Covid-19 em crianças

#Transmissão da Covid-19 por crianças: o que sabemos até agora?

Postado em

criança desenhando na escola, potencial transmissão de covid-19

O retorno das atividades escolares ou em creches durante a atual pandemia de Covid-19 tem gerado inúmeras discussões sobre os cuidados para com as crianças e os riscos de infecção. Adicionalmente, o papel da criança na transmissão do SARS-CoV-2 tem também acentuado as preocupações e hipóteses sobre as melhores medidas a serem tomadas.

Covid-19 em crianças

As crianças infectadas com o novo coronavírus geralmente apresentam um histórico de exposição familiar ou nas atividades escolares ou recreativas com outras crianças, e transmissão por vias aéreas e trato gastrintestinal, assim como nos adultos.

A maioria dos infectados tem um curso assintomático e há descrição de inúmeros casos falso-negativos em testes moleculares nessa população. As que desenvolvem a Covid-19 clínica, apresentam febre e tosse, poucas apresentam alterações radiológicas significativas, e o prognóstico geralmente é favorável, em contraste com o curso da doença observado em neonatos.

Casos raros, como a descrição de uma nova síndrome inflamatória multissistêmica Kawasaki-like ainda suporta os cuidados necessários frente a doença nessa população. Por outro lado, devido ao carater assintomático a leve/moderado da Covid-19, as crianças consistem em potenciais transmissores da doença para familiares contactantes e outras crianças.

Dentre as diferentes hipóteses para a predominância de quadros leves da doença em crianças, alguns estudos sugerem que:

  • (i) as crianças > 12 meses já começam a desenvolver células T de memória para diversos vírus respiratórios frequentes que podem gerar resposta imune cruzada ao SARS-CoV-2;
  • (ii) as vacinas administradas a curto prazo prévio poderiam favorecer a imunidade para Covid-19;
  • (iii) o sistema imune em crianças ainda está em processo de maturação, em desenvolvimento, o que pode estar relacionado à resposta inflamatória parcial à infecção por SARS-CoV-2 resultando em casos leves (Patel et al., 2020; Zhou et al. 2020).

Transmissão em creches

Como exemplo da dinâmica de transmissão de SARS-CoV-2 a partir de creches, Lopes e cols. (2020) descreveram três surtos ocorridos no condado de Salt Lake, Utah, EUA entre abril a julho de 2020. Os 184 indivíduos, incluindo 110 (60%) crianças, tinham um link epidemiológico com uma das três creches, sendo que 31 apresentaram Covid-19 confirmado por testes moleculares.

Os pacientes pediátricos apresentaram formas assintomáticas ou leves, 12 crianças adquiriram a infecção por SARS-CoV-2 nas instituições. A transmissão pediátrica para adultos foi caracterizada em 12 (26%) dos contactantes não frequentadores da instituição (total de 46 confirmados ou prováveis). Seis desses casos ocorreram em pais e 3 em irmãos. Em uma das creches, uma criança de 8 meses transmitiu o vírus para ambos os pais.

A origem sugerida desses casos nas creches consiste em staff de duas creches que tiveram contato domiciliar com casos prováveis ou confirmados de Covid-19 sintomáticos e foram trabalhar, disseminando para as crianças, e seguindo a cadeia de transmissão. O condado de Salt Lake apresentou 17 creches com pelo menos 2 casos confirmados de COVID-19 no período estudado.

Pacientes com < 16 anos

Posfay-Barbe e cols (2020) avaliaram os casos pediátricos de infecção por SARS-CoV-2 em pacientes < 16 anos no período de março a abril de 2020, registrados na rede de vigilância do Geneva University Hospital, Suíça, e seus contactantes. Dentre os 39 pacientes com a faixa etária citada positivos para SARS-CoV-2, verificou-se que em 79% (31/39) dos casos de doença infantil, os adultos contactantes (pais ou irmãos) eram casos suspeitos ou confirmados de COVID-19 previamente ao aparecimento dos sintomas nas crianças ou adolescentes. Em 8% dos casos (3/39), os pacientes pediátricos apresentaram sintomas anteriores aos adultos contactantes.

 

Na revisão apresentada por Lee & Raszka (2020), os autores defendem a hipótese de que o potencial transmissor de crianças para adultos é pequeno, com poucos casos extradomiciliares, sem evidência de casos secundários nos estudos citados. Sugere-se que devido ao quadro assintomático ou leve na população infantil, os quadros de tosse seriam menos frequentes, com menor disseminação de partículas aéreas.

Adicionalmente, Kuttiatt et al. (2020) relembram que o fechamento prolongado de instituições educacionais infantis reflete em efeitos negativos psicossociais para as crianças, além dos efeitos secundários e econômicos familiares. O desenvolvimento infantil não pode ser substituído definitivamente por plataformas virtuais de ensino ou por períodos longos, considerando especialmente devido à Covid-19 em crianças corresponder a menos de 2% dos casos totais na população.

Conclusões

Mediante tais controvérsias, os consensos internacionais, incluindo aqueles do Centers for Diseases Control and Prevention (CDC, Atlanta, EUA), mantém as recomendações sobre o uso de máscara, lavagem de mãos, limpeza e desinfecção frequente de superfícies, e isolamento em domicílio sempre que possível como adaptações importantes especialmente no manejo de crianças que não usam máscaras.

Os aspectos desses estudos podem ser observados nas referências abaixo.

Autor:

Rafael Duarte

M.D., PhD. ⦁ Médico ⦁ Microbiólogo ⦁ Professor Associado / Lab. Micobactérias, Depto. Microbiologia Médica, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, Centro de Ciências da Saúde – Universidade Federal do Rio de Janeiro

Referências bibliográficas:

  • CDC. Coronavirus disease 2019 (COVID-19): guidance for child care programs that remain open. Atlanta, GA: US Department of Health and Human Services, CDC; 2020. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019- ncov/community/schools-childcare/guidance-for-childcare.html.
  • Kuttiatt VS, Menon RP, Abraham PR, Sharma S. Should Schools Reopen Early or Late? – Transmission Dynamics of COVID-19 in Children. Indian J Pediatr. 2020 Sep;87(9):755-756.
  • Lee B, Raszka WV Jr. COVID-19 Transmission and Children: The Child Is Not to Blame. Pediatrics. 2020;146(2):e2020004879. doi:10.1542/peds.2020-004879
  • Lopez AS, Hill M, Antezano J, et al. Transmission Dynamics of COVID-19 Outbreaks Associated with Child Care Facilities — Salt Lake City, Utah, April–July 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2020;69:1319–1323.
  • Patel NA. Pediatric COVID-19: Systematic review of the literature. Am J Otolaryngol. 2020;41(5):102573. doi:10.1016/j.amjoto.2020.102573.
  • Posfay-Barbe KM, Wagner N, Gauthey M, Moussaoui D, Loevy N, Diana A, L’Huillier AG. COVID-19 in Children and the Dynamics of Infection in Families. Pediatrics. 2020 Aug;146(2):e20201576.
  • Zhou MY, Xie XL, Peng YG, et al. From SARS to COVID-19: What we have learned about children infected with COVID-19. Int J Infect Dis. 2020;96:710-714. doi:10.1016/j.ijid.2020.04.090

#Características epidemiológicas e clínicas da #Covid-19 em crianças

Postado em

Criança se protege durante a pandemia de Covid-19

A doença do novo coronavírus (Covid-19) apresentou manifestações clínicas diversas em uma série de casos de crianças e adolescentes hospitalizados em Nova York, segundo o estudo Epidemiology, clinical features, and disease severity in patients with coronavirus disease 2019 (Covid-19) in a children’s hospital in New York City, New York, de Zachariah e colaboradores, publicado em 03 de junho de 2020, no jornal JAMA Pediatrics. O objetivo desse estudo foi descrever as características epidemiológicas, clínicas e laboratoriais de pacientes com Covid-19 hospitalizados em um hospital infantil e comparar esses parâmetros entre pacientes hospitalizados com e sem doença grave.

 

Estudo sobre Covid-19 em crianças em Nova Iorque

O estudo foi realizado no New York-Presbyterian Morgan Stanley Children’s Hospital, um hospital infantil terciário afiliado a Columbia University Irving Medical Center, hospital infantil afiliado academicamente na cidade de Nova York, estado de Nova York, Estados Unidos. Os pesquisadores realizaram uma revisão retrospectiva de registros médicos eletrônicos. Foram incluídas 50 crianças e adolescentes com idade igual ou inferior a 21 anos, hospitalizados e que foram testados com base na suspeita clínica de Covid-19 entre 1° de março e 15 de abril de 2020, com resultados positivos para o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 – SARS-CoV-2).

Os resultados encontrados foram:

  • 27 pacientes (54%) eram meninos;
  • 25 pacientes (50%) eram hispânicos;
  • A mediana de dias desde o início dos sintomas até a admissão foi de 2 dias [intervalo interquartil (IIQ), 1-5 dias];
  • 40 pacientes (80%) apresentaram febre. 32 (64%), apresentaram sintomas do trato respiratório superior/inferior (como tosse, congestão nasal, dor de garganta e/ou dispneia). 3 pacientes (6%) tiveram somente manifestações clínicas do trato gastrointestinal;
  • As apresentações atípicas incluíram convulsões ou atividade do tipo convulsiva [3 (6%)], odinofagia grave [1 (2%)], perda de olfato [3 ([6%)], pneumotórax recorrente [1 (2%)] e hepatite em um paciente que recebeu um transplante de fígado cujo doador foi considerado com SARS-CoV-2 positivo pós-transplante [1 (2%)];
  • Nenhum dos 14 lactentes e somente 1 de 8 pacientes imunocomprometidos apresentaram doença grave;
  • Dezesseis pacientes (32%) necessitaram de suporte ventilatório. Destes, 9 (18%) necessitaram de ventilação mecânica (VM). Um paciente (2%) evoluiu para óbito;
  • A comorbidade mais prevalente foi a obesidade [11 (22%)]. Outras comorbidades encontradas foram: asma, imunossupressão, doença neurológica, anemia falciforme, cardiopatia, diabetes, síndrome genética e doença respiratória crônica;
  • A obesidade foi significativamente associada à VM em crianças de 2 anos de idade ou mais [6 de 9 (67%) versus 5 de 25 (20%); P = 0,03);
  • A linfopenia foi comumente observada na admissão [36 (72%)], mas não diferiu significativamente entre aqueles com e sem doença grave;
  • Pacientes com doença grave apresentaram proteína C reativa significativamente mais alta (mediana, 8.978 mg/dL versus 0,64 mg/dL) e níveis de procalcitonina (mediana, 0,31 ng/mL versus 0,17 ng/mL) na admissão (P < 0,001), assim como níveis elevados de interleucina 6, ferritina e D-dímero elevados durante a hospitalização;
  • A hidroxicloroquina foi administrada a 15 pacientes (30%), mas não pôde ser completada em 3;
  • A positividade do teste prolongado (máximo de 27 dias) foi observada em 4 pacientes (8%).

Limitações

O estudo apresentou algumas limitações. O hospital atende predominantemente uma comunidade hispânica, portanto, os achados podem não ser generalizáveis para outras populações. A generalização também pode ser limitada pelo pequeno tamanho da amostra. Os pesquisadores descreveram que podem não ter capturado todas as comorbidades ou sinais e sintomas. Além disso, no cenário de ampla transmissão comunitária, a detecção de SARS-CoV-2 também pode ser coincidente com outros diagnósticos e a detecção pode representar uma doença anterior, sintomas leves e/ou infecção assintomática, gerando erros de classificação.

Conclusão

Zachariah e colaboradores concluíram que, à medida que a transmissão comunitária do SARS-CoV-2 continua, os hospitais devem estar atentos às apresentações variáveis da Covid-19, testar livremente, tentar a estratificação de risco precoce das populações e ter protocolos clínicos e de prevenção e controle de infecção bem estabelecidos. Por fim, o tratamento precisa considerar o risco de toxicidade, controle da replicação antiviral e o reconhecimento e o tratamento precoces da desregulação imunológica.

 

Autor(a):

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

  • Zachariah P, et al. Epidemiology, Clinical Features, and Disease Severity in Patients With Coronavirus Disease 2019 (Covid-19) in a Children’s Hospital in New York City, New York. JAMA Pediatrics. 2020. doi:10.1001/jamapediatrics.2020.2430

#Expressão do #receptor ECA-2 no #epitélio nasal e a relação com a #Covid-19 em crianças

Postado em

Um recente editorial publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) abordou a relação entre a idade dos pacientes e os níveis de expressão do receptor da enzima conversora de angiotensina-2 (ECA-2) na mucosa nasal de uma determinada população em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Esse estudo americano, realizado entre 2015 e 2018, envolvendo pacientes com asma, avaliou a expressão gênica global em amostras do epitélio nasal, que é um dos primeiros sítios de infecção pelo vírus. Foi evidenciado que o ECA-2 expresso na superfície celular se liga às proteínas específicas do SARS-CoV-2 e promove a internalização do vírus nas células humanas.

 

ECA-2 e Covid-19

Essa coorte continha cerca de 305 pacientes com idades entre 4 e 60 anos. Crianças mais velhas (10-17 anos), adultos jovens (18-24 anos) e adultos (> 25 anos) apresentaram maior expressão, estatisticamente significativa, de ECA-2 no epitélio nasal em comparação à crianças menores (< 10 anos), e a expressão da ECA-2 foi maior a cada faixa etária subsequente após o ajuste para sexo e asma.

Segundo os autores, menos de 2% da população pediátrica é diagnosticada com a Covid-19, atualmente. Estudos prévios corroboraram que a doença afeta de forma heterogênea a população geral, tendo algumas particularidades de acometimento desproporcional de acordo com a presença de comorbidades. Taxas mais altas de hospitalização e morte também foram observadas na população com menor poder aquisitivo e, mesmo após ajustes das comorbidades, o avançar da idade é um fator associado ao aumento da mortalidade por Covid-19.

No entanto, a menor expressão do receptor ECA-2 na população pediátrica não as isenta de manter, de forma rigorosa, os cuidados para evitar o contágio e a transmissão do vírus, visto que a maior possibilidade de contrair a infecção é em ambiente domiciliar e após o contato com um familiar com diagnóstico ou alta suspeita de infecção.

 

Conclusões

Esse é um bom momento para ensinar as crianças sobre os cuidados necessários para se manterem saudáveis, incluindo na rotina a lavagem das mãos com frequência e de forma adequada sob supervisão, além das orientações sobre evitar o contato com pessoas doentes e sobre a desinfecção de brinquedos, superfícies e áreas comuns da casa.

Garantir informações certas, confiáveis e atualizadas para as famílias, pais e ou cuidadores é um dos pontos de maior esforços para profissionais que lindam com a saúde da criança e do adolescente. Nesse momento de constante mudança e adaptações repentinas, é importante reduzir a possibilidade de estresse tóxico, assegurando às crianças os seus direitos essenciais e o acesso à saúde com equidade.

Autor:

Jôbert Neves

Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) ⦁ Residência Médica em Pediatria Geral e Puericultura pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP) ⦁ Formação em Alimentação Complementar Integrativa e Baby-Led Weaning (BLW) – Instituto BeLive ⦁ Especialização em curso – Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP)

Referência bibliográfica:

  • Patel AB, Verma A. Nasal ACE2 Levels and COVID-19 in Children. JAMA. Published online May 20, 2020. doi:10.1001/jama.2020.8946