Dr. Brawley

Queda drástica das mortes por câncer nos EUA, mas um tipo de câncer segue em alta

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Pam Harrison

 

A taxa de mortalidade de todos os tipos de câncer combinados nos Estados Unidos caiu 25% ao longo dos últimos 25 anos, embora a incidência de câncer e as taxas de mortalidade sejam tipicamente mais elevadas entre os homens e ainda existam disparidades raciais, indica o relatório Cancer Statistics 2017.

No entanto, a incidência de câncer hepático continua a aumentar nos Estados Unidos, como já publicado anteriormente pelo Medscape.

Os índices de morte por câncer atingiram o auge nos Estados Unidos em 1991 e vêm caindo de 1 a 2% ao ano desde então, disse o Dr. Otis Brawley, diretor médico da American Cancer Society em Atlanta, Geórgia, em um clipe de áudio divulgado à imprensa.

“Na verdade, isso equivale a 2,1 milhões de mortes por câncer que não aconteceram ao longo desse período, e essa queda é o resultado da estabilidade da redução do tabagismo, bem como dos avanços na detecção e no tratamento precoce dos casos”, acrescentou.

Este relatório foi publicado on-line em 04 de janeiro no periódico CA: A Cancer Journal for Clinicians.

Rebecca Siegel, diretora de estratégia da American Cancer Society e colaboradores usaram dados de incidência do Surveillance, Epidemiology and End Results Program; do National Program of Cancer Registries; e da North American Association of Central Cancer Registries para projetar o número de novos diagnósticos de câncer que serão feitos em todo o país em 2017.

Ao mesmo tempo, eles usaram estatísticas de mortalidade do National Center for Health Statistics para projetar os índices de mortalidade relacionada ao câncer durante o mesmo ano.

Os pesquisadores estimaram o número de novos tumores invasivos diagnosticados nos Estados Unidos em 2017 em 1.688.780, que significa mais de 4.600 novos diagnósticos de câncer por dia.

“Estima-se que 600.920 americanos morrerão de câncer em 2017”, os pesquisadores acrescentam, “correspondendo a cerca de 1.650 mortes por dia”.

Para as mulheres, os tipos de câncer com maior probabilidade de letalidade serão o de pulmão e brônquios, bem como o câncer de mama e o câncer colorretal.

Para os homens, a causa mais comum de morte por câncer será novamente o câncer de pulmão, dos brônquios e colorretal, bem como o câncer de próstata.

Na verdade, “estes quatro tipos de câncer respondem por 46% de todas as mortes por câncer, com mais de um quarto (26%) decorrentes do câncer de pulmão”, observam os pesquisadores.

Incidência de câncer de pulmão

Curiosamente, a incidência de câncer de pulmão vai continuar a cair quase duas vezes mais rápido entre os homens do que entre as mulheres, refletindo o fato de que as mulheres começaram a fumar mais tarde e em idade mais avançada do que os homens. As mulheres também têm demorado mais a parar de fumar.

O câncer de mama, por sua vez, deverá figurar em aproximadamente 30% de todos os novos diagnósticos de câncer entre as mulheres em 2017, assinalam os pesquisadores.

“Em contraste, os padrões da incidência do câncer colorretal são muito semelhantes entre os homens e as mulheres, com índices de queda de 3% ao ano entre 2004 e 2013”, declaram os pesquisadores.

Acredita-se que as recentes e bruscas quedas da incidência do câncer colorretal decorram do maior rastreamento deste tipo de câncer, e da remoção concomitante de pólipos pré-cancerosos, caso existam. Na verdade, o uso da colonoscopia entre os adultos com 50 anos de idade ou mais aumentou de 21% em 2000 para 60% em 2015.

Em contraste com isso, a incidência do câncer colorretal aumentou cerca de 2% ao ano entre 1993 e 2013, entre as pessoas com menos de 50 anos de idade, faixa etária para a qual a triagem de rotina não é recomendada.

Câncer hepático segue aumentando

O câncer hepático também está aumentando em cerca de 3% ao ano entre as mulheres, e 4% ao ano entre os homens. Como o Dr. Brawley observou, a hepatite C é muito mais prevalente entre os homens do que entre as mulheres.

“Como resultado, temos muito mais casos de câncer hepático”, observou. “Os homens também consomem mais álcool”, acrescentou o Dr. Brawley. “E o álcool, infelizmente, também é um deflagrador do câncer”.

De fato, a incidência global de câncer invasivo é cerca de 20% maior entre os homens do que entre as mulheres, e a mortalidade é aproximadamente 40% maior para os homens. Estes índices mais elevados são, pelo menos em parte, devidos aos maiores índices de câncer hepático entre os homens, que é um tumor maligno de alta letalidade. Os homens também são mais propensos a ter câncer de esôfago, laringe e bexiga, todos também associados a alta letalidade.

A incidência de melanoma também é cerca de 60% maior entre os homens do que entre as mulheres, embora a incidência do melanoma pareça estar diminuindo.

Em relação ao câncer de tireoide, a incidência parece ter estabilizado nos últimos anos, após as diretrizes recomendarem uma abordagem mais conservadora no diagnóstico, como destacam os pesquisadores.

“Durante muito tempo, nós olhamos as diferenças nos índices de câncer entre negros e brancos, e a boa notícia é que ao longo dos últimos anos elas estão diminuindo, tanto entre os homens quanto entre as mulheres”, observou o Dr. Brawley.

Isto se deve em parte ao melhor acesso ao atendimento de saúde para os negros possibilitado pelo Affordable Care Act (lei do governo americano que ampliou o acesso da população ao sistema de saúde), acrescentou.

Por exemplo, “nas últimas três décadas, os índices de sobrevida relativa em cinco anos para todos os tipos de câncer combinados aumentaram 20 pontos percentuais entre os brancos e 24 pontos percentuais entre os negros”, como registram os autores do estudo.

No entanto, a mortalidade relacionada com o câncer ainda foi 15% maior entre os negros do que entre os brancos em 2014. Em 1990, a disparidade racial entre os índices de morte por câncer para os homens negros e os homens brancos era de até 47%.

“Essa diferença diminuiu para 21% em 2014, e a disparidade racial diminuiu de forma semelhante entre as mulheres, de um auge de 20% em 1998 para 13% em 2014”, escrevem os autores.

Baixa sobrevida para o câncer de pulmão e do pâncreas

Nem tudo são boas notícias no front do câncer. Os índices de sobrevida relativa em cinco anos para o câncer de pulmão continuam baixos, de apenas 18%, sendo ainda pior (de 8%) para o câncer de pâncreas. Esta baixa probabilidade de sobrevida reflete o fato de que pelo menos 50% dos pacientes com câncer de pulmão e de pâncreas são diagnosticados em uma fase muito tardia, e pode-se esperar que apenas alguns pacientes com esses tipos de tumor estejam vivos em cinco anos.

Diferenças geográficas na incidência de câncer também ainda persistem, em grande parte devido ao tabagismo. Por exemplo, os índices de câncer de pulmão são mais altoa em Kentucky, onde o número de fumantes permanece alto, e menores em Utah, onde o número de fumantes mantém-se baixo.

Os índices de câncer entre as crianças e os adolescentes também parecem ter estabilizado nos últimos anos. Na verdade, a sobrevida relativa em cinco anos para todos os tipos de câncer combinados nas crianças e nos adolescentes tem melhorado para mais de 80% entre 2006 e 2012, embora os índices de sobrevida variem muito por tipo de câncer e pela idade no momento do diagnóstico, como sinalizam os pesquisadores.

Necessidade de melhorar a prevenção

“As quedas contínuas dos índices de morte por câncer são um sinal poderoso do potencial que temos de reduzir a letalidade da doença”, disse o Dr. Brawley em um comunicado à imprensa, acrescentando que, se houvesse alguma coisa na qual ele poderia se concentrar seria em tentar aumentar os projetos de prevenção do câncer nos Estados Unidos.

“Uma das coisas que realmente não fizemos muito bem nos Estados Unidos foi trabalhar para prevenir o câncer”, disse ele.

“Muito do nosso foco tem sido no sentido de rastrear e tratar o câncer, nós não o fizemos como deveríamos ter feito, mas certamente não fizemos a prevenção como deveríamos. Eu realmente gostaria que puséssemos maior ênfase em orientar as pessoas sobre alimentação e exercícios, destacando a importância de não fumar ou, se já forem fumantes, em ajudá-las a parar de fumar”, acrescentou.