antipsicóticos

Antidepressivos podem interferir na perda de peso?

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mão segurando medicamentos antidepressivos, com outros ao fundo

 

Uma das grandes preocupações dos médicos que possuem pacientes em tratamento psiquiátrico e que estão com sobrepeso ou obesidade é a interferência da medicação, principalmente antidepressivos e antipsicóticos, no peso. Por isso, um recente estudo canadense, publicado no Obesity, visou comparar a perda de peso em pacientes que tomam alguma dessas classes de medicamentos, ou ambas, com quem não toma.

O estudo analisou mais de 17 mil pessoas inscritas em um programa de mudança de estilo de vida, supervisionado por médicos da Wharton Medical Clinic, em Ontário, no Canadá. Desses, cerca de 23% estavam em uso de pelo menos um medicamento psiquiátrico: 3457 participantes tomavam antidepressivos, 172 usavam antipsicóticos e 465, ambos.

Medicações psiquiátricas interferem na perda de peso?

Os resultados mostraram que a perda de peso entre os pacientes psiquiátricos e aqueles que não usavam nenhuma medicação do tipo foi bem parecida. Depois de 21 meses, a perda média foi de 3,4 kg (2,9% do peso corporal inicial), com os homens perdendo cerca de 1 kg a mais que as mulheres. Em resumo, cerca de 28% dos participantes do estudo perderam 5% ou mais do peso corporal inicial, e 10% perderam 10% ou mais.

Apesar de todos perderam uma quantidade significativa de peso (P <0,0001), quando foi separado por sexo, os homens tiveram uma diferença maior: aqueles que tomavam antidepressivos perderam um pouco menos de peso que os que usavam as duas classes de medicamentos ou nenhuma delas (3,2 ± 0,3 kg vs. 5,6 ± 0,9 kg e 4,3 ± 0,1 kg; P <0,05). Enquanto isso, as mulheres com uso de uma ou duas das classes de medicamentos psiquiátricos tiveram uma perda de peso semelhante às que não usavam nenhum dos medicamentos (P> 0,05).

 

Por ser uma preocupação comum que os fármacos antidepressivos e antipsicóticos possam interferir no peso, muitas vezes os médicos não insistem na mudança de hábito de pacientes com sobrepeso ou obesidade. Os resultados do estudo, porém, mostram que, apesar de alguns medicamentos possuírem efeitos adversos relacionados ao peso, se o paciente utilizar estratégias para perda de peso e mudanças para hábitos saudáveis, os medicamentos não possuem tanta interferência.

Assim, os profissionais de saúde não devem ter receio de encorajar esses pacientes a se envolver em programas de emagrecimento, focando sempre na importância do acompanhamento médico. Além disso, como o estudo não se aprofundou nos fármacos, na hora da escolha é importante avaliar de acordo com os efeitos, para que cada paciente possa ter o tratamento correto sem interferir tanto em outras questões da sua saúde.

 

Referência bibliográfica:

  • Wharton S, et al. Effectiveness of a Community‐Based Weight Management Program for Patients Taking Antidepressants and/or Antipsychotics. Obesity. V 27, n 9, september 2019. P 1539-1544. https://doi.org/10.1002/oby.22567

#Novos #tratamentos para os #sintomas negativos da #esquizofrenia acirram o debate

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Deborah Brauser

O tratamento dos sintomas negativos na esquizofrenia sempre foi um desafio para os médicos. Atualmente, não existem medicamentos aprovados pela US Food and Administration (FDA) para esta indicação específica, mas descobertas recentes feitas em pesquisas podem oferecer novas esperanças.

Embora os antipsicóticos ajudem a tratar os sintomas positivos principais e/ou primários da esquizofrenia, como as alucinações e os delírios, eles não têm sido eficazes para o tratamento dos sintomas negativos primários, como a apatia, a ausência de emoção, e a dificuldade de socialização.

No entanto, resultados provenientes de um ensaio clínico de fase 2b com 244 pacientes  publicados recentemente mostraram que aqueles que receberam 32 mg/dia ou 64 mg/dia do antipsicótico experimental MIN-101 (Minerva Neurosciences) tiveram menor pontuação na 12ª semana na Positive and Negative Syndrome Scale (PANSS) do que aqueles que receberam placebo.

Isso segue a pesquisa apresentada em junho na reunião anual da American Society of Clinical Psychopharmacology, e publicada no periódico Lancet, mostrando os bons resultados do antipsicótico cariprazina, que tem um mecanismo de ação diferente do MIN-101.

Comentando estas novas descobertas para o Medscape, o Dr. William T Carpenter, médico da University of Maryland School of Medicine,e do Maryland Psychiatric Research Center, em Baltimore, disse que, embora ainda seja necessário fazer mais pesquisas, existem razões para um otimismo comedido neste momento, especialmente no que se refere ao MIN-101.

Dr. William Carpenter

“O que será interessante é saber se este mecanismo é realmente independente do mecanismo dopaminérgico”, disse o Dr. Carpenter, que também é ex-presidente do American College of Neuropsychopharmacology.

“Existe com certeza de uma necessidade terapêutica não atendida. Este tem sido um campo da esquizofrenia estagnado, por isso é empolgante ver algo sobre um novo mecanismo”.

Por outro lado…

O ex-presidente da American Psychiatric Association (APA), Dr. Jeffrey Lieberman, é mais cético.

“Eu advertiria as pessoas contra um entusiasmo exagerado”, disse o Dr. Lieberman, professor e diretor da psiquiatria da Columbia University, e chefe do New York Presbyterian Hospital Columbia Medical Center, em Nova York.

Dr. Jeffrey Lieberman

“Os sintomas negativos são uma dimensão preponderante da esquizofrenia e, embora não sejam angustiantes, certamente são incapacitantes em termos da limitação funcional. E, embora tenha havido alguns chutes para o gol no tratamento desses sintomas, nenhum emplacou”, disse ele.

A cariprazina é um agonista parcial do receptor D3/D3 da dopamina, aprovada pela FDA para o tratamento geral da esquizofrenia. O estudo de fase 3b, publicado no início deste ano no Lancet teve 460 pacientes e revelou melhora mais importante dos sintomas negativos entre aqueles que receberam cariprazina do que entre aqueles que receberam risperidona.

A amissulprida e a asenapina também foram consideradas benéficas para o tratamento dos sintomas negativos da esquizofrenia. Mas houve uma certa controvérsia sobre a especificidade desse benefício – seria ele apenas um efeito secundário do tratamento dos sintomas positivos?

Além disso, os antipsicóticos atualmente disponíveis têm pelo menos alguma atividade antidopaminérgica; e alguns bloqueadores do receptor D2 da dopamina podem causar efeitos adversos semelhantes aos sintomas negativos.

No recente estudo da cariprazina, os pesquisadores “não puderam excluir a possibilidade de haver mecanismos dopaminérgicos envolvidos” no efeito do tratamento, disse o Dr. Carpenter.

O Dr. Lieberman foi mais longe, dizendo que não viu nenhum “efeito terapêutico” real do medicamento nos sintomas negativos. “Se alguém desejar aprofundar isso de forma realmente rigorosa, ótimo; seria bom ver esses resultados. Mas pelos dados disponíveis até agora, os benefícios foram exagerados”, disse ele.

“Não existe fundamento teórico farmacológico plausível sobre a razão pela qual isto seria particularmente eficaz com base no que sabemos acerca da fisiopatologia dos sintomas negativos”.

Por outro lado, o MIN-101 é um derivado de amida cíclica com alta afinidade equipotente pelos receptores s-2 e 5-hidroxitriptamina2A (5-HT2A), sem afinidade direta pela dopamina.

“Este parece ter um mecanismo inteiramente novo”, observou o Dr. Carpenter.

Desfecho primário alcançado

Um ensaio clínico de prova conceitual de fase 2a com pacientes com esquizofrenia aguda demonstrou que aqueles que receberam o MIN-101 apresentaram melhora significativa dos sintomas negativos, de acordo com a pontuação na escala PANSS na 12ª semana, em comparação aos participantes que receberam placebo.

O recente ensaio clínico randomizado de fase 2b foi realizado em 36 centros em seis países europeus. Foram recrutados pacientes adultos dos 18 aos 60 anos, com sintomas estáveis de esquizofrenia, e sintomas negativos moderadamente graves.

Os resultados alcançaram o desfecho primário, com redução significativa da pontuação dos sintomas negativos pela escala PANSS na 12ª semana entre aqueles que receberam MIN-101 na dose de 32 mg/dia (P < 0,02) e 64 mg/dia (P < 0,004) comparados ao grupo do placebo. A melhora também foi demonstrada na 8ª semana com ambas doses. e na 2ª semana para o grupo com a dose de 32 mg/dia.

Curiosamente, não houve diferença entre os grupos na pontuação dos sintomas positivos pela escala PANSS na 12ª semana, mostrando que a melhora direta e específica dos sintomas negativos pode ser atribuída ao MIN-101, disse, na época, o primeiro autor Dr. Michael Davidson, diretor médico da Minerva e professor de psiquiatria na Sackler School of Medicine,na Tel Aviv University (Israel).

“Para a maioria dos pacientes esquizofrênicos, os sintomas negativos persistem muito além da melhora ou da remissão dos sintomas positivos, e respondem pela dificuldade vocacional e de socialização desses pacientes”, acrescentou o Dr. Davidson.

Mais tarde, Dr. Davidson disse ao Medscape que, com base nos resultados da fase 2b, e após conversações com a FDA, o laboratório planeja iniciar um ensaio clínico de fase 3 com 501 pacientes antes do final deste ano.

“Tivemos uma ‘reunião de fim de fase 2’ com eles”, disse o pesquisador. Vários países irão participar do próximo estudo, incluindo os Estados Unidos.”

“Sem embargo, definitivamente há motivo para o otimismo”, disse o Dr. Davidson. “Não existe outra substância que tenha sido realmente proveitosa para os sintomas negativos. Agora, para os médicos é ‘esperar para ver’, enquanto aguardamos os resultados da fase 3, mas estou muito otimista”.

Razão para otimismo?

O Dr. Carpenter, que não participou desta pesquisa, observou que muitos estudos sobre os sintomas negativos demonstraram somente efeitos discretos.

“Virtualmente, não existe nenhum desenho que permita isolar os sintomas negativos; e se você fizer este desenho, não haverá evidências de um tratamento efetivo”, disse ele.

“Eu gosto deste estudo porque os pesquisadores usam muitos elementos do desenho acordados como necessários para a obtenção da indicação da FDA de eficácia para o tratamento dos sintomas negativos”.

Dr. Carpenter acrescentou, porém, que muita coisa pode acontecer entre os ensaios clínicos de fase 2 e os de fase 3. “Todos ficamos tensos, mas se eu fosse o pesquisador, eu estaria confiante”, disse o médico.

Embora o Dr. Carpenter ainda tenha algumas questões em relação ao estudo de fase 2, como questionamentos sobre os índices de abandono do estudo, e sobre o fato de a escala Brief Negative Symptom Scale ser uma medida melhor e mais detalhada do que a escala PANSS, “acho que os pesquisadores foram muito além da maioria dos desenhos de estudo já feitos anteriormente”.

No entanto, o Dr. Lieberman não está impressionado. “Algumas vezes, quando os resultados parecem ser compreendidos como positivos, a pesquisa com a substância progride. E este é o caso com o medicamento experimental da Minerva”, disse o médico.

“Em última análise, isto não vai produzir nenhum valor científico ou clínico com base na farmacologia da substância experimental. Não existe fundamentação teórica clara sobre o motivo pelo qual este fármaco seria terapêutico para os sintomas negativos. E não existe nada proveniente dos dados pré-clínicos e clínicos que me dê um mínimo de esperança”.

Ainda na estaca zero

O objetivo de tratar com eficácia os sintomas negativos da esquizofrenia tem se mostrado fugidio há muitos anos, reiterou o Dr. Carpenter.

Alguns antipsicóticos, mesmo se concentrando nos sintomas positivos, demonstraram algum efeito nos sintomas negativos, “o que é clinicamente vantajoso, mas não é eficaz. E este é um equívoco que tem sido amplamente cometido”, disse o médico.

O Dr. Lieberman observou que na década de 90, o National Institute of Mental Health e a seção de neuropsicofarmacologia da FDA concordaram em trabalhar em conjunto para criar “uma via de desenvolvimento de medicamentos para tratamentos que se concentrassem nos sintomas não psicóticos da esquizofrenia”, como o comprometimento cognitivo e os sintomas negativos.

“Isso viabilizou um caminho bem sinalizado, e um incentivo para os laboratórios farmacêuticos. Embora os antipsicóticos tenham sido a pedra angular do tratamento desta doença, sabia-se bem que esses fármacos não faziam nada para os sintomas negativos. Por isso, havia a necessidade de medicamentos associados”.

Dr. Lieberman disse que ele não chamaria isto necessariamente de “início da corrida do ouro”, mas isso conferiu o incentivo ao qual muitas empresas responderam. “Não obstante, até agora tudo falhou ou, pelo menos, não correspondeu às expectativas”.

Para mostrar a eficácia real de um tratamento potencial, os sintomas negativos secundários da psicose precisam ser separados dos sintomas negativos primários. “E o estudo feito pela Minerva não demonstrou isso de forma conclusiva”, disse o Dr. Lieberman.

“No geral, eu diria que ainda estamos na estaca zero. Não é que não haja mais esperança, mas o pesquisador assume todos os riscos. Este é um objetivo digno de perseguir, mas ainda não encontramos a chave para desbloquear o segredo da patologia”.

O estudo MIN-101 foi financiado pela Minerva Neurosciences. O Dr. Davidson é funcionário da Minerva. O Dr. Carpenter informou não possuir relações financeiras relevantes ao tema, mas uma vez forneceu orientações a uma empresa de consultoria sobre dados hipotéticos para o tratamento de esquizofrenia. O Dr. Lieberman recebeu subsídios de pesquisa das empresas Alkermes, Biomarin, EnVivo/Forum, Genentech, Novartis/Novation e Sunovion. Dr. Lieberman também escreve uma coluna para o Medscape.

 

#Antipsicóticos utilizados em excesso em adultos com #deficiência intelectual

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Megan Brooks

Antipsicóticos são prescritos com frequência a adultos com deficiências intelectual e do desenvolvimento (IDDs), muitas vezes sem haver um diagnóstico psiquiátrico documentado.

Pesquisadores descobriram que mais de um terço dos adultos com alguma IDD, tais como autismo, síndrome de Down ou síndrome do alcoolismo fetal, foram tratados com medicação antipsicótica, sendo que mais de um quarto desses indivíduos não tinha diagnóstico psiquiátrico documentado.

“Pesquisas de diferentes países apresentaram esta questão”, disse ao Medscape  a pesquisadora principal, Yona Lunsky, PhD, do Institute for Clinical Evaluative Sciences e do Centre for Addiction and Mental Health, Toronto (Canadá).

“Houve uma maior atenção para esta questão no Reino Unido, onde foram publicados comentários destacando este problema durante vários anos. Achamos que era importante observar o que está acontecendo em Ontário, que é a maior província do Canadá, como um primeiro passo para tentar criar melhores práticas em ralação à prescrição”, disse a Dra. Lunsky.

O estudo foi publicado on-line em 23 de agosto, no Canadian Journal of Psychiatry.

Restrições químicas?

Os pesquisadores examinaram os dados médicos de 51.881 adultos com IDDs que tinham menos de 65 anos a partir de abril de 2010, e que estiveram recebendo medicamentos por meio dos benefícios provinciais em Ontário. Eles foram acompanhados até março de 2016.

Durante o período de seis anos de acompanhamento, 39,2% dos adultos (n = 20.316) receberam prescrição de medicamento antipsicótico, e 28,9% deles não tinham um diagnóstico psiquiátrico documentado. Em um subgrupo de 7.219 indivíduos que moram em lares comunitários, 56,4% (n = 4.073) receberam prescrição de medicamento antipsicótico, e 42,9% deles não tinham um diagnóstico psiquiátrico documentado.

“Não sabemos por que estão recebendo a prescrição a partir deste estudo, e não podemos afirmar com que frequência essa prescrição estava correta ou não”, explicou a Dra. Lunsky.

No entanto, os resultados “nos fazem questionar com que frequência os antipsicóticos estão sendo utilizados como uma ferramenta para lidar com dificuldades comportamentais. Precisamos entender melhor por que estes medicamentos são prescritos para pessoas que não apresentam distúrbios mentais, que outros passos foram dados antes da medicação, e o quão satisfatoriamente estes medicamentos estão sendo monitorados”, acrescentou ela em um comunicado à imprensa.

“Esperamos que este estudo possa gerar debates em relação a por que isso ocorre e o que fazer a respeito. As soluções precisam ser multidimensionadas”, disse.

Comentando sobre as descobertas para o Medscape, a Dra. Melissa Nishawala, diretora do Autism Spectrum Disorder Clinical & Research Program da NYU Langone Health, Nova York, observou que o estudo se assemelha a pesquisas anteriores, mostrando uso excessivo de antipsicóticos em outras populações, inclusive adultos com demência e jovens em orfanatos ou sob cuidados residenciais.

Ela observou que, apesar das evidências anedóticas indicando padrões de prescrição semelhantes em pacientes com IDDs, poucos estudos documentaram o uso de antipsicóticos nos EUA nesta população.

“Esta importante pesquisa inicia um diálogo sobre o assunto, e espera-se que leve a uma atenção maior sobre isso aqui nos EUA”, afirmou o Dr. Nishawala, que também é diretor clínico do Eating Disorders Service no The Child Study Center da NYU Langone Health.

Medicamentos antipsicóticos têm um “amplo quadro de efeitos secundários, incluindo metabólicos, como ganho de peso, dislipidemia e estados de pré-diabetes, bem como distúrbios de movimento potencialmente irreversíveis, como discinesia tardia”, ressaltou.

Portanto, é “essencial que indivíduos que recebam prescrições desta classe de medicamentos sejam submetidos a uma avaliação psiquiátrica completa, com uma indicação clara para o uso, e um monitoramento detalhado dos benefícios e potenciais efeitos secundários. Espera-se que a avaliação psiquiátrica cuidadosa, bem como o monitoramento, levem a diagnósticos mais precisos, o que poderia resultar em encaminhamento para tratamentos comportamentais ou uso de medicamentos com quadros de efeitos secundários mais favoráveis, explicou o Dr. Nishawala.

O Dr. Victor Fornari, diretor da Psiquiatria Infantojuvenil do Zucker Hillside Hospital, Glen Oaks, Nova York, disse ao Medscape que, em função dos efeitos colaterais dos antipsicóticos, “procuramos não prescrevê-los, a menos que seja clinicamente necessário”.

“Sabemos que eles podem ser usados para controles comportamentais, mas também sabemos que há muitas abordagens não farmacológicas para controles comportamentais que deveriam ser implementadas antes de usar este tipo de restrição química”, afirmou o Dr. Fornari.

“Quando postas em prática, as estratégias de gerenciamento comportamental para esta população podem ser muito efetivas. Entretanto, a equipe precisa de um treinamento intensivo e vigilância constante para certificar-se de que os planos comportamentais estão sendo seguidos. Esta classe de medicamentos pode ser utilizada quando as estratégias de gerenciamento comportamental não foram adequadas”, adicionou.

“Sob condições ideais, se você for prescrever um medicamento antipsicótico, precisa ter uma documentação clara para a indicação, e se houver uma doença psicológica além do distúrbio de desenvolvimento, ela deve ser claramente indicada. Mas sabemos que muitas vezes eles são usadas simplesmente para controle comportamental, para sedação, como limitador químico, e isto deve ser minimizado”, comentou o Dr. Fornari.

O estudo foi apoiado pelo Institute for Clinical Evaluative Sciences. Os autores Dr. Nishawala e Dr. Fornari  revelaram não possuir conflitos de interesses relevantes.

Can J Psych. Publicado on-line em 23 de agosto de 2017. Resumo

Antipsicóticos são frequentemente parte do tratamento do transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade em crianças

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criancas-com-problemas-de-atencao

Megan Brooks

 

Muitas crianças com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH) recebem algum antipsicótico, mas até 25% destas, aparentemente, não têm outro diagnóstico de doença mental para o qual é feita indicação desse tipo de medicamento.

“Não sabemos por que essas crianças e jovens com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade estão usando antipsicóticos, mas há um risco associado à exposição precoce eles. Portanto, precisamos saber mais sobre o porquê desses medicamentos estarem sendo usados para que os benefícios possam ser pesados contra os riscos”, disse o pesquisador sênior Dr. Paul Kurdyak, médico do Institute for Clinical Evaluative Sciences em Toronto (Canadá) em um comunicado à imprensa.

O estudo foi publicado on-line em 18 de janeiro no periódico Canadian Journal of Psychiatry.

 Atendimento primário

“Alguns pacientes com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade necessitam de um atendimento mais complexo, incluindo o uso de antipsicóticos,” disseram ao Medscape em um e-mail conjunto o Dr. Kurdyak e a primeira autora Dra. Tanya Hauck, médica residente de psiquiatria na University of Toronto.

“Apesar disto estar além do escopo do nosso estudo, a prescrição dos antipsicóticos nos preocupa em parte devido à indisponibilidade imediata da terapia psicológica ou comportamental, de acordo com outras evidências indicando que o acesso aos recursos da saúde mental para crianças e jovens em Ontário é difícil”, acrescentaram os autores.

“O transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade é comum e tratado habitualmente nos serviços de atendimento primário, mas muitos estudos têm sido feitos com dados de enquetes ou questionários”, observam os pesquisadores.

“O objetivo deste estudo foi compreender o transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade na população dos serviços de atenção primária à saúde, onde a maior parte dos casos de TDAH é tratada. Conectar os dados dos prontuários eletrônicos dos médicos de família a outros dados, tais como faturamentos de seguros de saúde, resultou em um banco de dados rico e detalhado, que nos possibilitou estudar como o TDAH é tratado na comunidade”, acrescentam os autores.

Entre 10.000 pacientes de Ontário com idades de um a 24 anos, a prevalência de transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade foi de 5,4% (7,9% sexo masculino, 2,7% sexo feminino).

Setenta por cento das crianças com TDAH tinham recebido prescrição de alguma medicação estimulante ou não estimulante para o transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade. Quase 12% tinham recebido prescrição de algum antipsicótico, mas para cada 1 em 4 dessas crianças, não havia outro diagnóstico psiquiátrico diferente do transtorno do TDAH registrado no prontuário.

“Nós esperávamos algumas prescrições de antipsicóticos em jovens com TDAH, especialmente nos jovens com apresentações complexas ou comorbidades, como transtornos psicóticos, mas quase 12% foi acima do que esperávamos,” disseram o Dr. Kurdyak e a Dra. Tanya.

O antipsicótico mais usado para as crianças com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade foi a risperidona (Risperdal, Janssen).

“Devido aos importantes riscos do uso de antipsicóticos em crianças, nós esperamos que todas as alternativas sejam consideradas antes da prescrição, embora haja casos em que eles são necessários”, observam os pesquisadores.

Os autores também apontam: é importante observar que a consulta psiquiátrica foi o único indicador da prescrição de antipsicóticos (odds ratio, 3,85; intervalo de confiança de 95% de 2,11 a 7,02), o que sugere que as crianças que receberam antipsicóticos tinham quadros mais complexos.

O estudo de Ontário também mostrou que um em cada cinco jovens (19,8%) com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade recebeu prescrição de algum antidepressivo. Os indicadores da prescrição de antidepressivos foram idade mais velha, consulta psiquiátrica e diagnóstico tanto de ansiedade quanto de depressão.

“O elevado número de jovens com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade que recebe algum antidepressivo ilustra como o TDAH muitas vezes não é a única doença que esses jovens apresentam”, disse a Dra. Tanya em um comunicado à imprensa.

Os pesquisadores enfatizam que os dados refletem apenas as prescrições escritas. Não se sabe se as prescrições foram dispensadas, os dados também não mostram o grau de adesão à medicação.

Além disso, esses dados vieram de um banco de dados de médicos de família e/ou clínicos gerais, e por isso não englobam os pacientes que vão exclusivamente ao pediatra para o acompanhamento médico.

Comorbidades não diagnosticadas?

“Existe um subgrupo de crianças com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade que apresenta várias comorbidades psiquiátricas graves, e por isso que o único indicador de prescrição de antipsicóticos neste estudo foi a consulta psiquiátrica”, disse ao Medscape o Dr. Stephen V. Faraone, médico do Department of Psychiatry and Behavioral Sciences, SUNY Upstate Medical University, em Syracuse, Nova York.

“Estes são casos graves, que foram devidamente encaminhados a um psiquiatra. Então, eu diria que este estudo de certa forma confirma o que se esperava”, informou o Dr. Faraone, que não participou da pesquisa.

Para o Dr. Faraone também não é surpresa que uma entre quatro crianças com transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade recebendo algum antipsicótico não tivesse registro de outro diagnóstico psiquiátrico.

“Eu não ficaria surpreso se, por vezes, o psiquiatra não quiser fazer outro diagnóstico, como transtorno bipolar infantil, pois, primeiramente: ele não está confortável; em segundo lugar, ele não quer estigmatizar o paciente; ou em terceiro lugar, ele não tem certeza, mas sabe que essa criança é realmente transtornada e muito agressiva e, possivelmente, tem alguma psicose”, disse o Dr. Faraone ao Medscape.

“De certa forma, o termo “antipsicótico” é impróprio. Obviamente, estes medicamentos são usados para tratar a psicose, mas costumam ser utilizados no transtorno bipolar infantil e também no transtorno do espectro do autismo com comportamento agressivo, duas comorbidades do transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade”, acrescentou o Dr. Faraone.

O f inanciamento d o estudo foi feito pelo Institute for Clinical Evaluative Sciences e peloOntario Ministry of Health and Long-Term Care. Os autores informaram não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema.

Demasiadas crianças tomam antipsicóticos

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Demasiadas crianças tomam antipsicóticos. E correm o risco de ficar “como robôs”

Diagnóstico é feito em idade escolar

 

Médicos alertam para excesso de medicação em casos de hiperatividade e défice de atenção, com recurso a substâncias para tratar esquizofrenia

Têm 2 anos ou menos, algumas ainda estão em idade de berço, e são diagnosticadas como crianças hiperativas, com défice de atenção, agressivas ou retraídas. E cada vez mais estão a ser tratadas com anti-psicóticos e outros remédios psiquiátricos habitualmente prescritos a adultos com doenças graves do foro mental. No ano passado, foram vendidas 276 029 embalagens de Metilfenidato (ritalina), mais 30 mil do que em 2013. O medicamento é receitado sobretudo nos hospitais públicos (37%) e em clínicas privadas (39%) a crianças e adolescentes (entre os 5 e os 19 anos) e os números têm vindo a aumentar, sobretudo desde 2010, mostra o relatório do Infarmed.

O recurso crescente a antipsicóticos – com efeitos sérios no desenvolvimento – e a probabilidade de muitos dos miúdos serem medicados sem necessidade estão a preocupar os médicos. “Estou preocupadíssima com essa tendência, que já é muito expressiva em Portugal. Qualquer dia as crianças são como robôs medicados”, diz ao DN a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. Opinião semelhante tem o neuropediatra Nuno Lobo Antunes (ver entrevista), que admite receber muitas crianças “medicadas de forma errada para o problema errado. Especialmente no caso dos neurolépticos” – como o Risperdal, recomendado para a esquizofrenia, mas também usado no tratamento do autismo.

O problema não é um exclusivo de Portugal. Nos EUA, por exemplo, perto de 20 mil receitas para os medicamentos psiquiátricos Risperdal e Seroquel – adequados a tratar doenças crónicas como a esquizofrenia ou a doença bipolar – foram passados a bebés de 2 anos ou menos. Um aumento de 50% relativamente aos 13 mil do ano anterior, segundo a multinacional de marketing farmacêutico IMS Health, citada pelo The New York Times.

Em Portugal, esta realidade está agora a ser estudada. Álvaro Carvalho, diretor do programa nacional para a saúde mental da Direção–Geral da Saúde, adiantou ao DN que “há a presunção de que há um tratamento excessivo de crianças com medicamentos como a ritalina, neste caso do grupo das anfetaminas”. E que por essa razão houve necessidade de, há um ano, se criar “um grupo de trabalho sobre prescrição de psicofármacos em idade pediátrica, com o objetivo de termos informações que não sejam apenas dados empíricos”. A intenção é fazer normas e guidelines sobre a prescrição de medicamentos nesta área. “O que já sabemos é que há uma grande pressão devido a pedidos de prescrição aos médicos pelos pais, psicólogos ou professores para tratar a hiperatividade.” E há um excesso de diagnóstico de crianças quando “se tratam problemas de comportamento”, diz. “Apesar de ainda não haver dados, há elementos para nos preocuparmos.”

Ana Vasconcelos diz que “muitos destes remédios não estão adaptados a um cérebro em crescimento” como o das crianças. Cada vez mais as patologias dos miúdos têm que ver “com o medo e o stress dos pais”, numa sociedade que vive “com mais sofrimento do que prazer. As crianças reagem atacando-nos”.

Mais prescrições

Já neste ano, o Infarmed publicou um relatório sobre as vendas de embalagens de medicamentos indicados para a perturbação de hiperatividade com défice de atenção (PHDA), que revela que a cada ano se vende mais embalagens – com mais incidência nos distritos de Viana do Castelo e Viseu, mas também em Lisboa e no Porto – para um problema que afeta 5% a 7% da população. Por norma, são medicados para o défice de atenção e hiperatividade as crianças a partir dos 5 anos. E apenas nos casos em que terapia psicológica, educacional e social não teve resultado, sublinham as indicações do Infarmed.

Mas a tendência em crescimento de receitar psicotrópicos como antipsicóticos ou antidepressivos a crianças com 2 ou menos anos já é, segundo Ana Vasconcelos, uma realidade no nosso país. “Em Portugal começou a haver muitos pediatras e neuropediatras a tratar problemas como o défice de atenção ou a hiperatividade nas crianças com remédios como a ritalina ou o Risperdal.” A especialista prefere uma abordagem diferente, com “um diagnóstico psicopatológico, procuro chegar à causa do comportamento”.

Na opinião da pedopsiquiatra, o problema é que estas crianças “ficam inadaptadas”. “É muito grave dar medicamentos sem saber o que se está a fazer. Tem de se fazer uma abordagem neurobiológica e estudar o lado cognitivo, afetivo e emocional da criança antes de prescrever remédios que podem não ser adequados à sua realidade”, diz a especialista. Caso contrário, “estamos a robotizar crianças, mas não a tratar a situação.”

Ritalina e Risperdal mais usados

A ritalina é mais usada em Portugal para tratar o défice de atenção infantil (até 2014 era dos poucos medicamentos comparticipados) e sempre esteve envolvida em polémica. Pensa-se que terá sido criada em 1944 para aumentar a concentração no campo de batalha de soldados nazis. Nos Estados Unidos e no Brasil há registo de casos em que a ritalina é usada ilegalmente sem prescrição médica por estudantes e alguns profissionais para diminuir o cansaço e ajudar no desempenho académico e profissional.

Os dados da IMS Health para os EUA não indicam quantas crianças receberam receitas, visto que muitas delas têm várias prescrições por ano, mas estudos prévios sugerem que terão sido pelo menos dez mil, segundo o artigo do NYT. As receitas para o antidepressivo Prozac ascenderam a 83 mil no grupo etário dos 2 ou menos anos, o que representou um aumento de 23% de prescrições nesta faixa etária, indicam os dados da IMS Health.

No artigo do The New York Times conta-se a história de Andrew Rios, de 4 anos, que tomou o antipsicótico Risperdal quando tinha 18 meses para tratar crises de agressividade. Depois de começar a tomar a droga, Andrew passou a gritar durante o sono e a interagir com pessoas e objetos invisíveis. A mãe foi pesquisar o medicamento e descobriu que este não estava aprovado e nunca tinha sido estudado para crianças tão novas como o seu filho.