Dieta vegetariana ou cetogênica?

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Para controlar a fome, uma dieta vegetariana e com baixo teor de gordura tem vantagens em relação a uma dieta cetogênica baseada no consumo de proteína/gordura animal e com baixo teor de carboidratos, mas a dieta cetogênica ganha quando se trata de maior controle dos níveis de glicemia e insulina pós-prandiais, segundo uma nova pesquisa.
Em um estudo cruzado e cuidadosamente controlado, conduzido pelo National Institutes of Health (NIH), as pessoas consumiram menos calorias diárias quando seguiram uma dieta vegetariana e com baixo teor de gordura, mas os níveis de insulina e glicemia foram mais altos em comparação aos que fizeram uma dieta cetogênica baseada no consumo de proteína/gordura animal.

“Existe uma ideia um tanto desatualizada de que dietas com alto teor de gordura, por terem mais calorias por grama, tendem a fazer as pessoas comerem em excesso – o chamado modelo de consumo passivo excessivo”, disse ao Medscape o pesquisador sênior do estudo, Dr. Kevin Hall, Ph.D., National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK) dos Estados Unidos.

O outro modelo, mais popular hoje em dia, explicou o pesquisador, é o modelo carboidrato-insulina, que preconiza que seguir uma dieta rica em carboidratos e açúcares, que causam um pico nos níveis de insulina, aumentará a fome e fará com que a pessoa coma excessivamente.

Neste estudo, Dr. Kevin Hall e colaboradores testaram essas duas hipóteses uma contra a outra.

“A resposta curta é que obtivemos resultados exatamente opostos aos do modelo de carboidrato-insulina de obesidade. Em outras palavras, em vez de as pessoas comerem mais e ganharem peso e gordura corporal, elas acabaram comendo menos com essa dieta e perdendo gordura corporal em comparação com a dieta rica em gordura”, disse o Dr. Kevin.

“Porém, o modelo de consumo passivo excessivo também falhou, porque, apesar de os participantes terem feito uma dieta muito densa em energia e rica em gordura, eles não ganharam peso nem gordura corporal. Por isso, os dois modelos sobre a razão das pessoas comerem excessivamente e ganharem peso parecem ser inadequados de acordo com o nosso estudo”, disse ele ao Medscape. “Isso sugere que as coisas são um pouco mais complicadas.”

O estudo foi publicado on-line em 21 de janeiro no periódico Nature Medicine.

Prós e contras das duas dietas

Para o estudo, os pesquisadores internaram 20 adultos saudáveis sem diagnóstico de diabetes por quatro semanas seguidas no NIH Clinical Center. A média de idade dos participantes era de 29,9 anos e o índice de massa corporal (IMC) médio foi de 27,8 kg/m2.

Os participantes foram randomizados para consumir sem restrições alimentos à base de plantas, com baixo teor de gordura (10,3% de gordura, 75,2% de carboidratos) e com baixa densidade de energia (~ 1 kcal g-1) ou para consumir alimentos com baixo teor de carboidratos, proteína/gordura animal (75,8% de gordura, 10,0% de carboidratos) e alta densidade de energia (~ 2 kcal g-1) por duas semanas. Ao final deste período, os grupos foram cruzados e passaram a seguir a outra dieta por duas semanas.

As duas dietas continham cerca de 14% de proteína e foram pareadas pelo total de calorias, embora a dieta cetogênica tivesse duas vezes mais calorias por grama de alimento do que a dieta com baixo teor de gordura. Os participantes podiam comer o que e a quantidade que quisessem das refeições recebidas.

Um participante saiu do estudo devido a ocorrência de hipoglicemia na fase da dieta cetogênica. Para o desfecho primário, os pesquisadores compararam a ingestão média diária de energia sem restrições em cada período de duas semanas de dieta.

Eles observaram que a ingestão de energia da dieta com baixo teor de gordura foi menor em aproximadamente 550 a 700 kcal d-1, em comparação com a dieta cetogênica. No entanto, apesar das grandes diferenças na ingestão de calorias, os participantes não relataram diferenças na fome, prazer nas refeições ou saciedade entre as duas dietas.

Os participantes perderam peso com ambas (cerca de 1 kg a 2 kg em média), mas apenas a dieta com baixo teor de gordura levou a uma perda de gordura corporal significativa.

“Curiosamente, nossas descobertas sugerem benefícios para ambas as dietas, pelo menos em curto prazo”, disse o Dr. Kevin em um comunicado à imprensa.

“Embora a dieta vegetariana e com baixo teor de gordura ajude a reduzir a fome, a dieta cetogênica baseada no consumo de proteína/gordura animal resultou em níveis mais baixos e estáveis de insulina e glicose. Ainda não sabemos se essas diferenças seriam mantidas em longo prazo”, disse ele.

O Dr. Kevin ressaltou que o estudo não foi desenhado para fazer recomendações de dieta para perda ponderal, e os resultados poderiam ter sido diferentes se os participantes estivessem tentando ativamente perder peso.

Na verdade, eles nem sabiam do que se tratava o estudo; apenas dissemos que queríamos que seguissem as duas dietas para vermos o que aconteceria com o corpo deles quando comessem o quanto quisessem, disse ele ao Medscape.

“É difícil definir qual dieta pode ser melhor para um indivíduo. Eu acho que você pode interpretar este estudo como existindo pontos positivos e negativos para as duas dietas”, disse o Dr. Kevin.

“Tribos” das dietas

Comentando sobre o estudo para o Medscape, o Dr. Taylor Wallace, Ph.D., professor-adjunto do Departamento de Nutrição e Estudos Alimentares na George Mason University, nos EUA, disse que é importante ressaltar que “‘dieta com baixo teor de carboidratos’ ainda precisa ser definida, e existem muitas definições”.

“Nós realmente precisamos de uma definição padronizada do que constitui ‘baixo teor de carboidratos’, para que os estudos possam ser planejados e avaliados de uma forma consistente. É problemático, porque sem uma definição padrão, os pesquisadores da ‘tribo da dieta’ (cetogênica versus vegetariana) parecem sempre encontrar a resposta a seu favor”, disse o Dr. Taylor. “Este estudo parece usar menos de 20 gramas de carboidratos por dia, o que, na minha opinião, é um teor muito baixo de carboidratos.”

Talvez a ressalva mais importante, ele acrescentou, seja que no mundo real, “a maioria das pessoas não adere a dietas muito rigorosas – nem mesmo por duas semanas”.

O estudo foi financiado pelo NIDDK Intramural Research Program, com o apoio adicional do NIH de uma subvenção do National Institute of Nursing Research. Um autor recebeu remuneração por palestrar em conferências patrocinadas por fabricantes de produtos nutricionais, atua no conselho consultivo científico da Kerry Taste and Nutrition e faz parte de um consórcio acadêmico que recebeu financiamento para pesquisa da Abbott Nutrition, Nestec e Danone. O Dr. Kevin Hall e os outros autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes. O Dr. Taylor Wallace é diretor e CEO do Think Healthy Group; editor do Journal of Dietary Supplements; e editor adjunto do Journal of the American College of Nutrition.

Nat Med. Publicado on-line em 21 de janeiro de 2021. Abstract

Medscape Notícias Médicas © 2021 WebMD, LLC

Citar este artigo: Dieta vegetariana ou cetogênica? – Medscape – 11 de fevereiro de 2021.

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