câncer colorretal

#O #café pode estar associado à melhor sobrevida no #câncer colorretal?

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grãos de café que possuem relação com câncer colorretal

Alguns estudos mostraram que os componentes do café possuem efeitos antineoplásicos, devido as suas características antioxidantes, anti-inflamatórios e sensibilizantes à insulina. Com relação ao câncer colorretal, dados demonstraram que a maior ingestão se relacionou com melhora da sobrevida em pacientes estágio III.

Para avaliação do câncer em estágio metastático e sua relação com a ingesta de café, um novo estudo prospectivo foi realizado e publicado recentemente no JAMA Oncology.

Café e câncer colorretal

A análise utilizou pacientes que participaram do ensaio clínico randomizado de fase três do estudo Câncer e Leucemia Grupo B (Alliance) / SWOG 80405. O ensaio comparava o uso adicional de cetuximabe e/ou bevacizumab à quimioterapia padrão.

Os participantes incluídos não tiveram nenhum tratamento prévio para doença avançada ou metastática, nem câncer concomitante conhecido; tinham hemogramas e função orgânica adequados, bom desempenho funcional e nenhuma contraindicação ao tratamento com bevacizumabe ou cetuximabe.

Na inscrição do ensaio clínico, os pacientes podiam optar pela inclusão em um estudo de acompanhamento de dieta e estilo de vida. Quem aceitou, respondeu um questionário sobre dieta e estilo de vida no primeiro mês.

No momento da inscrição no ensaio clínico, os pacientes tiveram a opção de inclusão no estudo de acompanhamento de dieta e estilo de vida. Os pacientes que consentiram em participar completaram uma pesquisa sobre dieta e estilo de vida no primeiro mês de inscrição.

 

Como os resultados do ensaio clínico não demonstraram diferença significativa no uso de nenhum dos dois fármacos estudados, os pacientes que completaram o questionário da dieta foram incluídos em uma coorte prospectiva para análise da ingestão de café.

Foram excluídos aqueles que tinham uma ingesta calórica diária muito diferente (<600 ou >4200 kcal para homens; <500 ou >3500 kcal para mulheres) e os participantes que tiveram uma progressão do câncer ou morte em até 90 dias após a inscrição. Os dados foram coletados de 27 de outubro de 2005 a 18 de janeiro de 2018.

O desfecho primário foi sobrevida global, definido como tempo até a morte, e sobrevida livre de progressão, definido como tempo até a primeira progressão ou morte.

Resultados

No total, 1.171 pessoas com câncer avançado ou metastático participaram da análise, em sua maioria brancos (1.007; 86%). A mediana de idade dos pacientes foi de 59 (intervalo interquartil [IQR], 51-67) anos, com 694 homens (59%) e 477 mulheres (41%).

Quem mais bebia café eram geralmente brancos (≥4 xícaras por dia, 61 de 63 [97%]; nunca, 223 de 280 [80%]; P <0,001), do sexo masculino (≥4 xícaras por dia, 52 de 63 [83%]; nunca, 142 de 280 [51%]; P <0,001), e fumantes ou ex-fumantes (≥4 xícaras por dia, 50 de 62 [81%]; nunca, 107 de 277 [39%]; P <0,001). Essas pessoas também possuíam uma ingestão energética diária média mais alta (≥4 xícaras por dia , 2237 [variação, 791-4122] kcal por dia; nunca, 1729 [variação, 601-4038] kcal por dia; P <0,001) e tinham um consumo médio de álcool maior (≥ 4 xícaras por dia, 1 [intervalo, 0-29] g / d; nunca, 0 [intervalo, 0-9]; P <0,001).

Os bebedores frequentes de café eram mais prováveis de serem brancos (≥4 xícaras / d, 61 de 63 [97%]; nunca, 223 de 280 [80%]; P <0,001) e do sexo masculino (≥4 xícaras / d, 52 de 63 [83%]; nunca, 142 de 280 [51%]; P <0,001). Eles também eram mais propensos a serem fumantes atuais ou ex-fumantes (≥4 xícaras / d, 50 de 62 [81%]; nunca, 107 de 277 [39%]; P <0,001), para ter uma ingestão energética diária média mais alta (≥4 xícaras / d, 2237 [variação, 791-4122] kcal / d; nunca, 1729 [variação, 601-4038] kcal / d; P <0,001) e ter um consumo médio de álcool maior (≥ 4 xícaras / d, 1 [intervalo, 0-29] g / d; nunca, 0 [intervalo, 0-9]; P <0,001).

 

O tempo médio de acompanhamento entre pacientes vivos foi de 5,4 anos (10º percentil, 1,3 anos; IQR, 3,2-6,3 anos). Um total de 1.092 pacientes (93%) morreram ou tiveram progressão da doença.

Nas análises multivariáveis, a maior ingestão total de café foi associada a uma melhora significativa na sobrevida global (razão de risco [HR] para incremento de 1 xícara/dia, 0,93; IC de 95%, 0,89-0,98; P = 0,004 para tendência). maior ingestão total de café também foi associada com melhor sobrevida livre de progressão (HR para incremento de 1 xícara/dia, 0,95; IC de 95%, 0,91-1,00; P = 0,04 para tendência).

Conclusões

Segundo os resultados do estudo, o consumo de café pode estar associado a uma redução no risco de progressão da doença e de morte, sendo associado à melhor sobrevida.

Porém, algumas limitações são importantes citar, como fatores confundidores que não foram excluídos por não terem sido capturados no questionário: hábitos de sono, emprego, atividade física não relacionada a exercícios, e mudanças no consumo de café após o diagnóstico de câncer.

São necessários mais estudos para compreender os reais efeitos do café no câncer colorretal.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Referência bibliográfica:

#Nova recomendação de #rastreio do #câncer colorretal, deve começar aos 45 anos

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Com o crescente numero de novos casos de câncer colorretal em adultos jovens, o novo guideline publicado na CA: A Cancer Journal for Clinicians, apresenta uma revisão das recomendações dos métodos de triagem para prevenção do câncer colorretal, com o objetivo de salvar mais vidas.

A principal mudança é o inicio mais precoce dos exames de detecção desta doença, a orientação é que os exames comecem aos 45 anos. Porém, os especialistas também recomendam que os testes de rastreio do câncer colorretal e ainda a definição dos pacientes com maior risco que devem realizar exames antes dessa idade.

“Apesar dos principais guidelines internacionais ainda divergirem quanto ao melhor método de screening, ou seja, colonoscopia, retossigmoidoscopia, pesquisa de sangue oculto nas fezes e etc, todos concordavam em indicar o início do screening para pacientes de risco comum aos 50 anos de idade. No entanto, apesar das taxas de incidência e mortalidade do câncer colorretal terem diminuído nas últimas décadas na população acima de 55 anos, notou-se um aumento destas taxas em pacientes mais jovens, com menos de 55 anos. Provavelmente este fato está associado ao estilo de vida menos saudável, como sedentarismo, dieta americanizada e tabagismo”, comenta a Oncologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e membro do Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais (GTG), Dra. Renata D’Alpino.

Aliado a esses dados, outras metanálises e modelos que avaliam redução da mortalidade com screening, a  American Cancer Society (ACS) publicou formalmente uma nova recomendação de que o screening em pacientes de risco comum deva se iniciar aos 45 anos. Com isso se espera que a mortalidade nessa população mais jovem com câncer colorretal comece a cair.

Guideline de rastreio:
– Pessoas com risco médio deverá começar rastreio regular aos 45 anos.
– Pessoas de boa saúde e deve continuar rastreio regular até os 75 anos.
– Pessoas com idades entre 76 através de 85, fica a critério de analise do médico.
– Pessoas com mais de 85 já não tem a necessidade do rastreio.

Acesse a publicação completa aqui.

#Pesquisa mostra disparidade de tratamento de diferentes tipos de câncer pelo #SUS

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Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Entre os preceitos da saúde pública adotados no país estão a universalidade e a igualdade. No entanto, dados de um trabalho apresentado no 20° Congresso Brasileiro de Oncologia Clínica, realizado no final de outubro, no Rio de Janeiro, mostram que a realidade, em alguns casos, está bem longe desses princípios. Ao analisar diferentes centros de tratamento do Sistema Único de Saúde (SUS), pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Oncoguia, de São Paulo, identificaram grandes diferenças no padrão terapêutico oferecido para quatro tipos de câncer: pulmão, mama, colorretal e próstata.

A enfermeira Vanessa de Araújo Silva apresentou os dados do estudo, que foi publicado recentemente no Brazilian Journal of Oncology[1]. A pesquisa foi coordenada pelo oncologista clínico Dr. Rafael Kaliks, e contou com a participação da psicóloga Luciana Holtz e do advogado Tiago Matos.

Baseados na Lei de Acesso à Informação[2], os autores solicitaram informações sobre o padrão de tratamento sistêmico praticado por Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacons) e Unidades de Assistência de Alta Complexidade (Unacons) de todo o país. Foram solicitados dados dos tumores de maior incidência em mulheres (câncer de mama e câncer colorretal) e em homens (câncer de próstata, colorretal e de pulmão).

Entre fevereiro e novembro de 2016, o grupo fez 86 solicitações, obtendo respostas de 52 centros de saúde. Desse total, 18 não dispunham de diretrizes, e 34 centros enviaram pelo menos uma diretriz. Com isso, a equipe analisou protocolos de tratamento para câncer de pulmão de 29 centros, para câncer de mama de 33 centros, para câncer colorretal de 31 centros e para câncer de próstata de 33 centros.

A Região Sudeste foi a que apresentou mais centros participantes (N=20), seguida por Nordeste (N=7), Sul (N=4), Centro-oeste (N=2) e Norte (N=1).
Os autores compararam o padrão de tratamento de cada centro oncológico às Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas (DDTs) estabelecidas pelo Ministério da Saúde (MS). O objetivo, segundo Vanessa, foi avaliar quais centros praticavam o preconizado pelo MS e quais estavam acima ou abaixo desse padrão. A imagem a seguir resume os esquemas recomendados nas DDTs e usados como padrão na pesquisa para as quatro neoplasias. A imagem é uma reprodução do artigo do Braz J Oncol[1].

Fonte: Kaliks, RA et al., 2017. Braz J Oncol[1]

Câncer de pulmão

Com relação aos tumores de pulmão, foram avaliados protocolos de tratamento para as fases de adjuvância e doença metastática para câncer de pulmão não-pequenas células. Os resultados mostram que apenas cinco dos 29 centros analisados apresentaram tratamento compatível com o sugerido pela DDT, enquanto oito foram superiores e 16 inferiores ao padrão do MS.

O Rio de Janeiro foi o estado com maior número de centros analisados (N =8) para esse tipo de tumor. No entanto, cinco centros foram avaliados como abaixo da DDT e apenas um acima da DDT. A cidade do Rio de Janeiro tem, segundo o estudo, de centros que disponibilizam apenas os quimioterápicos mais básicos (platina, taxano, etoposideo e gemcitabina) até um centro que oferece todas as medicações adotadas na saúde suplementar, com exceção de nivolumabe. São Paulo foi outro estado que mereceu destaque, de acordo com a palestrante. Dos cinco centros analisados, um esteve abaixo (disponibilizando apenas platina, etoposide, taxano e gemcitabina), três estiveram de acordo com a DDT e um esteve acima do padrão do MS, oferecendo inclusive nivolumabe ou pembrolizumabe. Recife (PE) foi um dos locais que apresentou maior homogeneidade, com os três centros analisados apresentando padrão acima do preconizado na DDT (dispondo de afatinibe, crizotinibe e bevacizumabe); uma das unidades de saúde oferece inclusive nivolumabe[1].

 

Câncer de mama

Para esse tipo de tumor, o estudo incluiu 33 centros de saúde. Foram considerados os tratamentos usados nas fases de neoadjuvância, adjuvância e metastática. Doze centros apresentaram diretrizes compatíveis com as DDTs, 13 tiveram um nível superior e oito foram considerados inferiores ao padrão.

Considerando os nove centros investigados no Rio de Janeiro, cinco estiveram de acordo com a DDT, dois abaixo (não disponibilizam nenhuma terapia anti-Her2), um acima (oferece lapatinibe, trastuzumabe e everolimus em câncer de mama metastático – CMM) e outro muito acima (todas as terapias anti-Her2 em CMM). Na cidade de São Paulo, onde foram avaliados seis centros, também houve discrepâncias: desde abaixo do padrão (um centro não disponibiliza capecitabina e gemcitabina) até muito acima do padrão (um centro disponibiliza todas as terapias anti-Her2, everolimus, eribulina). Em Recife, também foram identificados centros apresentando diretrizes abaixo da DDT (N=1) até outro com nível muito acima (N=1).

Câncer colorretal

No caso de câncer colorretal, foram avaliados os protocolos para tratamento das fases adjuvante e metastática. Dos 31 centros investigados, 21 foram compatíveis com a DDT e 10 se revelaram superiores.

São Paulo revelou homogeneidade, com quatro das cinco instituições analisadas apresentando nível equivalente ao padrão da DDT. Uma unidade esteve ainda acima do padrão, oferecendo cetuximabe e bevacizumabe. No Rio de Janeiro, seis das nove unidades analisadas também ofereceram tratamento de acordo com o preconizado pelo MS, e três unidades disponibilizavam tratamento superior ao padrão. Em Recife, predominaram centros acima do padrão (três em quatro analisados) e um de acordo com a DDT.

Câncer de próstata

Para essa neoplasia, foram avaliados esquemas de tratamento usados para doença metastática sensível à castração e refratária à castração. Os autores não consideraram o tratamento curativo com radioterapia associada à ablação androgênica devido à ausência de dados sobre radioterapia.

Dos 33 centros investigados, 19 tiveram diretrizes compatíveis com a DDT e 14 foram inferiores ao padrão do MS. No caso do Rio de Janeiro, a maioria dos centros investigados (6/9) oferece o padrão do MS, mas três unidades disponibilizam tratamento acima do padrão (um disponibiliza cabazitaxel, abiraterona e enzalutamida, e dois disponibilizam abiraterona). Situação semelhante foi observada em São Paulo, com cinco dos oito centros analisados apresentando o padrão do MS e três acima. Em Recife, três disponibilizam tratamento acima do preconizado na DDT e um está de acordo com o padrão médio do MS.

Segundo Vanessa, é importante destacar que a equipe usou informações de diretrizes disponibilizadas pelos centros de saúde, então não há como garantir que, de fato, as medidas listadas nos protocolos fornecidos são aplicadas na prática. Além disso, surge a dúvida com relação aos centros sem diretrizes: “será que apresentam padrão melhor do que o praticado nos centros com diretrizes?”.

A pesquisa mostrou uma variação significativa entre os centros, com unidades disponibilizando desde terapias inferiores ao preconizado até centros com nível semelhante ao da saúde suplementar.

O Dr. Kaliks afirmou durante debate após a apresentação que o objetivo do estudo não foi provar que um centro é melhor do que outro. “A disparidade que encontramos é chocante”, disse, lembrando que houve grande dificuldade para obter informações das unidades de saúde: “O advogado do Instituto Oncoguia precisou entrar em contato várias vezes e explicar a Lei de Acesso à Informação. De maneira geral, os centros não publicam as diretrizes de tratamento, mas os pacientes deveriam ter acesso aos manuais das instituições de saúde”.

#Indústria do #álcool minimiza deliberadamente o #risco de câncer

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Kristin Jenkins

A indústria de bebidas alcoólicas está deliberadamente enganando o público e os responsáveis pela elaboração de políticas sobre o risco de câncer relacionado com o consumo de álcool, particularmente o câncer de mama e o câncer colorretal, no intuito de proteger seus lucros à custa da saúde pública – exatamente como o fez a indústria do tabaco, dizem pesquisadores.

A análise qualitativa de todos os textos relacionados com o câncer encontrados em websites e em documentos de 26 organizações da indústria do álcool revela que a maioria das informações deturpa abertamente as evidências sobre a associação entre o álcool e o câncer, dizem Mark Petticrew, PhD, professor de avaliação de saúde pública na Faculty of Public Health and Policy da London School of Hygiene and Tropical Medicine,no Reino Unido, e colaboradores.

No total, 24 websites de organizações contêm omissões significativas e/ou falsas declarações sobre as evidências que relacionam o consumo de álcool com o aumento do risco de muitos tipos de câncer, dizem os autores do estudo em um artigo publicado on-line em 7 de setembro no periódico Drug and Alcohol Review.

“Costumávamos presumir que, de modo geral, a indústria do álcool, ao contrário da indústria do tabaco, tendia a não negar os prejuízos causados pelo álcool”, escrevem os pesquisadores. Nossa análise mostra que, ao contrário, a indústria do álcool em todo o mundo está divulgando atualmente de forma pró-ativa informações enganosas sobre o consumo de álcool e o risco de câncer, particularmente o câncer de mama (…)  A dimensão real e a natureza dessas atividades requerem uma investigação urgente”.

O estudo demonstra que a indústria do álcool e seus parceiros de comunicação ou SAPROS, a saber, organizações de aspectos sociais e relações públicas (acrônimo do inglês s ocial aspects and public relations organizations), incentivam o “consumo responsável” usando a negação, a distorção e a distração (ou os “três Ds” do inglês: d enial, distortion, and distraction). Essas estratégias correspondem às da indústria do tabaco, e permitem que os produtores de álcool mantenham “a ilusão de retidão” diante dos responsáveis pela elaboração de políticas, ao mesmo tempo que eliminam todo e qualquer impacto negativo significativo no consumo das bebidas alcoólicas ou nos seus lucros”, dizem os autores do estudo.

“O paralelo mais óbvio é com a campanha de décadas da indústria mundial de tabaco para enganar o público sobre o risco de câncer, que também usou as organizações de frente e as atividades de responsabilidade social corporativa para enganar o público”, escrevem os autores. “Nossas descobertas são também um lembrete do risco inerente de outorgar à indústria do álcool a responsabilidade de informar o público sobre a relação entre o álcool e a saúde”.

Mesmo o consumo de pequenas quantidades de álcool está associado ao aumento do risco de pelo menos sete tipos de câncer (boca, faringe, laringe, esôfago, fígado, mama e intestino – câncer colorretal), dizem os pesquisadores, observando que a indústria do álcool usa a negação ou a omissão para contestar essas informações. As táticas de distorção mencionam o câncer, mas deturpam o risco real, e a tática da distração é usada para afastar a mensagem dos efeitos independentes do álcool nos tipos comuns de câncer, especialmente no câncer de mama e no câncer colorretal.

Contrariamente à indústria do tabaco, os grandes produtores mundiais de álcool ainda têm acesso aos departamentos de saúde do governo e mantêm o status de parceiros, ou partes interessadas nas reuniões da Organização Mundial de Saúde sobre as questões internacionais de saúde relevantes para a indústria do álcool, dizem Petticrew e colaboradores.

“A indústria do álcool participa da elaboração de políticas relacionadas com o álcool em muitos países, e da divulgação de informações referentes à saúde para o público, inclusive para crianças em idade escolar. Os responsáveis pela elaboração de políticas, os acadêmicos, a saúde pública e outros profissionais, devem reconsiderar a adequação de suas relações com esses representantes da indústria do álcool”.

Quando solicitado a comentar, Tim Stockwell, PhD, diretor do Center for Addictions Research of British Columbia, e professor do departamento de psicologia da University of Victoria,na Colúmbia Britânica, Canadá, concordou. “Eu faço meus os comentários dos autores, de que provavelmente eles só examinaram a ponta do iceberg da influência indevida da indústria do álcool nas informações públicas sobre álcool e saúde”, disse ele ao Medscape.

“Pessoalmente não estou surpreso com essas descobertas, porque tenho testemunhado em primeira mão as tentativas de negar, distorcer ou simplesmente minimizar as evidências sobre os impactos negativos do álcool na saúde feitas pelos altos representantes da indústria do álcool em vários países, bem como pelos órgãos internacionais do setor”.

Um arsenal de estratégias de influência nas mídias sociais em constante expansão, como o financiamento de grupos de especialistas “independentes” e de pesquisas universitárias, e o trabalho para conquistar um lugar nas mesas de discussão de políticas nacionais e internacionais, permitiu que a indústria do álcool exercesse “uma influência indevida sobre as informações públicas sobre o álcool e a saúde”, disse Stockwell, que não participou do estudo.

“As consequências dessas atividades justificam o ponto de vista de que a própria indústria do álcool é uma ameaça à saúde e à segurança pública. Uma dica seria dizer para se pensar em ‘indústria do álcool’, pensar ‘indústria do tabaco’ ao visualizar os recursos produzidos pelos órgãos da indústria de bebidas”, sugeriu.

   Uma expressão melhor seria “bebida de baixo risco”, pois isso reconhece o fato de que mesmo o consumo de uma pequena quantidade de álcool é um fator de risco de câncer. Tim Stockwell

Não existe algo como “consumo responsável” quando se trata das consequências em longo prazo para a saúde associadas ao consumo de álcool, acrescentou. “Uma expressão melhor seria ‘bebida de baixo risco’, pois isso reconhece o fato de que mesmo o consumo de uma pequena quantidade de álcool é um fator de risco de câncer”.

Informações sobre o consumo de álcool

Na análise os pesquisadores identificaram todas as informações disponíveis sobre o consumo de álcool e o câncer no website do Global Alcohol Producers, e em seus relatórios de atualização, de setembro a dezembro de 2016. Os autores também analisaram todo o conteúdo relacionado com a saúde nas seções de responsabilidade social corporativa de 27 websites de produtores de álcool. Um site estava inacessível, então 26 foram analisados.

Os pesquisadores descobriram que cinco organizações da indústria do álcool negaram a associação entre o álcool e pelo menos um tipo de câncer. As informações fornecidas pela International Alliance for Responsible Drinking ( IARD ), por exemplo, afirmam que “pesquisas recentes sugerem que o consumo leve a moderado de álcool não está significativamente associado a aumento do risco total de câncer em homens ou mulheres”. Da mesma forma, a Éduc’al-cool (Quebec, Canadá) declarou que “alguns estudos mostram uma relação entre o álcool e o câncer de mama na mulheres antes e depois da menopausa. No entanto, não foi demonstrada nenhuma relação causal entre o consumo moderado de álcool e o câncer de mama”.

Para distorcer o vínculo entre o álcool e o risco de câncer, 12 das 20 SAPROS alegaram que o risco de alguns tipos comuns de câncer existe apenas para certos padrões de comportamento de consumo de bebidas alcoólicas, como o consumo intenso prolongado ou o beber compulsivamente. A página da web DrinkWise (em português: “beba com sabedoria”, da Austrália) afirma que “o  risco de câncer associado ao consumo de álcool está relacionado com os padrões de consumo de álcool, particularmente beber muito durante longos períodos de tempo”, por exemplo. O site da International Alliance for Responsible Drinking faz declarações semelhantes, como, “em geral, os tipos de câncer relacionados com o álcool foram associados ao consumo excessivo de álcool”.

Oito dos sites das SAPROS usam a tática da distração para conduzir a discussão para longe dos efeitos independentes do álcool no aumento do risco de tipos comuns de câncer, mostra o estudo. No site TalkingAlcohol.com, por exemplo, SABMiller parece insinuar que o álcool está associado apenas a formas menos comuns de câncer de mama: “Estudos recentes indicam que o consumo de álcool pode estar mais fortemente relacionado com determinada forma menos comum de câncer de mama (câncer lobular), do que com o tipo mais comum de câncer de mama (câncer ductal)”.

Algumas empresas da indústria do álcool chegam inclusive a afirmar que o consumo de álcool é protetor contra o câncer, particularmente nos fumantes. O site da SABMiller afirma que o consumo moderado de álcool pode ser relacionado com menor risco de câncer de bexiga, rim, ovário e próstata, ressaltam os pesquisadores. Além disso, a International Alliance for Responsible Drinking insiste que “foi demonstrado que entre os fumantes de longa data, o consumo de álcool é protetor contra adenomas colorretais”.

As duas áreas de desinformação mais frequentes se concentram no câncer de mama e no câncer colorretal, ressaltam os autores do estudo. No total, 21 organizações apresentam informações enganosas sobre o câncer de mama ou não apresentam nenhuma informação, e 22 apresentam informações enganosas sobre o câncer colorretal ou não apresentam nenhuma informação, dizem eles.

Embora a amplitude do estudo fortaleça sua possibilidade de generalização, sua principal fraqueza é o fato de não ter examinado outros mecanismos de divulgação de informações sobre saúde, como pelo Twitter ou em congressos e campanhas publicitárias. “Entretanto, não parece plausível que a indústria adote mensagens diferentes em relação ao câncer em diferentes canais de comunicação, embora esta seja uma questão importante para novas pesquisas”, escrevem Petticrew e colaboradores.

“Também é possível que essas fontes da indústria citem de forma inapropriada, ou mostrem fora de contexto, as opiniões de especialistas ou outros comentários incluídos”.

Também é necessário fazer uma análise mais aprofundada do viés de citação por meio da “escolha seletiva” das evidências pela indústria do álcool, assim como o acompanhamento rigoroso das informações produzidas por novos órgãos da indústria do álcool, como a Alcohol Information Partnership. Outros sites da indústria, documentos, redes sociais, e outros tipos de material também devem ser examinados “para avaliar a natureza e a extensão da distorção das evidências, e se isto se estende a outras informações sobre saúde – por exemplo, em relação às doenças cardiovasculares. Também são necessárias pesquisas comparativas entre as indústrias e outras áreas de política de álcool, a fim de examinar a distorção de evidências da indústria”.

Necessidade de alertas explícitos sobre os malefícios à saúde

Stockwell recomenda que se dê prioridade a limitar “a perigosa influência dos grupos da indústria do álcool nas comunicações públicas sobre o álcool” suspendendo definitivamente o financiamento do governo e a colaboração com as organizações da frente do setor. Os grupos da indústria do álcool devem ser obrigados por lei a veicular alertas explícitos sobre a saúde, e declarações públicas de conflitos de interesse em quaisquer informações sobre saúde que divulgarem, e os médicos devem ser extremamente criteriosos sobre as suas fontes de informações sobre o álcool”, disse ele.

   O álcool nas bebidas alcoólicas é reconhecido como cancerígeno e não existe um nível seguro para o consumo. Tim Stockwell

Todos os recipientes de álcool deveriam conter mensagens importantes sobre a saúde, e essas mensagens deveriam incluir informações sobre os diversos riscos para a saúde relacionados com o uso de álcool, mesmo moderado, acrescentou.

“A noção de que o álcool nas bebidas alcoólicas é reconhecidamente cancerígeno e que não há um nível seguro deve fazer parte dessas informações”, disse Stockwell ao Medscape.

Os médicos devem ser extremamente criteriosos com as próprias fontes de informações relacionadas ao álcool, aceitando apenas fontes imparciais e independentes que, idealmente, sejam peer-reviewed (revisadas por especialistas), e não estejam vinculadas a nenhum tipo de financiamento de grupos com interesses comerciais, aconselhou Stockwell. Os médicos também precisam manter o ceticismo ao serem apresentadas “boas notícias” que minimizam os riscos, ou enfatizam os potenciais benefícios do álcool, e se manterem alertas sobre a própria tendência a contemporizar, quando se trata de álcool, advertiu.

“Existe uma tendência na profissão médica de subestimar os efeitos do álcool sobre a saúde e, de fato, há evidências consideráveis de que as profissões relacionadas com a medicina costumam ter alto risco de problemas relacionados com o álcool”, disse ele.

A boa notícia é que os médicos podem desempenhar um papel crucial no enfrentamento do impacto das mensagens enganosas sobre o risco de câncer relacionado com o álcool. As evidências mostram que os pacientes são mais propensos a aceitar conselhos sobre o próprio comportamento em relação ao álcool quando estes conselhos são dados por um médico ou algum outro profissional de saúde, destacou Stockwell.

“Existem boas evidências de que mesmo conselhos simples para reduzir o consumo podem ser eficazes, especialmente se isso for reforçado nas futuras consultas”, disse Stockwell.

   Conselhos sobre consumo de baixo risco ou abstinência devem fazer parte dos programas de rotina no tratamento do câncer. Tim Stockwell

Medidas pró-ativas, como a triagem dos pacientes para fatores de risco comportamentais (por exemplo, consumo de álcool) também são importantes, particularmente para os pacientes com maior risco de doença grave, ou para aqueles que já foram diagnosticados.

“Há evidências de que o consumo de álcool pode aumentar a velocidade de crescimento dos tumores e, portanto, o aconselhamento sobre consumo de baixo risco ou abstinência deve ser parte integrante dos programas de rotina de tratamento de câncer”, observou Stockwell.

Os autores do estudo e Stockwell informaram não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

Drug Alcohol Rev. Publicado em 7 de setembro de 2017. Resumo

#Grãos integrais e #exercícios reduzem risco de #câncer colorretal

Postado em

Roxanne Nelson

Comer grãos integrais diariamente e aumentar os níveis de atividade física podem reduzir o risco de câncer colorretal e de cólon, apontou com um novo relatório do American Institute for Cancer Research (AICR) e do World Cancer Research Fund (WCRF).

Por outro lado, consumir carne vermelha e carne processada aumenta o risco, assim como beber duas ou mais bebidas alcoólicas por dia.

A evidência foi considerada “forte” para todos esses fatores, tanto em aumentar quanto em reduzir o risco. Esta é a primeira vez que pesquisas da AICR/WCRF associaram grãos integrais de forma independente à redução de risco de câncer.

   Há muitas coisas que as pessoas podem fazer para reduzir drasticamente o risco. Dr. Edward L. Giovannucci

“O câncer colorretal é um dos tumores mais comuns, mas ainda assim este relatório demonstra que há muitas coisas que as pessoas podem fazer para diminuir dramaticamente o risco”, disse o Dr. Edward L. Giovannucci, autor principal do relatório e professor de nutrição e epidemiologia na Harvard TH Chan School of Public Health, em Boston, Massachusetts, em um comunicado à imprensa.

“Os resultados deste relatório abrangente são robustos e claros: dieta e estilo de vida têm um papel importante no câncer colorretal”.

Continuous Update Project

O Continuous Update Project (CUP) analisa pesquisas sobre prevenção e sobrevida no câncer associadas à dieta, nutrição, atividade física e peso, e é liderado e administrado pela WCRF International em parceria com a AICR,e em nome do World Cancer Research Fund (Reino Unido) e dos World Cancer Research Funds da Holanda e de Hong Kong. Os resultados do projeto são usados para atualizar as recomendações de prevenção do câncer.

Durante a última década, AICR/WCRF publicou vários relatórios sobre o efeito da dieta, nutrição e/ou atividade física sobre o risco de vários tipos de câncer.

Por exemplo, como relatado pelo Medscape, o grupo publicou um relatório que forneceu evidências de uma associação entre o risco de hepatocarcinoma e obesidade e consumo de álcool. Também descobriu que beber café ajudou a reduzir esse risco.

Há alguns anos, o grupo também relatou que a atividade física, ou a falta dela, desempenha um papel proeminente no risco de câncer de endométrio. O relatório estimou que 59% dos casos de câncer de endométrio (cerca de 29.500 por ano) poderiam ser prevenidos se as mulheres realizassem atividade física durante pelo menos 30 minutos por dia, e mantivessem um peso corporal saudável.

Resultados-chave para câncer colorretal

No relatório atual, os pesquisadores analisaram como dieta, peso e atividade física afetaram o risco de câncer colorretal. Eles analisaram 99 estudos que incluíram mais de 29 milhões de adultos e mais de 247.000 casos de câncer colorretal.

Para fatores que reduziram o risco de doença, houve forte evidência (convincente) de que ser fisicamente ativo diminui o risco de câncer de cólon (mas nenhuma evidência para o câncer de reto).

Também houve forte evidência (provável) de que o consumo de grãos integrais, alimentos ricos em fibras alimentares, suplementos de cálcio e produtos lácteos diminui o risco de câncer colorretal.

Além disso, evidências limitadas sugerem que consumir alimentos contendo vitamina C, comer peixe, tomar um multivitamínico, e vitamina D, também podem reduzir o risco.

Em contraste, houve fortes evidências de que consumir carne vermelha (provável) e carne processada (convincente) aumenta o risco de câncer colorretal.

Esta não é a primeira vez que as carnes vermelha e processada foram associadas a risco de câncer. Em 2015, a International Agency for Research on Cancer (IARC), a agência de câncer da Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou o consumo de carne processada como “cancerígena para o ser humano”. Além disso, um estudo em mulheres na pré-menopausa descobriu que o alto consumo de carne vermelha aumentou o risco de câncer de mama.

O relatório atual também encontrou forte evidência (convincente) de que consumir aproximadamente duas ou mais doses de bebidas alcoólicas por dia, ter sobrepeso ou obesidade, e ser alto aumentam o risco de câncer colorretal.

Além disso, evidências limitadas sugerem que o baixo consumo de frutas e legumes não-amiláceos, e de alimentos que contenham ferro-heme, pode aumentar o risco de câncer colorretal.

Novas pesquisas continuam a ser publicadas sobre esses fatores, mas tudo aponta para o poder de uma dieta baseada em vegetais, comentou Alice Bender, diretora de programas de nutrição do AICR, em um comunicado da entidade.

“Substituir alguns grãos refinados por grãos integrais, e comer principalmente alimentos vegetais, como frutas, vegetais e feijão, fornecerá uma dieta repleta de compostos que protegem contra o câncer, e ajudará a controlar o peso, o que é muito importante para reduzir o risco”, disse Alice.

“Quando se trata de câncer, não há garantias, mas está claro agora que há escolhas a serem feitas e medidas que podem ser adotadas para reduzir o risco de câncer colorretal e de outros tipos de câncer”.

SUNSHINE: Vitamina D desacelera a progressão do câncer de cólon

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Nick Mulcahy

CHICAGO – Nos anos recentes, dados observacionais mostraram que níveis plasmáticos mais elevados de vitamina D estão associados a melhora da sobrevida nos pacientes com câncer colorretal.

Agora, pela primeira vez, um estudo randomizado mostrou que a progressão da doença desacelera com altas doses de suplementos.

Os resultados, provenientes de um ensaio clínico de fase 2 conhecido como SUNSHINE, indicam que uma alta dose de suplementação de vitamina D melhorou significativamente a sobrevida livre de progressão (SLP) por cerca de dois meses quando comparado com uma dose baixa.

O estudo foi conduzido em pacientes com câncer colorretal metastático não tratado previamente. Todos os participantes receberam o tratamento padrão com o regime de quimioterapia mFOLFOX6 (isto é, ácido folínico – leucovorin, fluoracil e oxaliplatina) mais bevacizumabe.

Esse é o primeiro estudo randomizado já completado sobre o uso de vitamina D como uma terapia para o câncer colorretal, disse a autora principal Dra. Kimmie Ng, do Dana Farber Cancer Institute,em Boston, Massachusetts, que apresentou o estudo no Encontro Anual de 2017 da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

“Os pacientes pareceram evoluir melhor com as altas doses de vitamina D. Estou realmente animada com os dados”, disse ela ao Medscape.

“Um estudo de fase 3 está garantido”, acrescentou ela.

Outro especialista expressou entusiasmo semelhante sobre o estudo. “Os achados desse estudo são incrivelmente animadores”, disse Song Yao, epidemiologista molecular no Roswell Park Cancer Institute, em Buffalo, Nova York, que foi convidado a comentar.

Os achados desse estudo são incrivelmente animadores. Song Yao

Ele apontou que no Gastrointestinal Cancers Symposium de 2015 da ASCO a mesma equipe mostrou que, em um estudo observacional, pacientes com altos níveis de vitamina D sobreviveram mais do que aqueles com baixos níveis. “Esse novo estudo fornece as tão necessárias evidências baseadas em estudo de desenho randomizado”, comentou.

Uma outra médica já estuda os níveis de vitamina D em pacientes com câncer colorretal.

“Eu avalio os níveis de vitamina D e faço a reposição quando necessário em meus pacientes, mas precisamos de mais dados para saber se isso deve mudar nossa prática”, disse a Dra. Allyson Ocean, oncologista gastrointestinal no Weill Cornell Medicine e do New York–Presbyterian Hospital, em Nova York.

Ela também disse ao Medscape que os resultados são “bem intrigantes”, e que um estudo de fase 3 é necessário.

A Dra. Kimmie relatou que no grupo de dose alta (n=69), a SLP mediana, que foi o desfecho primário, foi de 13,1 meses, comparado com 11,2 meses para o grupo de dose baixa (n=70). Isso se traduz em uma redução de 31% no risco relativo para progressão da doença no grupo de dose alta (hazard ratio não ajustada, 0,69; P = 0,04).

Pacientes do grupo de alta dose receberam uma dose de ataque de 8000UI/dia de vitamina D3 oralmente por duas semanas, seguida de 4000UI/dia. Aqueles do grupo de baixa dose receberam uma dose padrão de vitamina D3 de 400UI/dia.
A mediana de seguimento foi de 16,9 meses no grupo de alta dose e de 17,9 no grupo de baixa dose.

Cada grupo recebeu um número semelhante de ciclos de quimioterapia, e ambos foram igualmente aderentes à suplementação de vitamina D. As localizações primárias dos tumores (cólon direito, esquerdo e transverso) também eram semelhantes para os dois grupos.

A taxa de controle da doença no grupo de alta dose foi de 96% versus 84% no grupo de baixa dose (P = 0,05).

A dose elevada não aumentou a toxicidade. Também houve uma quantidade significativamente menor de diarreia grave (grau 3 e 4) no grupo de alta dose (12% versus 1%; P = 0,02).

Os resultados foram ainda mais impressionantes porque houve um desequilíbrio entre os dois grupos de estudo que favorecia o grupo de baixa dose: 60% daqueles do grupo de baixa dose tinham o melhor performance status possível, versus apenas 42% do grupo de alta dose.

Em outras palavras, o grupo de alta dose evoluiu melhor apesar de ter uma capacidade física pior do que do grupo de comparação.

Notadamente, mais pacientes no braço com altas doses de vitamina D foram capazes de ser submetidos a cirurgia depois da quimioterapia (11 versus 6). No entanto, a diferença não foi estatisticamente significativa (P = 0,19), concordou a Dra. Kimmie. “É um achado intrigante”, disse ela.

O estudo e seus resultados não deixaram de ser notados. “Há grande interesse por parte de cuidadores e pacientes”, disse a Dra. Kimmie.

Dentre os 139 pacientes que foram recrutados e efetivamente participaram do estudo, a maioria era da Nova Inglaterra; uma minoria era de Nashville, Tennessee (na Vanderbilt University).

A geografia pode ter tido um papel nos resultados, sugeriu a Dra. Andrea Cercek, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, que atuou como debatedora do estudo. Na Nova Inglaterra, disse ela, “existe um pouco menos de luz solar do que em outras partes dos Estados Unidos”.

Isso levantou a questão sobre os níveis prévios de vitamina D dos participantes do estudo (a vitamina D3 é fabricada pela pele humana quando exposta à luz do sol). “Não se sabe se os pacientes tinham deficiência de vitamina D pelos padrões americanos”, disse ela.

Não se sabe se os pacientes tinham deficiência pelos padrões americanos. Dra. Andrea Cercek

A Dra. Andrea também disse que os resultados de outros estudos de suplementação de vitamina D em pacientes com câncer são mistos. Um estudo não indicou redução no risco de adenomas, e outro teve um achado negativo – reduziu a sobrevida em pacientes com câncer de próstata que receberam suplementos de vitamina D.

Com essas ressalvas, ela gostaria de ver mais pesquisas: “Eu concordo 100% com os pesquisadores quanto à necessidade de um estudo de fase 3”.

O estudo foi financiado por National Cancer Institute, Dana-Farber, Consano, Pharmavite e Genentech. Diversos autores do estudo, incluindo a Dra. Kimmie, possuem ligações financeiras com a indústria, incluindo Genentech. Dr. Yao declarou não possuir conflitos de interesses relevantes.

Encontro Anual de 2017 da American Society of Clinical Oncology. Resumo 3506. Apresentado em 5 de junho.

Redução de risco após o câncer: estilo de vida saudável (e algum tipo de noz)

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Roxanne Nelson

Pacientes com câncer com frequência perguntam o que podem fazer para se ajudarem. Novos dados de um estudo de longa duração em pacientes com câncer colorretal em estágio inicial confirmam que seguir um estilo de vida saudável reduz o risco de morte por câncer. Uma análise complementar acrescenta um novo dado: comer nozes também.

Os novos dados são de questionários preenchidos por pacientes com câncer colorretal no estágio III durante e após quimioterapia adjuvante.

“Descobrimos que os pacientes que tinham um peso corporal saudável, praticavam atividade física regular, comiam uma dieta rica em vegetais, frutas e grãos integrais e pobre em carnes processadas e carnes vermelhas, e bebiam quantidades pequenas ou moderadas de álcool tinham maior sobrevida livre de doença e global do que os pacientes que não o faziam”, disse a autora principal do estudo, Erin Van Blarigan, professora-assistente de epidemiologia e bioestatística da University of California,em San Francisco.

Seguir um estilo de vida saudável reduziu o risco de morte em 42%, e acrescentar consumo moderado de álcool à análise reduziu ainda mais o risco de morte, em 15%.

Erin falou em uma entrevista coletiva à reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO). Os novos resultados são de uma análise dos dados coletados durante o ensaio CALGB 89803. Este estudo comparou vários regimes de quimioterapia adjuvante; os resultados foram publicados há 10 anos (J Clin Oncol. 2007;25:3456-3461).

O estilo de vida foi avaliado em dois momentos diferentes durante o período de estudo, com uso de pesquisas validadas. Um sistema de pontuação foi utilizado para quantificar a adesão às diretrizes publicadas pela American Cancer Society (ACS) (intervalo de 0 a 6; quanto maior a pontuação, mais saudáveis os comportamentos).

O consumo de álcool está incluído nas diretrizes da ACS para prevenção do câncer, mas não para sobreviventes de câncer, então Erin explicou que eles avaliaram a pontuação com e sem consumo de álcool.

Em um acompanhamento médio de sete anos, houve 335 recorrências e 299 óbitos (43 sem recorrência).

Os pesquisadores compararam então os desfechos para os pacientes com as maiores pontuações de aderência às diretrizes de estilo de vida saudável (5 a 6 pontos; n = 91, 9%) com os desfechos para os pacientes que obtiveram o menor grau de adesão às diretrizes (0 a 1 ponto; n = 262, 26%). Eles encontraram um risco 42% menor de morte (hazard ratio, HR, 0,58; P para tendência = 0,01) e uma tendência para a melhora da sobrevida livre de doença (SLD) para os pacientes com maior aderência às recomendações de estilo de vida saudável (HR, 0,69; P para tendência = 0,03).

Quando a análise incluiu álcool na pontuação, as HRs ajustadas para pacientes com pontuação de 6 a 8 pontos (n = 162, 16%) em comparação com aqueles cujo escore foi de 0 a 2 pontos (n = 187, 91% ) foram 0,49 para a sobrevida global (P para tendência = 0,002), 0,58 para SLD (P para tendência = 0,01), e 0,64 para sobrevida livre de recorrência (P para tendência = 0,05).

“Nossa equipe de pesquisa está realizando ensaios clínicos para avaliar a viabilidade e a aceitabilidade de intervenções digitais no estilo de vida, como o Fitbit, para pacientes com câncer colorretal”, disse Erin. “Se nossas intervenções forem aceitáveis e úteis aos pacientes, testaremos o impacto delas no risco de recorrência e mortalidade por câncer em estudos futuros”.

O estudo tem algumas limitações porque os resultados dependem da memória dos pacientes sobre o próprio comportamento, “mas a conclusão é que as diretrizes da ACS e outros recomendam comportamentos saudáveis porque eles são de fato saudáveis para você”, comentou o Dr. Richard L. Schilsky, chefe médico da ASCO.

Nozes reduzem mortalidade e recorrência

Em um estudo relacionado que usou a mesma coorte de pacientes do estudo CALGB 89803, os pesquisadores observaram que o consumo regular de nozes também foi associado a um menor risco de recorrência do câncer de cólon e a uma melhor sobrevida global.

Entre os 826 pacientes incluídos nesta análise, os resultados mostraram que aqueles que consumiram 2 ou mais onças (aproximadamente 56 gramas) de frutas e sementes oleaginosas de cascas rijas por semana tiveram um risco 42% menor de recorrência da doença, e um risco de mortalidade de 57% menor em comparação com aqueles que não comeram esse tipo de alimento.

Mas uma análise secundária, explicou o autor principal, Dr. Temidayo Fadelu, um fellow clínico em medicina no Dana Farber Cancer Institute, em Boston, Massachusetts, mostrou que o benefício do consumo estava limitado às oleaginosas que crescem em árvores – a associação não foi significativa para amendoim (e manteiga de amendoim).

O mecanismo biológico não é conhecido, mas provavelmente está relacionado ao efeito das nozes na resistência a insulina, ele destacou. “Esses resultados contribuem para evidências sobre o benefício de fatores dietéticos e do estilo de vida no câncer de cólon”.

Outros estudos observacionais sugeriram que aumentar o consumo de nozes está associado com menor risco de diabetes tipo 2, síndrome metabólica e resistência a insulina.

Melhor sobrevida livre de doença

Dr. Fadelu e colaboradores avaliaram associações do consumo de nozes com recorrência e mortalidade do câncer. Eles descobriram que, em comparação com os pacientes que se abstiveram de comer estes frutos secos, aqueles que consumiram pelo menos duas porções por semana tiveram uma HR ajustada de 0,58 (P para tendência = 0,03) para SLD e 0,43 (P para tendência = 0,01) para sobrevida global.

Os autores também observaram que, na análise de subgrupos, a associação significativa se aplicava apenas ao consumo de frutos oleaginosos que não o amendoim: HR de 0,54 (P para tendência = 0,04) para SLD e 0,47 (P para tendência = 0,04) para a sobrevivência global.

Além disso, eles observaram que a associação de consumo de frutos oleaginosos secos com melhores desfechos foi mantida entre alterações genômicas comuns (instabilidade de microssatélites, mutação KRAS, mutação BRAF e mutação PIK3CA).

O Dr. Schilsky observou que o estudo descobriu que comer duas porções de nozes por semana estava associado a resultados mais favoráveis, “mas se isso é devido a comer as nozes ou se isso é devido a algum outro comportamento associado a comer nozes, ainda não está claro”.

“No entanto, há um crescente número de evidências mostrando que comer esses frutos e sementes geralmente é bom para saúde, e este é outro estudo apontando na mesma direção”, disse ele ao Medscape.

Não substitui o tratamento

Comentando sobre os dois estudos, o presidente da ASCO, Dr. Daniel F. Hayes, observou que os dados mostram que “existe uma ótima chance de sobrevivência se você tem câncer de cólon, e que as pessoas saudáveis vivem melhor”.

No entanto, ele advertiu que esses resultados não significam que o estilo de vida pode substituir o tratamento, e disse que os pacientes não devem renunciar à conduta padrão no tratamento da própria doença.

“Ninguém quer se submeter a quimioterapia”, disse o Dr. Hayes. “Nós entendemos isso, mas a quimioterapia claramente salva vidas”.

“As pessoas não devem interpretar esses dois resumos como sugestão de que, se você tem um estilo de vida saudável e come nozes, não precisa usar a quimioterapia que seu oncologista recomenda”, acrescentou. “Essa é uma interpretação muito perigosa”.

O estudo de Erin (resumo 10006) foi financiado pelo National Cancer Institute dos National Institutes of Health; o estudo do Dr. Fadelu (resumo 3517) foi financiado pelo National Cancer Institute e por Pfizer. Erin e o Dr. Fadelu não declararam relações financeiras relevantes, embora múltiplos coautores de ambos estudos tenham declarado relações com a indústria. O Dr. Hayes relata possuir ações e receber lucros de propriedade de OncoImmune e InBiomotion; honorários de Lilly; financiamento de pesquisa (institutional) de Janssen, AstraZeneca, Puma Biotechnology, Pfizer, Lilly e Merrimack/Parexel; patentes, royalties e outras propriedades intelectuais com royalties de tecnologia licenciada a Janssen Diagnostics a respeito de células tumorais circulantes; e despesas de viagem, acomodação e gastos recebidos de Janssen Diagnostics.

Encontro Anual da American Society of Clinical Oncology. Resumos 10006 e 3517, apresentados, respectivamente, em 2 de junho e 3 de junho de 2017.

Colonoscopia de seguimento após exame fecal positivo: o momento importa

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Diana Phillips

Postergar uma colonoscopia de seguimento por mais de 10 meses após um exame imunoquímico de fezes pode aumentar o risco do paciente para qualquer câncer colorretal e para câncer de cólon em estágio avançado, segundo um estudo.

Em uma revisão retrospectiva de 70.124 pacientes com idades entre 50 e 75 anos que tiveram resultados positivos no teste imunoquímico de fezes (TIF), a colonoscopia de seguimento realizada mais de 10 meses após o TIF positivo, comparada com um mês ou menos, foi associada com um aumento de quase 50% no risco de diagnóstico de qualquer câncer colorretal. O atraso também foi associado a um aumento de duas vezes no risco de doença em estágio avançado, relatam o Dr. Douglas A. Corley, da Divisão de Pesquisa, Kaiser Permanente Northern California, em Oakland, Califórnia, e colaboradores, em um artigo publicado on-line no JAMA.

Embora pesquisas futuras sejam necessárias para determinar se a relação observada é causal, o risco aumentado com o tempo na população do estudo apoia a necessidade de recomendações de seguimento baseadas em evidências, escrevem os autores.

Para avaliar a associação entre o momento da colonoscopia de seguimento após um TIF positivo e os desfechos do câncer, os pesquisadores revisaram prontuários de membros do Kaiser Permanente Southern California que completaram a triagem pelo TIF entre 1º de janeiro de 2010 e 31 de outubro de 2012, e de membros do Kaiser Permanente Northern California que completaram a triagem pelo TIF entre 1º de janeiro de 2010 e 31 de julho de 2013. Foram incluídos na análise pacientes com resultados positivos para o TIF e sem história de câncer colorretal.

Usando pacientes que receberam uma colonoscopia de seguimento dentro de oito a 30 dias do resultado positivo no TIF como grupo de referência, os pesquisadores compararam os desfechos de câncer para o grupo de pacientes que realizaram colonoscopia de seguimento a partir de dois meses (31 a 60 dias), três meses (61 a 90 dias), quatro a seis meses (91-180 dias), sete a nove meses (181-272 dias), 10-12 meses (273-365 dias), e mais de 12 meses (366-1751 dias) após o resultado positivo no TIF.

Comparado com o grupo de referência, cada intervalo adicional de 30 dias foi associado com um aumento médio no risco de aproximadamente 3% para qualquer câncer colorretal (odds ratio, OR, de 1,03; intervalo de confiança, IC, de 95%, 1,03 – 1,04), e de 5% para doença em estágio avançado (OR de 1,05; IC de 95%, 1,04 – 1,06).

“No entanto, a relação não foi linear ao longo do tempo”, escrevem os autores. Não houve aumento significativo nos desfechos de câncer colorretal entre pacientes que realizaram um exame de seguimento dentro de seis meses, mas houve um risco significativamente maior entre aqueles cujo seguimento ocorreu entre sete e nove meses (OR de 1,88; IC de 95%, 1,09 – 3,23; 15 casos de 1292 pacientes = 12 casos por 1000 pacientes).

Dentre os 748 pacientes na coorte que realizaram uma colonoscopia de seguimento entre 10 e 12 meses, as ORs para qualquer câncer colorretal, doença em estágio avançado, e doença estágio II e estágio IV, respectivamente, comparadas com o grupo de referência, foram de 1,48 (IC de 95%, 1,05 – 2,08), 1,97 (IC de 95%, 1,14 – 3,42), 2,39 (IC de 95%, 1,28 – 4,46) e 2,71 (IC de 95%, 1,06 – 6,89).

“Para exames realizados com mais de 12 meses, o risco foi mais alto para quase todos os desfechos do câncer colorretal”, relatam os autores. O aumento do risco observado nos grupos entre 10 e 12 meses e acima de 12 meses persistiu em múltiplas análises de sensibilidade.

Nesse momento, intervalos de tempo entre um resultado positivo no TIF e a colonoscopia de seguimento variam amplamente na prática, de acordo com os autores. “No estudo atual, quase 75% dos pacientes com um resultado positivo no TIF realizaram uma colonoscopia dentro de 90 dias. Isso requer uma rápida comunicação dos resultados positivos para os pacientes e médicos, acesso suficiente à colonoscopia, agendamento rápido e rastreamento da realização do exame”, escrevem. “No entanto, mesmo com uma das taxas mais elevadas de seguimento rápido relatadas até agora, apenas um terço dos pacientes com um resultado positivo no TIF foi submetido a uma colonoscopia de seguimento dentro de 30 dias”.

Os desafios logísticos associados com o agendamento rápido e a realização dos exames com sedação, junto com a falta de evidências que apoiem as recomendações, têm impedido o desenvolvimento de diretrizes consensuais nos EUA quanto ao intervalo de tempo para a colonoscopia de seguimento após um TIF positivo, declaram os autores.

Em um editorial de acompanhamento, Carolyn M. Rutter, da RAND Corporation, de Santa Monica, Califórnia, e o Dr. John M. Inadomi, da University of Washington School of Medicine, em Seattle, avaliam algumas das limitações do estudo que os próprios autores identificaram no artigo, incluindo o fato dele ser um estudo observacional e a falta de ajuste para a indicação da colonoscopia.

Como os pacientes no estudo atual elegeram quando e se seriam submetidos a uma colonoscopia, a confiança na interpretação dos desfechos depende do grau de controle das análises para variáveis confusoras. Embora os pesquisadores tenham sido capazes de ajustar para muitos confusores potenciais, eles “não foram capazes de ajustar para um importante confusor adicional – a indicação de colonoscopia”, escrevem os editorialistas.

“O problema de não ser capaz de considerar a indicação é que pacientes que desejam evitar a colonoscopia podem atrasar o procedimento até a apresentação dos primeiros sintomas”; assim, aqueles com seguimento tardio pode representar desproporcionalmente pacientes sintomáticos, sugerem os editorialistas.

Apesar das limitações, o estudo atual “fornece uma reafirmação importante para pacientes e médicos”, escrevem os editorialistas. “Os achados indicam que não há necessidade imediata de correr para realizar uma colonoscopia após um resultado positivo no TIF, refletindo o entendimento clínico de que o câncer colorretal é uma doença que geralmente se desenvolve lentamente”.

No que diz respeito ao momento, “as questões clinicamente relevantes incluem a magnitude da redução do benefício e a duração da ‘janela de segurança’ até a colonoscopia com a qual o máximo de benefício é alcançado”, escrevem os editorialistas.

“Para a maioria dos pacientes com um resultado positivo no TIF, é provavelmente melhor a realização precoce da colonoscopia porque o risco de câncer aumenta com o tempo, mas aumenta lentamente. Praticamente, uma razão importante para um intervalo mais curto da colonoscopia de seguimento é a redução do risco de perder contato com os pacientes”.

Esse estudo foi conduzido dentro do consórcio Population-based Research Optimizing Screening Through Personalized Regimens financiado pelo National Cancer Institute. O Dr. Corley relata receber um fundo de apoio da Wyeth/Pfizer. Os autores declararam não possuir conflitos de interesses relevantes. O Dr. Inadomi relata recebimento de fundos da NinePoint Medical. Os editorialistas declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

JAMA. 2017;317(16):1627-628, 1631-1641. Resumo, Trecho do editorial

 

Pesquisa mostra que existem diferenças importante entre o câncer colorretal à direita versus à esquerda

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Zosia Chustecka

 Há uma grande diferença no câncer colorretal quando este ocorre no lado direito em comparação quando ocorre no lado esquerdo, de acordo com uma nova análise de dados de um grande ensaio clínico financiado pelo governo dos Estados Unidos. O estudo também sugere que a posição do tumor primário pode influenciar na escolha do tratamento.

A sobrevida foi significativamente maior nos pacientes com tumores primários originados do lado esquerdo do cólon (cólon descendente, cólon sigmóide e reto) do que nos pacientes com tumores primários originados do lado direito do cólon (ceco e cólon ascendente).

A média de sobrevida global (SG) foi de 19,4 meses para pacientes com tumores do lado direito versus 33,3 meses para os pacientes com tumores do lado esquerdo.

“Embora estudos anteriores tenham sugerido que a localização do tumor pode impactar os desfechos clínicos do câncer colorretal, o efeito que observamos nesta análise parece ser muito maior do que esperávamos”, disse o autor principal do estudo Dr. Alan Venook, professor de medicina da University of California, São Francisco.

“Estes resultados provavelmente mudarão a forma como abordamos o tratamento e a pesquisa do câncer colorretal, ao mesmo tempo em que procuramos compreender mais profundamente sua biologia”, disse ele em um comunicado.

Dr Venook apresentará os novos dados na próxima reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) 2016 . Ele discutiu as descobertas em uma coletiva de imprensa anterior ao evento.

Nova análise de dados

As novas descobertas resultam de uma análise mais aprofundada dos dados do estudo CALGB/ SWOG 80.405 (Alliance), realizado com 1.137 pacientes com câncer colorretal metastático. O estudo comparou o tratamento de primeira linha com dois regimes diferentes de quimioterapia – oxaliplatina, 5-fluorouracil e leucovorina (FOLFOX), e irinotecano, 5-fluorouracil e leucovorina (FOLFIRI) – e dois agentes direcionados, bevacizumabe (Avastin, Genentech, Inc) e cetuximabe (Erbitux, ImClone Systems Incorporated).

Os principais resultados deste ensaio, apresentados na ASCO 2014, mostraram não haver diferença seja na sobrevida livre de progressão (SLP) seja na sobrevida global (SG) entre qualquer um dos braços de tratamento, levando à conclusão de que qualquer um dos regimes quimioterápicos e qualquer agente alvo direcionado poderia ser utilizado como tratamento de primeira linha.

Um seguimento a este estudo, mostrando como a consideração de custos altera a conclusão, foi relatado na ASCO 2015.

Esta nova análise avalia os desfechos dos pacientes com relação onde o câncer original foi encontrado.

O Dr. Venook informou que 293 pacientes tinham tumores primários do lado direito e 732 pacientes tinham tumores primários do lado esquerdo. Outros 66 pacientes tinham tumores transversais; esses pacientes foram excluídos da análise, na medida em que isto não fez diferença para os resultados se eles fossem incluídos seja entre os pacientes com tumores do lado direito ou naqueles com tumores do lado esquerdo, explicou o Dr. Venook. Outros 46 pacientes tinham tumores que foram designados como incertos; estes pacientes também foram excluídos.

Todos os pacientes nesta análise tinham tumores sem um gene com a mutação KRAS, que é um conhecido biomarcador de resposta a determinadas terapias de câncer colorretal, incluindo cetuximabe (na verdade, cetuximabe está aprovado apenas para uso em tais pacientes).

A análise primária mostrou que os pacientes com câncer colorretal com origem no lado esquerdo tiveram melhores desfechos e maior sobrevida do que pacientes com câncer que se originou no lado direito, independentemente do tratamento que receberam.

No entanto, uma análise exploratória mais aprofundada encontrou diferenças que foram relacionadas com o tratamento.

Durante a coletiva de imprensa, o Dr. Venook destacou a constatação de que entre os pacientes que receberam cetuximabe, aqueles com tumores do lado esquerdo tinha uma sobrevida global média de 36 meses versus 16,7 meses para os pacientes com tumores do lado direito.

A magnitude dessa diferença foi “surpreendente para nós”, disse ele. Ele observou que essa sobrevida de 16 meses de pacientes com tumores do lado direito que receberam cetuximabe é “muito diferente” do que foi observado em todos os outros subgrupos. “Isto é claramente um fato estranho”.

A análise exploratória mostrou também que, entre os pacientes que receberam bevacizumabe, a sobrevida global para aqueles com tumores do lado esquerdo foi de 31,4 meses versus 24,2 meses para aqueles com tumores do lado direito.

“Parece que os pacientes com câncer colorretal do lado direito, em termos gerais, não são beneficiados pelo cetuximabe”, disse o Dr. Venook. Ele sugeriu que esta descoberta mudará a prática clínica. “Isso poderia muito bem representar uma mudança”, disse ele. Outros fatores precisam ser levados em consideração, mas por enquanto, esses dados argumentam fortemente contra o uso de cetuximabe e outros anticorpos EGFR em pacientes com câncer colorretal com origem do lado direito, disse ele.

Ele observou que mais trabalhos estão em andamento. Uma análise detalhada está sendo realizada em 44.000 amostras de tumores retiradas de pacientes envolvidos neste ensaio clínico e ele espera que este trabalho mostrará que o “lado de origem do tumor” é um substituto para marcadores biológicos. Ele disse que, por enquanto, “O lado de origem tumoral pode nos ajudar a tomar decisões no contexto de todas as outras informações que reunimos.”

Um co-autor do resumo foi um pouco mais cauteloso. “Estes são dados preliminares e necessitam de confirmação”, comentou o Dr.Richard Schilsky, médico-chefe da ASCO e ex-chefe da Seção de Hematologia-Oncologia da Universidade de Chicago.

Os novos dados sugerem que tumores malignos colorretais do lado esquerdo e do lado direito são tanto biológica quanto anatomicamente diferentes, ele comentou. “Pouco a pouco têm aparecido alguns dados de que essas diferenças podem existir, mas este foi um ensaio bem amplo e é uma evidência mais definitiva para sugerir que estas diferenças são reais e que deveríamos estar prestando atenção às mesmas”, disse ao Medscape.

“Na verdade, a conclusão é que, no futuro, os ensaios clínicos para o câncer de cólon devem estratificar os pacientes pelo ‘lado de origem do tumor’, para que possamos entender melhor esta questão,” o Dr. Schilsky comentou.

“Nós ainda não estamos prontos para tomar decisões de tratamento na prática do mundo real com base nessas informações, mas é muito provocador … dado que os resultados globais mostram que a escolha da terapia alvo direcionada realmente não importa. Esta nova informação sugere que, na verdade, importa sim, dependendo do lado de origem do tumor”, acrescentou.

Outro especialista também pediu cautela ao agir com base nos resultados. O Dr. Julien Taieb, chefe do departamento de gastroenterologia e oncologia gastrointestinal do Georges Pompidou European Hospital, Paris, destacou que as novas descobertas vêm de uma análise post hoc de subgrupos de pacientes, o que, teoricamente, não permite uma conclusão definitiva. “Do ponto de vista científico, agora temos de cumprir os padrões da medicina baseada em evidências com um ensaio clínico controlado randomizado sobre o assunto”, disse ele.

“Eu acho que estes resultados são muito interessantes em um grande ensaio clínico, mas na minha opinião, estes resultados não são suficientes para mudar a nossa prática”, disse o Dr. Taieb aoMedscape.

Além disso, embora essa questão do lado de origem do tumor seja interessante, não é precisa o suficiente na era atual da medicina genética e genômica, comentou, acrescentando: “Agora estamos tentando seguir para as classificações moleculares consensuais internacionais para melhor definir e tratar os diferentes tipos de câncer do cólon. ” Ele observou que já se sabe que os dois locais anatômicos têm concentrações diferentes de alguns marcadores biológicos que podem estar envolvidos na resistência anti-EGFR, incluindo mutações BRAF e RAS.

“No entanto, o lado de origem tumoral continua sendo um fator fácil de identificar, seja por colonoscopia ou em uma tomografia computadorizada, e é algo ‘factível’ em todos os países do mundo, enquanto análises genéticas/genômicas sofisticadas talvez não sejam possíveis”, disse ele .

Ele observou que o ensaio clínico original não encontrou nenhuma diferença entre cetuximabe e bevacizumabe, enquanto dois estudos menores encontraram uma diferença significativa, com melhora da sobrevida global com anti-EGFR em comparação com bevacizumabe em pacientes com doença de tipo agressivo que se submeteram a testes RAS completo (o qual não estava disponível para toda a população do presente ensaio clínico).

American Society of Clinical Oncology (ASCO) 2016 Annual Meeting:  Resumo 3504, a ser apresentado em 5 de junho de 2016.

Este estudo recebeu financiamento de BMS, Genentech, e ImClone iem colaboração com o National Cancer Institute. Dr Venook recebeu verba de Halozyme, Genentech, Roche, Bristol-Myers Squibb, Merck, e Serono e financiamento de pesquisa institucional de Bayer, Onyx, Genentech/Roche, Bristol-Myers Squibb, GlaxoSmithKline, Lilly. Diversos co-autores também declararam relações com indústrias. Dr Taieb recebeu verbas de Roche, Merck, Celgene, AMGEN, Lilly, Sanofi, e Baxalta.