim como diminuição das comorbidades, principalmente aquelas diretamente associadas a obesidade mórbida. No entanto, foi demostrado que pacientes submetidos a by-pass gástrico (GBP), teriam uma tendência de maior ingesta de bebida alcoólica de forma danosa. No entanto nenhum estudo havia sido desenhado para avaliar se esta mesma tendência ocorreria nos pacientes submetidos a gastrectomia vertical (GV).

Este estudo publicado pela associação de veteranos norte-americanos, comparou o consumo de álcool nos pacientes submetidos a cirurgia bariátrica com uma população controle não operada.

Métodos

Desde 2004, a associação de veteranos busca ativamente, com questionários apropriado (AUDIT-C, previamente validado para este fim), informações quanto ao uso de bebidas alcoólicas. Foi levantado no banco de dados, e realizado uma coorte retrospectiva, de todos os 10.653 pacientes que foram submetidos a cirurgia bariátrica. Após exclusões por diversas causas, permaneceram 2.608 operados entre outubro de 2000 e setembro de 2016.

Para cada paciente submetido a cirurgia, foram identificados pacientes com características clínicas semelhantes, inclusive o IMC e uso de bebidas alcoólicas, para servirem como controle. Após uma escrutinização de possíveis controles para cada paciente foram selecionados até 10 outros pacientes que foram incluídos no grupo controle.

Resultados

Dos 2.608 pacientes incluídos no grupo cirúrgico 75,3% eram homens e 24,7% mulheres. A maioria (84%) dos pacientes incluídos no estudo possuíam o questionário AUDIT-C, anotado de forma anual. Dentre os pacientes submetidos a cirurgia, 91,8% possuíam uma história negativa para consumo danoso de bebidas alcoólicas.

Quanto à modalidade operatória 1.539 foram submetidos a GV e comparados com 14.555 do grupo controle e 854 GBP comparados com 8.038 controles. As características clínicas de ambos os grupos eram bastante semelhantes com algumas discretas diferenças: IMC médio do grupo cirúrgico de 0,7 a 0,9 pontos maior que o do grupo controle.

A pontuação de consumo alcoólico nos 2 anos que precederam a cirurgia também foi semelhante entre os grupos 0,66 x 0,64 para os grupos cirúrgico GV e controle, respectivamente. Quanto ao grupo GPB, a pontuação pré-operatória comparada com controle foi respectivamente 0,65 x 0,63.

O acompanhamento pós-operatório demostrou picos de consumo no grupo GV em 5 e 8 anos de acompanhamento com pontuações de 0,86 e 0,85 respectivamente enquanto o grupo controle manteve entre 0,65 e 0,62. O grupo do GBP apresentou picos nos anos 3, 5 e 8 de acompanhamento 0,78, 0,92, e 0,94 respectivamente enquanto o grupo controle manteve 0,65, 0,64 e 0,62. Todas as avaliações com 95% de intervalo de confiança.

Independente da técnica utilizada há um aumento de chance de consumo não saudável de bebidas alcoólicas após 8 anos de cirurgia. Esta chance é de 7,9% no grupo GV (4,5% controle) e 9,2% quando realizado GBP (4,4% controle).

Discussão

Este é um dos primeiros estudos a comparar GV quanto ao consumo elevado de bebidas alcoólicas e comprar com um grupo não operado e que realizou GBP. Aos 8 anos de observação um paciente submetido a GV 3,5% maior risco de consumo danoso de bebida alcoólica enquanto o GBP 4,8% maior risco, ambos comparados com os respectivos grupos controles. Nesta análise, podemos dizer que 1 a cada 21 pacientes submetidos a GBP irá desenvolver consumo danoso de bebida alcoólica enquanto 1 a cada 29 dos que foram submetidos a GV irão desenvolver.

A implicação clínica deste estudo sugere que pacientes submetidos a cirurgia bariátrica terão uma maior predisposição ao consumo exagerado de bebidas alcoólicas, mesmo que não possuam nenhuma história para isto no momento da cirurgia.

Conclusão

Este estudo envolvendo principalmente homens e veteranos demostrou que há um acréscimo de desenvolvimento de consumo de bebida alcoólica após a realização de cirurgia bariátrica. Houve aumento do consumo aos 8 anos de observação em ambas as técnicas, porém com predomínio do GBP.

Para levar para casa

Este é mais um artigo que demostra o fato que após a cirurgia bariátrica o paciente não deve ser esquecido e o acompanhamento deve ser contínuo. Além das questões metabólicas, os transtornos comportamentais não devem ser negligenciados, pelo contrário, uma busca ativa e prevenção deve ser feito para evitar danos futuros graves.

Autor(a):

Felipe Victer

Cirugião geral ⦁ Hospital Universitário Pedro Ernesto ⦁ Hospital Universitário Clementino fraga filho (UFRJ) ⦁ Felllow do American College of Surgeons ⦁ Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões ⦁ Membro da Sociedade Americana de Cirurgia Gastrointestinal e Endoscópica (Sages) ⦁ Ex-editor adjunto da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (2016 a 2019)

Referências bibliográficas:

  • Maciejewski ML, Smith VA, Berkowitz TSZ, et al. Association of Bariatric Surgical Procedures With Changes in Unhealthy Alcohol Use Among US Veterans. JAMA Netw Open. 2020;3(12):e2028117. Published 2020 Dec 1. doi: 1001/jamanetworkopen.2020.28117

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