esteatose hepatica

#Doença hepática gordurosa associada a #disfunção metabólica: mudança de terminologia

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Recentemente, um grupo de especialistas de 22 países se reuniram para propor uma nova nomenclatura para doença hepática gordurosa não alcoólica: doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica (Metabolic-dysfunction-associated fatty liver disease — MAFLD — em inglês). O racional da nova definição vem da necessidade de se estabelecer critérios diagnósticos positivos, evitando que uma doença tão prevalente tenha seu diagnóstico baseado em critérios de exclusão. Além disso, visa a evitar a estigmatização associada à terminologia “não alcoólica”, permitir o diagnóstico concomitante de outras patologias hepáticas e aproximar a nomenclatura da fisiopatologia da doença.

 

Novos critérios diagnósticos para doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica

Como era antes? Presença de esteatose em mais de 5% dos hepatócitos na ausência de consumo significativo de álcool ou de outras causas conhecidas de doença hepática.

Como fica? Evidência de acúmulo de gordura no fígado (esteatose hepática) através da análise histológica (biópsia), imagem ou biomarcadores sanguíneos, associado a um dos três critérios abaixo:

  • Sobrepeso ou obesidade;
  • Presença de diabetes tipo 2;
  • Evidência de desregulação metabólica.

Desregulação metabólica é definida por dois ou mais dos critérios listados abaixo:

  • Circunferência abdominal ≥ 102/88 cm em homens/mulheres caucasianos e ≥ 90/80 cm em homens/mulheres asiáticos;
  • Pressão arterial ≥ 130/85 mmHg ou uso de anti-hipertensivo;
  • Triglicérides plasmático ≥ 150 mg/dL (≥ 1,70 mmol/l) ou tratamento medicamentoso específico;
  • Colesterol HDL plasmático < 40 mg/dL (< 1,0 mmol/L) para homem e < 50 mg/dL (< 1,3 mmol/L) para mulher ou tratamento medicamentoso específico;
  • Pré-diabetes [ex: glicemia jejum 100-125 mg/dL (5,6 a 6,9 mmol/L), ou glicemia 2 horas pós-dextrosol 140-199 mg/dL (7,8 a 11,0 mmol) ou HbA1c 5,7% a 6,4% (39–47 mmol/mol)];
  • HOMA escore ≥ 2,5;
  • PCR ultrassensível > 2 mg/L.

A ultrassonografia de abdome permanece como técnica de escolha para detecção de esteatose hepática. No entanto, deve-se destacar a baixa sensibilidade para identificar esteatose menor que 20% e a perda de acurácia em pacientes com índice de massa corporal maior que 40 kg/m2. Métodos alternativos são a elastografia hepática transitória por Fibroscan, a tomografia computadorizada de abdome e a ressonância magnética de abdome.

Extinção do termo esteatohepatite não alcoólica: pela nova terminologia deverá se utilizar de maneira ampla o termo doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica, sem a estratificação dicotômica esteatohepatite ou esteatose simples. Os autores sugerem que seja descrito o grau de atividade inflamatória e a presença de fibrose.

 

Novos critérios diagnósticos para cirrose por doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica

Os autores sugerem que pacientes cirróticos com pouca ou nenhuma esteatose e que preencham os critérios propostos para doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica sejam classificados como portadores de cirrose por doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica, ao invés de cirrose criptogênica.

Critérios diagnósticos:

Paciente portador de cirrose hepática na ausência de sinais histológicos típicos de sugestivos de esteatohepatite, mas que preenchem ambos os critérios abaixo:

  • Evidência prévia ou atual de fatores de risco metabólicos que preencham os critérios diagnósticos de doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica listados acima.
  • Presença de doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica documentada por biópsia hepática prévia ou documentação histórica da presença de esteatose por exame de imagem hepático.

A história de etilismo ou outras doenças hepáticas (hepatite viral, autoimune, etc) não exclui o diagnóstico concomitante de doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica, sendo que nesse caso deve ser considerada a presença de ambos os fatores causais. O racional dessa mudança abarca o aumento do número de casos de doença hepática gordurosa, tornando cada vez mais frequente a presença de outras etiologias em associação.

 

Supressão da terminologia esteatose hepática primária ou secundária

Os autores sugerem que não seja mais utilizado o termo primário ou secundário para descrever a origem da esteatose. A presença de esteatose hepática ocasionada por outras etiologias (ex: medicamento, doença celíaca, nutrição parenteral total, rápida perda de peso após cirurgia bariátrica, doença de Wilson, doenças genéticas do metabolismo) deve ser descrita como esteatose hepática de causa alternativa.

Conclusão

O novo consenso muda diversos conceitos na abordagem do paciente com doença hepática gordurosa, tornando não só o diagnóstico mais amplo e homogêneo, mas também menos estigmatizante. Muda a forma como a doença é percebida, manejada e vivenciada por médicos e pacientes, além de padronizar os critérios diagnósticos.

Figura 1. Fluxograma diagnóstico adaptado de Eslam M, et al. A new definition for metabolic associated fatty liver disease: an international expert consensus statement. J Hepatol. 2020; 73 (1):202-209.

Autor(a):

Guilherme Grossi Cançado

Residência médica em Clínica Médica e Gastroenterologia pelo HC-UFMG ⦁ Mestrado em saúde do adulto com ênfase em Gastroenterologia pela Faculdade de Medicina da UFMG ⦁ Chefe da Gastrohepatologia do Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais ⦁ Preceptor de hepatologia e clínica médica do HC-UFMG ⦁ Conteudista do Whitebook – área de Gastroenterologia e Hepatologia ⦁ Membro da AASLD, SBH, GEDIIB.

Referências bibliográficas:

  • Eslam M, et al. A new definition for metabolic associated fatty liver disease: an international expert consensus statement. J Hepatol. 2020; 73 (1):202-209.
  • Eslam M, et al. MAFLD: a consensus-driven proposed nomenclature for metabolic associated fatty liver disease. Gastroenterology. 2020; 158:1999–2014.
  • Fouad Y, et al. What’s in a name? Renaming ‘NAFLD’ to ‘MAFLD’. Liver Int. 2020;40: 1254–1261.

#Esteatose hepática

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(Esteatose hepática)

Por Steven K. Herrine, MD, Professor of Medicine, Division of Gastroenterology and Hepatology, and Vice Dean for Academic Affairs, Sidney Kimmel Medical College at Thomas Jefferson University

O fígado gorduroso é o acúmulo anormal de determinadas gorduras (triglicerídeos) dentro dos hepatócitos.

  • As pessoas com fígado gorduroso podem se sentir cansadas ou ter um leve desconforto abdominal, caso contrário, podem não apresentar sintomas.

  • Uma biópsia hepática pode ser necessária para confirmar o diagnóstico e para determinar a causa e a extensão da lesão.

  • Os médicos focam no controle ou na eliminação da causa do fígado gorduroso, como síndrome metabólica ou consumo de grandes quantidades de álcool.

Nos Estados Unidos e outros países ocidentais, as causas mais comuns de fígado gorduroso são

  • Consumo de grandes quantidades de álcool

  • Obesidade

  • Toxinas

  • Certos medicamentos

  • Distúrbios metabólicos hereditários

  • Anormalidades metabólicas, como excesso de peso corporal, resistência à insulina (como pode ocorrer no diabetes) e níveis altos de triglicerídeos (um tipo de gordura) no sangue

A combinação de excesso de peso corporal, resistência à insulina e altos níveis de triglicerídeos é denominada síndrome metabólica. Todos esses quadros clínicos provocam o acúmulo de gordura nos hepatócitos, fazendo com que o corpo sintetize mais gordura, ou processando (metabolizando) e excretando a gordura mais lentamente. Como resultado, a gordura se acumula e é, em seguida, armazenada dentro dos hepatócitos. Somente consumir comida muito gordurosa não resulta em fígado gorduroso.

Raramente, a gordura se acumula no fígado durante o final da gestação. Esse distúrbio, denominado fígado gorduroso da gravidez ou esteatose microvesicular, é geralmente considerado um distúrbio diferente do fígado gorduroso.

Você sabia que…

  • Comer alimentos com alto teor de gordura, por si só, não provoca fígado gorduroso.

O fígado gorduroso pode ou não apresentar inflamação. A inflamação do fígado devido a fígado gorduroso é chamada esteato-hepatite. A inflamação pode evoluir para cicatrização (fibrose). A fibrose frequentemente evolui para cirrose (cicatrização que distorce a estrutura do fígado e compromete a sua função).

O fígado gorduroso (com ou sem fibrose), devido a qualquer quadro clínico que não seja o consumo de grandes quantidades de álcool, é denominado doença do fígado gorduroso não alcoólico (DHGNA). A DHGNA se desenvolve mais frequentemente em pessoas com pelo menos um dos componentes da síndrome metabólica:

  • Excesso de peso corporal

  • Resistência à insulina

  • Altos níveis de triglicerídeos

A inflamação do fígado devido a DHGNA é denominada esteato-hepatite não alcoólica (EHNA). Esta inflamação pode evoluir para cicatrização (fibrose) e cirrose.

Sintomas

O fígado gorduroso quase nunca provoca sintomas. Algumas pessoas sentem cansaço ou um desconforto abdominal indefinido. O fígado costuma aumentar e pode ser palpado pelos médicos durante o exame físico.

Diagnóstico

  • Exames de sangue

  • Exames de imagem, como ultrassonografia

  • Às vezes uma biópsia hepática

Se os médicos suspeitarem de fígado gorduroso, eles perguntarão sobre o uso de álcool. Essa informação é crucial. Uso de álcool continuado e excessivo pode provocar lesão hepática grave.

Exames de sangue para detectar as anormalidades hepáticas, como a inflamação, são importantes porque estas podem levar à cirrose. Os exames de sangue adicionais ajudam a excluir outras causas de anormalidades hepáticas, como hepatite viral. A ultrassonografia, a tomografia computadorizada (TC) ou a ressonância magnética (RM) do abdômen podem detectar o excesso de gordura no fígado, mas nem sempre podem determinar se há inflamação ou fibrose ( Exames de diagnóstico por imagem do fígado e da vesícula biliar).

Pode ser necessário fazer uma biópsia hepática para confirmar o diagnóstico. Na biópsia, um médico aplica um anestésico local para diminuir qualquer dor e, em seguida, insere uma agulha oca longa pela pele até o fígado, com o objetivo de obter um pequeno pedaço de tecido hepático para exame sob microscópio. A biópsia pode ajudar a determinar se o fígado gorduroso está presente, se ele foi provocado por álcool ou determinadas causas específicas, e a gravidade da lesão hepática.

Prognóstico

A gordura em excesso no fígado propriamente dita não é necessariamente um problema grave. Por exemplo, se o álcool for a causa, a gordura irá desaparecer, geralmente em seis semanas, quando a pessoa parar de beber. Entretanto, se a causa não for identificada e corrigida, o fígado gorduroso poderá ter graves consequências. Por exemplo, se as pessoas continuam a beber grandes quantidades de álcool ou se um medicamento que provoca fígado gorduroso não for descontinuado, a lesão hepática repetida pode acabar levando à cirrose.

Mulheres com fígado gorduroso da gravidez têm um pior prognóstico.

Tratamento

  • Controle ou eliminação da causa

O tratamento do fígado gorduroso baseia-se no controle ou na eliminação da causa do fígado gorduroso. Por exemplo, as pessoas devem

  • Descontinuar qualquer medicamento que possa estar provocando o fígado gorduroso

  • Perder peso

  • Tomar medidas para controlar a diabetes ou diminuir os níveis de triglicerídeos

  • Parar de ingerir bebidas alcoólicas

A vitamina E e as tiazolidinedionas (como a rosiglitazona ou a pioglitazona, usadas para tratar o diabetes) podem ajudar a tratar o fígado gorduroso não causado pelo álcool.

#Metformina pode se tornar a nova aspirina!

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(Last Updated On: 21/04/2018)

A metformina está em toda parte!

Originalmente, foi introduzida na prática clínica como agente antidiabético de uso oral que não estimula a produção de insulina não tendo por isso ação hipoglicemiante em pessoas sem diabetes. A metformina também está indicada como tratamento coadjuvante da esteatose hepática (gordura no fígado) e não de forma isolada. A perda de peso, o exercício regular e a modificação na composição da dieta parecem melhorar anormalidades bioquímicas e histológicas na esteatose hepática.

A metformina reduz a resistência à insulina, secreção e níveis sanguíneos da glicose, inflamação  e reduz a angiogênese, o crescimento e o metabolismo das células tumorais.

 

Mecanismos de Ação Metformina

O mecanismo de ação principal está na redução da produção hepática de glicose e secundário aumento da captação periférica pelo músculo. Essas ações são mediadas pela ativação da quinase hepática B1 (LKB-1).

• Aumenta AMPK: levando a oxidação (queima)/catabolismo (quebra) de lipídios (gorduras)

• Diminuição da gliconeogênese (produção de glicose a partir  de outras fontes como aminoácidos o que favorece catabolismo muscular)

• Aumento da absorção de glicose no músculo esquelético –  favorece o anabolismo muscular

• Aumenta a sensibilidade à insulina hepática –  melhora a ação da insulina

• Diminui a lipotoxicidade hepática (TOXIDADE HEPATICA CAUSADA PELA  ESTEATOSE)

• Diminui o apetite através de mecanismos centrais  pois tambem sensibiliza a leptina. A resistência a leptina  faz com que fiquemos menos saciados ao comer

Induz mudanças na flora do trato gastrintestinal

 

Mecanismos de ação da metformina

 

Um aumento na população Akkermansia spp. induzida pelo tratamento com metformina melhora a níveis da glicose em camundongos obesos induzidos por dieta.

Evidências recentes indicam que a composição da microbiota intestinal contribui para o desenvolvimento de distúrbios metabólicos afetando a fisiologia e o metabolismo do hospedeiro. A metformina é um dos agentes terapêuticos usados no diabetes tipo 2  mais amplamente prescrito. Tendo em vista esta ação, o objetivo de um trabalho realizado por pesquisadores sul-coreanos foi determinar se este efeito antidiabético da metformina está relacionado a alterações da composição microbiana intestinal.

Os resultados obtidos indicaram que o tratamento com metformina melhorou significativamente o perfil glicêmico dos camundongos já que estes mostraram uma maior abundância da bactéria Akkermansia, A administração oral de Akkermansia muciniphila a camundongos  sem metformina aumentou significativamente a tolerância à glicose e diminuiu inflamação do tecido adiposo

Os pesquisadores concluíram que a modulação da microbiota intestinal (por um aumento na população de Akkermansia spp.) pode contribuir para os efeitos antidiabéticos da metformina, proporcionando assim um novo mecanismo para o efeito terapêutico da metformina em pacientes com DM2. Isso sugere que a manipulação farmacológica da microbiota intestinal em favor de Akkermansia sp. pode ser um tratamento potencial para o T2D.

Fatos sobre a Akkermansia

1- Níveis de Akkermansia são inversamente correlacionados com o IMC.

2- Baixos níveis correlacionados com agravamento da apendicite e doença inflamatória intestinal

3- Os modelos de animais mostram que o aumento da Akkermansia melhora muitos parâmetros dismetabólicos:

  • Aumento da permeabilidade intestinal provocada pela dieta HFD
  • Inflamação sistêmica
  • Armazenamento de gordura (incluindo gordura visceral)
  • Resistência à insulina
  • Hiperglicemia
  • Aumenta a capacidade de queima de calorias do Tecido Adiposo Marrom

Uma boa notícia para os obstetras: A pré-eclâmpsia tem potencial para ser adicionada à lista de usos clínicos da metformina!

Na mulher grávida, a metformina (que tem um peso molecular de 129 Daltons) atravessa facilmente a placenta e pode ser usada no tratamento da diabetes gestacional. Em comparação com a insulina, gestantes que usaram metformina têm menores chances de hipoglicemia nos recém-nascidos, bebês grandes para a idade gestacional e admissões dos recém-nascidos na UTI neonatal. É considerada uma droga segura na gestação e classificada como categoria B (não aumenta o risco de malformações congênitas). Possui alguns efeitos colaterais com seu uso tais como náuseas e diarreia.

Seu papel como agente terapêutico está se expandindo e inclui o tratamento de:

pré-diabetes mellitus

diabetes mellitus gestacional

síndrome dos ovários policísticos

mais recentemente, estudos experimentais e as observações em ensaios clínicos randomizados sugerem que a metformina poderia ter um lugar no tratamento ou prevenção da pré-eclâmpsia.

 

Os mecanismos pelos quais a metformina pode prevenir a pré-eclâmpsia inclui uma redução na produção de fatores antiangiogênicos (fator de crescimento endotelial vascular, receptor-1 e endoglina solúvel, que tem ação anti-angiogênica através do bloqueio da ação vasodilatadora) e a melhora da disfunção endotelial, provavelmente através de um efeito nas mitocôndrias. Outro mecanismo potencial pelo qual a metformina pode desempenhar um papel na prevenção da pré-eclâmpsia é a sua capacidade de modificar homeostase celular e disposição energética, mediada pela rapamicina.

 

Metformina no prolongamento da vida

A metformina, uma droga de primeira linha aprovada pela FDA para o tratamento da diabetes tipo 2, apresenta efeitos benéficos sobre o metabolismo da glicose. A evidência de modelos animais e estudos in vitro sugerem que, além de seus efeitos sobre o metabolismo da glicose, a metformina pode influenciar os processos metabólicos e celulares associados ao desenvolvimento de condições relacionadas à idade, como inflamação, dano oxidativo, autofagia diminuída, senescência celular e apoptose. Como tal, a metformina é de particular interesse na pesquisa clínica no envelhecimento, uma vez que pode influenciar fatores de envelhecimento fundamentais subjacentes a várias condições relacionadas à idade. Os pesquisadores, portanto, propõem um estudo piloto para examinar o efeito do tratamento com metformina sobre a biologia do envelhecimento em seres humanos. Ou seja, se o tratamento com metformina irá restabelecer o perfil de expressão genética de idosos com tolerância à glicose prejudicada (IGT) à de indivíduos jovens saudáveis.

O papel há pouco conhecido de neuroproteção da metformina é muito bem descrito na Doença de Alzheimer: o Diabetes tipo 3. Este tipo de diabetes é caracterizado por disfunção na ação da insulina e resistência insulínica neuronal, que geram aumento de depósito amiloide- fator primordial para a patogênese desta doença. A Metformina, via AMPK, é capaz de reduzir esta resistência insulínica.

 

Metformina na prevenção e controle do câncer

Estudos pré-clínicos sugeriram um efeito antitumoral da metformina, mediado pela inibição do mTOR, que é conhecido por ser efetor de sinalização do fator de crescimento em células malignas, bem como a ativação da proteína quinase ativada por AMP, um sensor de energia que regula uma variedade de funções celulares. Além disso, pode inibir a expressão de ciclina D1(proteína envolvida nas vias de proliferação celular e utilizadas para determinar o prognóstico de neoplasias malignas) e a fosforilação do gene Rb (que o inativa), que juntamente inibem ainda mais o crescimento celular tumoral e promovem a senescência celular. Embora as doses utilizadas nestes estudos pré-clínicos sejam geralmente superiores às utilizadas na prática clínica, estas experiências proporcionaram uma justificação mecanicista do efeito antitumoral da metformina. Os resultados são em grande parte consistentes com meta-análises anteriores com contexto similar, apoiando um efeito redutor geral da metformina sobre o risco de câncer.

 

Metformina usada no tratamento do diabetes é nova arma para o combate ao câncer, afirmam pesquisadores da UNICAMP

Pesquisadores do Laboratório de Oncologia Molecular da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp testaram com sucesso uma nova via bioquímica para o tratamento do câncer. O estudo associou a metformina, o principal medicamento utilizado no tratamento do diabetes tipo 2, ao quimioterápico paclitaxel, droga utilizada em pacientes com câncer de mama e pulmão. Nos estudos realizados in vitro e em cobaias, os pesquisadores conseguiram inibir o crescimento do tumor. Esta associação representa um avanço na terapia-alvo e surge como nova linha de tratamento para os pacientes com câncer.

Isto foi possível devido ao “insight” dos pesquisadores em perceber a lógica bioquímica que existe por trás de ambas as doenças, que têm uma causa comum para cerca de 30% dos casos de câncer registrados no mundo: a obesidade. A pesquisa está sendo publicada na revista norte-americana Clinical Cancer Research.

A estreita relação entre a obesidade e o câncer vem sendo confirmada por meio de estudos, pesquisas e análises em todo o mundo. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) classifica o excesso de peso como o segundo maior fator de risco evitável para a doença. Segundo a União Internacional de Controle do Câncer, obesidade e sedentarismo são os principais fatores de risco para cerca de 30% dos casos da doença. O mecanismo de como isto acontece merece atenção de pesquisadores do mundo todo.

No caso do diabetes, a relação é a mesma. Indivíduos com sobrepeso ou obesidade têm três vezes mais risco de desenvolverem diabetes do que uma pessoa considerada com peso normal. Para o tratamento do diabetes tipo 2, a droga mais utilizada no mundo é a metformina. Ao perceberem que tanto o paclitaxel quanto a metformina atuavam na AMPK isoladamente, tanto na quimioterapia quanto no tratamento do diabetes, os pesquisadores resolveram associar os dois medicamentos para o tratamento do câncer de mama e pulmão. De acordo com os resultados do estudo, a combinação entre metfotmina e paclitaxel tem efeito antitumoral capaz de induzir a interrupção do ciclo celular do tumor cancerígeno.

“A proteína AMPK é um alvo para o tratamento. É isto que sugerimos no artigo. Nós conseguimos parar o crescimento do tumor. Temos fé nesta nova combinação terapêutica”, disse o pesquisador responsável.

 

Avaliação In Vitro do Efeito da Metformina no Tratamento de Câncer de Mama Triplo Negativo

O câncer de mama triplo-negativo (TNBC) configura doença heterogênea e de prognóstico ruim, dentre outras razões, por não ser responsivo às terapias-alvo e pelo elevado índice de relapso da doença apesar da responsividade inicial satisfatória aos antineoplásicos. A combinação de metformina com paclitaxel, atua de forma sinérgica quanto à ação antineoplásica, conforme estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Os dados obtidos pelos pesquisadores da  UFES apontam para sinergismo mútuo entre metformina e paclitaxel. Estes achados evidenciam que, dentre outros possíveis mecanismos, a metformina atua como inibidor indireto de ERK (extracellular-signal-regulated kinase), possivelmente também de mTOR, explicando, portanto, seu uso potencial no tratamento do TNBC, um dos grandes desafios da clínica oncológica.

 

Metformina na síndrome dos ovários policísticos (SOP).

O objetivo de um estudo realizado por cientistas espanhóis e publicado em 2015 na Atherosclerosis, foi avaliar o efeito do tratamento com metformina em parâmetros metabólicos, função endotelial e marcadores inflamatórios em pacientes com síndrome dos ovários policísticos (SOP). A população estudada foi composta por 40 mulheres em idade reprodutiva com SOP, submetidas a tratamento com metformina durante um período de 12 semanas, e seus controles correspondentes (n = 44).

Os pesquisadores verificaram que a metformina produziu efeitos benéficos sobre as pacientes com SOP ao diminuir a inflamação, melhorar parâmetros endócrinos e antropométricos ( medidas do corpo)  em indivíduos com SOP, reduzindo a glicose, o hormônio folículo-estimulante (FSH) E a androstendiona.

Destacam as situações em que a metformina é contra-indicada: em pacientes com cetoacidose diabética ou coma hiperosmolar, falência renal, e condições agudas que possuem potencial para alterar a função renal. A dose de metformina deve ser revista e reduzida em pacientes com TFG de 45 ml/min e suspensa se a TFG for igual ou menor a 30 ml/min devido ao risco de acidose láctica (extremamente raro).

Os efeitos adversos mais comuns da metformina são no aparelho gastrointestinal, mas em geral, são leves e transitórios e melhoram com a titulação da dose e a ingestão concomitante às refeições. Atenção deve ser dada aos níveis de vitamina B12 e ácido fólico, pois pode haver deficiência dos mesmos. Hipoglicemia é incomum.

 

A metformina também pode suprimir os sintomas de abstinência de nicotina

A metformina é uma droga comumente usada e de baixo custo que ajuda a tratar o diabetes tipo 2. Mas pesquisadores da Universidade Johns Hopkins podem ter encontrado um uso alternativo para a droga. Em um estudo conduzido em camundongos, descobriu-se que a metformina também foi capaz de bloquear os sintomas de abstinência de nicotina.

O tabagismo é a principal causa de doenças evitáveis ​​e morte, com mais pessoas morrendo de dependência da nicotina do que qualquer outra causa evitável de morte. Mesmo que a cessação do tabagismo incorra em múltiplos benefícios à saúde, a taxa de abstinência continua baixa com os medicamentos atuais. O tabagismo é responsável por mais de 480.000 mortes por ano nos EUA. Em média, a expectativa de vida de um fumante é dez anos menor do que a de um não-fumante.

Com base em estudos anteriores que exploraram o impacto da nicotina na química do cérebro, os pesquisadores supuseram que a droga poderia eliminar sintomas de abstinência, como ansiedade e irritabilidade. No estudo, os pesquisadores se concentraram em ativar uma enzima conhecida como AMPK, que estimula a quebra de glicose para energia. Foi descoberto que a via da AMPK é ativada em mamíferos após uso crônico de nicotina, mas reprimida durante a retirada da nicotina.

A metformina, que pode estimular a AMPK, foi então usada para verificar se ela poderia reduzir ou eliminar completamente os sintomas de abstinência de nicotina. Se administrados em doses adequadas, os pesquisadores pensaram que o remédio para diabetes poderia tratar os sintomas de abstinência sem o efeito colateral de suprimir a produção de glicose. Os resultados revelaram que os camundongos superaram todos os efeitos negativos da abstinência, como a ansiedade, mas não sofreram nenhuma alteração no peso corporal, no consumo de alimentos ou nos níveis de glicose.

“A eficácia pré-clínica comprovada de metformina em aliviar os sintomas de abstinência, juntamente com o seu perfil de segurança bem estabelecido para o tratamento do diabetes deve incentivar os investigadores para traduzir esses resultados em futuros ensaios clínicos para maiores taxas de abstinência contínua em fumantes”, escreveram os autores. O autor principal do estudo afirmou que a metformina tem “potencial real” para se tornar um instrumento seguro e poderoso para parar de fumar se os ensaios clínicos puderem confirmar as descobertas do estudo com camundongos.

 

REFERÊNCIAS

Metformin, the aspirin of the 21st century: its role in gestational diabetes mellitus, prevention of preeclampsia and cancer, and the promotion of longevity

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0002937817307391

Metformin in Longevity Study (MILES)

https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT02432287

Pharmacologic Therapy of Diabetes and Overall Cancer Risk and Mortality: A Meta-Analysis of 265 Studies

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4467243/

Metformin modulates human leukocyte/endothelial cell interactions and proinflammatory cytokines in polycystic ovary syndrome patients

http://www.atherosclerosis-journal.com/article/S0021-9150(15)30037-X/abstract

Functional Metformin Effects on the Microbiome

Palestra não publicada

An increase in the Akkermansia spp. population induced by metformin treatment improves glucose homeostasis in diet-induced obese mice

http://gut.bmj.com/content/63/5/727.full

Droga usada no tratamento do diabetes é nova arma para o combate ao câncer

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/junho2011/ju498_pag3.php

Sobre a Metformina sempre há o que falar.

http://www.diabetes.org.br/publico/colunas/47-dra-marilia-de-brito/238-sobre-a-metformina-sempre-ha-o-que-falar

Avaliação In Vitro do Efeito da Metformina no Tratamento de Câncer de Mama Triplo Negativo

http://repositorio.ufes.br/handle/10/5745

Diabetes Drug May Also Suppress Nicotine Withdrawal Symptoms

https://www.medicaldaily.com/diabetes-drug-may-also-suppress-nicotine-withdrawal-symptoms-423421?utm_source_bk=engageim

Obesidade: um manifesto para acabar com alguns mitos

Postado em

Dr. Arya M Sharma

 

Durante o ano passado estive envolvido em inúmeras discussões e debates sobre se a obesidade deve ser considerada uma doença crônica (como o tem sido por várias sociedades médicas). Portanto, pensei que poderia ser útil avaliar os argumentos mais comumente apresentados pelos dois lados do debate.

Argumentos contrários a rotular a obesidade como doença

1. O índice de massa corporal não é uma boa medida da saúde.

Este talvez seja o argumento mais comum contra chamar a obesidade de doença, e eu há muito tempo protesto contra o uso do índice de massa corporal (IMC) como definição clínica da obesidade, uma vez que ele não é nem uma medida direta da gordura corporal e tampouco mede diretamente a saúde. Na verdade, a especificidade e a sensibilidade do IMC para identificar problemas de saúde associados à obesidade (como o diabetes tipo 2 ou a hipertensão arterial sistêmica) são tão limitadas que não atenderiam aos critérios comumente aplicados à maioria dos outros exames diagnósticos.

Então, se não for o índice de massa corporal, o que deve ser usado na definição da obesidade?

Dr. Arya M Sharma

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a obesidade como “(…) acúmulo anormal ou excessivo de gordura que pode prejudicar a saúde”.

Não podemos determinar se o acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal compromete a saúde de um indivíduo simplesmente colocando-o em uma balança ou medindo a cintura dele. Isso exige um exame físico e a realização de exames complementares, ao final dos quais o médico deve poder determinar se o paciente tem “obesidade” apenas “gordura”.

Mas as limitações de medidas do IMC não representam um argumento válido contra classificar a obesidade como doença; em vez disso, justificam a busca de uma melhor definição da obesidade na prática clínica. Talvez o diagnóstico da obesidade na prática clínica deva ser mais parecido com o diagnóstico da depressão ou do transtorno de déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH), onde você não tem um ponto de corte numérico, mas sim uma pontuação dos sinais e sintomas clínicos.

2. A relação entre gordura corporal e saúde é inconsistente.

É verdade que as repercussões da gordura corporal na saúde de uma pessoa dependem de uma série de fatores, desde a predisposição genética até o tipo de gordura corporal. Alguns argumentariam que essa variação refuta a relação causal entre a gordura e a saúde.

O impacto direto do acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal é mais evidente quando a quantidade de gordura impede diretamente o bom funcionamento físico. Pode ser mais difícil de compreender a relação entre o acúmulo anormal ou excessivo da gordura corporal e os problemas metabólicos.

É a ilusão da “escolha” e do simplismo da propaganda de “coma menos, mova-se mais” que promove os estereótipos discriminatórios.

No diabetes tipo 2, a relação entre o risco da doença e a gordura visceral é quase linear. Mas este risco é muito aumentado em caso de história familiar de diabetes. Assim, a quantidade de gordura visceral necessária para prejudicar a homeostasia da glicose varia de uma pessoa para outra e depende de outros fatores, inclusive da capacidade de produção de insulina pelas células beta.

Observe que eu disse a gordura “visceral”, em vez de gordura corporal. Isto porque a gordura subcutânea parece ter pouco, se é que tem algum, efeito sobre o risco de diabetes, podendo até mesmo ser protetora.[1] Deste modo, não é a quantidade total de gordura corporal, mas sim a localização e a função biológica que determinam o efeito dela na doença metabólica. Isso pode explicar, em parte, a relação inconsistente entre a gordura corporal e o risco de diabetes.

Mas, no final, a complexidade da relação entre a gordura corporal e a saúde não oferece nenhum argumento contra a definição da obesidade como doença. Na verdade, o risco de muitas doenças pode variar amplamente entre as pessoas (por exemplo, de doença cardíaca ou de depressão) e ainda assim continuamos considerando-as doenças.

3. A obesidade é modificável e evitável.

Esse argumento é verdadeiro para muitas outras doenças que são aceitas como doenças, incluindo o acidente vascular encefálico e a doença cardíaca. A maioria dos acidentes vasculares encefálicos e a grande maioria dos infartos agudos do miocárdio são evitáveis ​​e modificáveis (uma vez ocorridos), bem como o diabetes, a osteoartrite, a doença pulmonar obstrutiva crônica e muitos tipos de câncer.

4. Rotular a obesidade como doença irá prejudicar a prevenção dela.

Em nenhuma outra instância o fato de algo ser considerado “doença” nos impediu de fazer o possível para evitá-lo. Considere as tentativas de prevenir as doenças cardíacas (recomendações nutricionais, exercícios e cessação do tabagismo), as neoplasias (atividade física, alimentação saudável, cessação do tabagismo e exposição à luz solar) ou as doenças infecciosas (imunização, segurança dos alimentos, lavagem das mãos e uso de preservativo).

Na verdade, se alguém abraçar o conceito que considera a obesidade como um problema para a vida toda, para o qual não temos cura – o que é a própria definição de doença crônica – deveríamos redobrar as nossas tentativas de prevenção. Os governos, as organizações e as pessoas devem se empenhar mais em evitar uma doença real que se tornou epidêmica.

5. A classificação como “doença” diminuiria a responsabilidade individual.

Vamos considerar o diabetes tipo 2, outra doença evitável e modificável. Chamar o diabetes de doença não diminui a capacidade das pessoas de prevenir ou alterar o curso dela. E o que dizer da doença cardíaca, da doença pulmonar ou até mesmo do câncer? Nós ainda esperamos que os pacientes ajudem a controlar essas doenças.

Existe até uma expressão – “autocuidado” – para este princípio fundamental do controle das doenças crônicas. Isso engloba a dieta e o exercício, o monitoramento dos sinais e sintomas, a tomada dos medicamentos e o retorno para o acompanhamento médico – tudo uma questão de responsabilidade pessoal, caso alguém queira enxergar assim.

As pessoas que vivem com a obesidade não têm responsabilidade maior ou menor de contribuir para o autocuidado da sua doença do que as pessoas que vivem com hipertensão arterial sistêmica, diabetes, depressão, doenças cardíacas ou câncer. Todos devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance; por que com a obesidade seria diferente?

6. O rótulo de “doença” estigmatiza as pessoas que vivem com a obesidade.

A obesidade já é um quadro altamente estigmatizado, assim como outras doenças, como a depressão e o HIV/Aids. Se recusar a chamar a obesidade de doença não vai ajudar a resolver o problema. Devemos auxiliar as pessoas a compreender a natureza complexa e multifatorial deste distúrbio, e as opções terapêuticas bastante limitadas de que dispomos atualmente.

Na verdade, é a ilusão da “escolha” e da propaganda demasiado simplista “coma menos, mova-se mais” que promove estereótipos discriminatórios e a noção de que as pessoas obesas simplesmente não são inteligentes ou motivadas o bastante para mudarem seus hábitos desleixados.

Por outro lado, reconhecer que a obesidade é uma doença com uma sociopsicofisiologia complexa pode ajudar a por fim ao estigma, como aconteceu com depressão, ao ser reformulada como uma questão de “substâncias químicas no cérebro” (o que, aliás, também se aplica à maioria dos casos de obesidade).

7. O rótulo de “doença” essencialmente medicaliza um comportamento.

O pressuposto subjacente aqui é de que a causa da obesidade é um comportamento, o que pode ser verdade em um nível mais superficial. Sim, comportamentos como comer demais e ser sedentário em demasia podem promover ganho de peso. Mas em nenhum lugar na definição da OMS de obesidade há qualquer menção sobre comportamento.

Muitas pessoas entendem que a relação entre o comportamento e o ganho de peso não é simples.

Não importa o comportamento que você escolher, ele nunca vai explicar todos (ou sequer a maioria dos) casos de obesidade.

Veja a atividade física: embora 95% dos canadenses não correspondam aos critérios mínimos de atividade física diária, apenas 20% deles são obesos.[2] Então, se o comportamento (não se movimentar o suficiente) é uma das causas da obesidade, por que 95% dos canadenses não são obesos?

 

A resposta simples é que, para qualquer nível de atividade física algumas pessoas ganham peso, enquanto outras não. Da mesma forma, algumas pessoas que comem fast food têm obesidade e outras não.

Não importa o comportamento que você escolher, isso nunca vai explicar todos (ou sequer a maioria dos) casos de obesidade; sempre haverá pessoas que adotam esse mesmo comportamento e não se tornam obesas. Na verdade, muitos comportamentos associados à obesidade ou ao ganho de peso são apenas sinais de problemas subjacentes que podem estar relacionados com uma ampla gama de fatores psicológicos, sociais e/ou fisiológicos.

8. O rótulo “doença” promove desamparo e desesperança.

Existem muitas pessoas que vivem com doenças crônicas (por exemplo, diabetes ou hipertensão arterial sistêmica) que estão bem compensadas, se dão muito bem com o tratamento e vivem vidas longas e produtivas.

Nós precisamos de melhores tratamentos para obesidade, mas mesmo atualmente, as pessoas que vivem com a obesidade podem modificar o curso de sua doença (frequentemente com ajuda profissional), identificando e combatendo as causas profundas de seu ganho ponderal (por exemplo, a depressão ou a compulsão alimentar) e por meio da adoção de comportamentos que, mesmo que não resultem em nenhuma perda de peso visível, podem melhorar significativamente a saúde e o bem-estar delas.

Na verdade, o tratamento da obesidade deve mudar para uma estratégia de doença crônica, em vez de alguma intervenção pontual voltada à perda de peso e que costuma ser insustentável.

9. A obesidade é somente um fator de risco de doença, não uma doença em si.

Isso só é verdadeiro ao se considerar (erroneamente) o IMC alto como sendo a definição de obesidade, pois, sem dúvida, as pessoas com índices de massa corporal mais altos apresentam maior risco de complicações relacionadas à obesidade, como o diabetes tipo 2, a apneia do sono, a esteatose hepática e a hipertensão arterial sistêmica.

No entanto, ao usar a definição de obesidade da OMS, ou seja, “acúmulo anormal ou excessivo de gordura que pode prejudicar a saúde” a obesidade torna-se muito mais do que apenas um fator de risco. Por essa definição, alguém com IMC de 35 kg/m2 pode estar em risco de obesidade (mas pode ainda não ter obesidade); somente quando o excesso de gordura começa a prejudicar a saúde é que este quadro se torna uma doença em seu próprio direito.

Ainda assim pode-se argumentar que a obesidade em si não é a doença, mas sim as complicações da obesidade são as verdadeiras doenças.

Esta noção é ao mesmo tempo certa e errada.

Muitas outras doenças são simultaneamente entidades nosológicas e fatores de risco de outras patologias ou complicações. Mais uma vez, tomemos o diabetes tipo 2: este quadro é tanto uma doença quanto um fator de risco de doença coronariana ou doença renal terminal. A hipertensão arterial sistêmica também é uma doença e um fator de risco de infarto agudo do miocárdio e de acidente vascular encefálico. Da mesma forma, a doença do refluxo gastroesofágico também é fator de risco de câncer de esôfago; a esteatose hepática também é fator de risco para cirrose; a colelitíase aumenta o risco de pancreatite. E a lista segue.

Quando o acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal compromete a saúde, trata-se de uma doença. Quando não compromete a saúde, é, na melhor das hipóteses, fator de risco. Esta é, talvez, uma sutil porém importante diferença.

10. A obesidade atinge um número muito grande de pessoas para poder ser caracterizada como doença.

Alguns críticos têm alertado que ao definir a obesidade como doença instantaneamente transforma-se milhões de pessoas em pacientes, sobrecarregando assim o sistema de saúde. Eu ouço de fontes pagadoras e gestores que a oferta de tratamento médico para a obesidade simplesmente não é exequível por conta do número de pessoas que têm este quadro.

Isso não nos impede de considerar o diabetes uma doença, ou a depressão, ou a gripe, que atingem milhões de pessoas.

Na verdade, mesmo se a doença atingir 100% da população, isso não nos coíbe de considerá-la uma doença.

A obesidade já nos custa muito caro. Temos de pagar por todos os problemas de saúde diretamente relacionados com ela, do diabetes à doença cardíaca, das artroplastias às neoplasias. Isso custa bilhões de dólares destinados à saúde, exceto que agora estamos gastando esses dólares com as complicações em vez de prevenir e tratar a obesidade em si.

Argumentos favoráveis a chamar a obesidade de doença

1. A obesidade prejudica a saúde.

De fato, existe uma ampla variedade de formas e tamanhos corporais que são perfeitamente saudáveis e que, portanto, não se caracterizam como obesidade (independentemente do que disser o índice de massa corporal). Por outro lado, mesmo os mais veementes defensores da “aceitação da gordura” teriam grande dificuldade em negar a existência de uma relação direta entre o excesso de gordura corporal e a saúde em muitas pessoas, seja em termos de limitações funcionais ou de complicações clínicas.

Assim, excesso de peso com apneia do sono é obesidade, excesso de peso com diabetes tipo 2 é obesidade, excesso de peso com hipertensão arterial sistêmica é obesidade, excesso de peso com doença do refluxo gastroesofágico é obesidade, e assim por diante.

2. Uma vez instalado, o quadro de obesidade torna-se um problema para a vida toda.

Quando as pessoas têm um acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal que compromete a saúde, não há nenhuma “cura” conhecida. O tratamento eficaz não pode ser interrompido sem o ressurgimento do problema.

A obesidade se comporta como qualquer outra doença crônica: podemos modificar o curso ou mesmo melhorar o quadro com terapia comportamental, tratamento clínico ou cirúrgico; mas quando o tratamento for suspenso, o peso costuma voltar, às vezes com uma vingança.

Um homem me disse recentemente que havia perdido 22 kg em cerca de cinco anos, simplesmente cuidando o que come e mantendo um programa regular de exercícios. Ele dizia que tinha “vencido” a obesidade e se considerava curado.

Eu respondi que eu o considerava em remissão, porque sua fisiologia ainda é a de alguém que convive com a obesidade. Eis como comprovei meu ponto de vista:

Ninguém se “cura” da obesidade.

Imagine se ele e eu tentássemos cada um ganhar 22 kg nas próximas seis semanas; eu teria de enfrentar uma verdadeira batalha, ao passo que ele não teria nenhum problema de recuperar esse peso. Na verdade, se ele simplesmente adotasse meus hábitos alimentares habituais, recuperaria esses 22 kg antes que se desse conta.

O corpo dele está na expectativa de recuperar o peso que perdeu, enquanto a minha fisiologia inicialmente vai dificultar para mim o acréscimo de tanto peso. Isso porque o ponto de ajuste do peso corporal dele ainda é de 22 kg acima do meu, que é o meu peso atual (o mais pesado que eu já estive).

Por já ter pesado 22 kg a mais, a fisiologia dele foi alterada permanentemente.

Hoje, conhecemos bem essa fisiologia. Nós compreendemos o que ocorre quando as pessoas tentam perder peso e o quão árdua é a luta do corpo para resistir à perda e à retomada do peso. É por isso que a obesidade exige tratamento contínuo. Ninguém se cura da obesidade, nem mesmo as pessoas que se submeteram à cirurgia bariátrica; basta reverter a cirurgia que o peso volta.

3. Modificações de estilo de vida têm impacto limitado na obesidade.

A internet está repleta de fotos de “antes e depois” de pessoas que perderam peso por meio de dieta e exercícios, mas, na realidade, o sucesso prolongado da modificação de estilo de vida na obesidade é raro. Mesmo em ensaios clínicos com voluntários altamente motivados e recebendo mais apoio do que qualquer um poderia esperar no atendimento clínico de rotina, a perda de peso média em 12 a 24 meses costuma ser modesta.

Para a maioria das pessoas que vivem com a obesidade a modificação do estilo de vida simplesmente não é eficaz o bastante, pelo menos não como estratégia de longo prazo na vida real.

Embora isso possa ser decepcionante para muitos (especialmente aqueles que têm dedicado suas vidas à promoção de estilos de vida saudáveis ​​como solução contra a obesidade), é semelhante ao que vimos com outras doenças relacionadas com o “estilo de vida”, como o diabetes e a hipertensão arterial sistêmica. Enquanto a alimentação e os exercícios constituem pilares importantes do tratamento dessas doenças, muitos diabéticos e hipertensos ainda assim precisam de tratamento médico.

O mesmo ocorre com a obesidade. Dieta e exercícios continuam a ser a pedra angular do tratamento, mas simplesmente não são eficazes o bastante para controlar a obesidade na maioria dos casos.

4. Classificar obesidade como doença vai melhorar acesso ao atendimento médico.

Infelizmente, poucos sistemas de saúde sentem-se obrigados a oferecer tratamentos para obesidade, e um pequeno número planos de saúde oferece cobertura para estes tratamentos. Embora a cirurgia bariátrica seja o único tratamento de longo prazo baseado em evidências para a obesidade grave, tristemente ainda é sub-realizada.

Os profissionais de saúde também fazem parte do problema. Muitos restringem o próprio papel no controle da obesidade a alertar os pacientes sobre os riscos do excesso de peso. Não consideram que tratar diretamente a obesidade seja função deles.[4]

Isso representa um contraste gritante com a nossa abordagem do diabetes ou da hipertensão arterial sistêmica. A maioria dos médicos concorda que o fato de simplesmente dizer para os pacientes diminuírem seus níveis glicêmicos ou pressóricos dificilmente seria considerado um tratamento adequado. Ajudar os pacientes nessas áreas é parte importante da nossa função profissional.

Mas um colega recentemente me perguntou: “Por que isso deveria ser minha função? Por que eles não podem simplesmente comer menos e se mover mais – o quão difícil pode ser?”

5. Doenças demandam empatia.

A nossa resposta normal às pessoas doentes – incluindo os fumantes com câncer de pulmão e as pessoas com doenças sexualmente transmissíveis – é de pelo menos algum grau de empatia. Mesmo que a doença fosse inteiramente evitável e que o paciente tenha acelerado a evolução dela, quando o diagnóstico de diabetes, ou doença cardíaca, ou acidente vascular encefálico ou câncer for firmado, a resposta social esperada é a empatia, e não apenas da família, dos amigos e colegas

6. O tratamento da obesidade deveria ser ensinado na faculdade de medicina.

Infelizmente aprendemos pouco sobre a obesidade na faculdade de medicina. Todo médico pode dizer de cor e salteado o papel e a função de ADH, ATP, ANP, TSH, bem como uma série de outras substâncias bioquímicas envolvidas no equilíbrio fisiológico e funcional, até as mais obscuras. Mas poucos estudantes de medicina e médicos já ouviram falar de pró-opiomelanocortina ( Pro-OpioMelanoCortin – POMC), hormônio estimulante de melanócitos alfa ( Alpha-Melanocyte-Stimulating-Hormone – alfa-MSH), peptídeo YY ( Peptide YY – PYY), neuropeptídeo relacionado com o gene agouti ( Agouti gene Related neuroPeptide – AgRP), transcrito regulado pela cocaína e pela anfetamina ( Cocaine and Amphetamine-Regulated Transcript – CART), receptor 4 da melanocortina ( MelanoCortine-4 Receptor – MC4R), ou qualquer uma das outras bem estudadas moléculas envolvidas na regulação do apetite.

O ponto é que, ainda hoje, estamos formando médicos que conhecem tanto quanto um leigo a complexa fisiologia da regulação do apetite e da energia, e que carecem de uma sólida compreensão do tratamento clínico da obesidade.[5]

Alçar a obesidade à categoria de doença eliminaria a desculpa das faculdades de medicina para evitar ensinar os alunos a complexa sociopsicofisiologia da obesidade, assim como as complicações, o prognóstico e a terapêutica dessa doença.

Epílogo

Estou claramente convencido que os motivos para classificar a obesidade como doença superam quaisquer argumentos contrários. Dito isto, gostaria de reconhecer que o termo “doença” é uma construção social; que eu saiba, não existe nenhuma definição legal ou científica que o justifique.

Como todas as construções sociais estão sujeitas a modificações, as nossas definições de doença também estão sujeitas a alterações. Doenças que podem um dia já ter sido consideradas características normais do envelhecimento (por exemplo, o diabetes tipo 2 ou a demência) há muito conquistaram o status de doença. Este reconhecimento tem tido um impacto profundo sobre tudo, desde a legislação sobre os direitos humanos até os planos de saúde, em termos da inclusão dessas doenças na formação e na prática da medicina.

As pessoas que vivem com a obesidade não merecem menos do que isso.

Este texto foi adaptado de mensagens no blog Dr. Sharma’s Obesity Notes .

Novas diretrizes dietéticas revertem recomendações falhas sobre o colesterol

Postado em Atualizado em

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Desde a metade do século passado, o colesterol tem sido apontado como um grave perigo para a saúde, e gordura e o colesterol na dieta têm sido retratados como estando entre os alimentos mais mortíferos que você pode comer.

Isso vai finalmente mudar, já que as limitações para o colesterol, provavelmente serão removidas a partir da edição de 2015 da Dietary Guidelines for Americans (Orientações Dietéticas para Americanos).

Já era hora realmente, pois 60 anos de pesquisas fracassaram totalmente em demonstrar uma correlação entre níveis elevados de colesterol e doenças cardíacas.

Não só não danificando, o colesterol natural não causa doença cardíaca, sendo, na verdade, uma das moléculas mais importantes em seu corpo; indispensável para a construção de células e para a produção de hormônios sexuais e do estresse, bem como vitamina D.

O colesterol também é importante para a saúde do cérebro, e contribui com a formação de suas memórias. Baixos níveis de HDL-colesterol têm sido associados a perda de memória e doença de Alzheimer, e pode também aumentar o risco de depressão, acidente vascular cerebral, o comportamento violento, e mesmo o suicídio.

Nova versão das “Orientações Dietéticas para Americanos” pode remover limites de consumo de colesterol.

Uma versão preliminar da edição de 2015 das Orientações Dietéticas para Americanos” criados pelo Comitê Consultivo de Orientações Dietéticas, agora afirma que o colesterol não é mais considerado um nutriente cujo consumo excessivo cause preocupação.

E, de acordo com um relato recente no Washington Post, uma fonte afirma que a nova postura sobre o colesterol permanecerá no relatório final. Como observado pelo jornalista médico Larry Husten: A alteração proposta reflete uma grande mudança na visão científica do colesterol que tem ocorrido nos últimos anos. Embora o colesterol sérico ainda seja considerado um fator de risco importante, o colesterol consumido nos alimentos tem agora um papel relativamente insignificante na determinação dos níveis sanguíneos de colesterol.

Orientações sobre gordura e colesterol nunca deveriam ter sido feitas.

Steve Nissen, presidente da ala de medicina cardiovascular da Clínica Cleveland, disse ao USA Today:  “É a decisão certa. Temos as diretrizes alimentares erradas. Elas estiveram erradas por décadas”. Esta mensagem foi publicada na Time Magazine, que recentemente informou que: “Na mais recente revisão de estudos que investigaram a relação entre gordura dietética e causas de morte, os pesquisadores afirmam que a comissão redatora das “Orientações Dietéticas para Americanos” entendeu tudo errado. Na verdade, as recomendações para reduzir a quantidade de gordura que comemos todos os dias nunca deveriam ter sido feitas “.

Dietas de baixa gordura tiveram uma recuperação real em 1977, mas de acordo com uma pesquisa publicada no Open Heart Journal, coordenada por Zoe Harcombe, PhD, não havia base científica para as recomendações de cortar a gordura de nossa dieta em primeiro lugar.

O que é pior, a indústria de alimentos processados ​​substituiu a gordura por grandes quantidades de açúcar. Enquanto alguns  conservadores se esquivam de fazer qualquer recomendação sobre a quantidade de gordura na dieta que pode ser ideal, eles sugerem  que a mensagem para levar para casa aqui é simplesmente “comer comida de verdade”.

Eu tenho que dizer, é revigorante finalmente ver que a mensagem está sendo repetida nos principais veículos da mídia conforme relatado pela revista Time:

“Quanto menos adulterada e processada ​​ sua dieta é, mais nutrientes e gorduras saudáveis, proteínas e carboidratos seu corpo vai obter e menos você terá que se preocupar em encontrar orientações ou conselhos específicos que podem ou não podem ser baseados em um corpo de evidências robusto. “

Frutose processada afeta o seu corpo como o álcool.

A mania de baixo teor de gordura levou a uma avalanche de novos produtos alimentares processados, prometendo beneficiar tanto a sua cintura quanto seu coração. Infelizmente, isso não se mostrou verdadeiro, tendo em vista que o índice de doenças cardiovasculares e obesidade não param de aumentar.

Quando a gordura foi removida, o açúcar, principalmente na forma de frutose sintética ( HFGS) , foi adicionado em seu lugar e isto levou a um aumento maciço na obesidade, diabetes, doenças cardíacas e doença hepática gordurosa não alcoólica. Como podemos observar, o seu corpo metaboliza frutose, da mesma forma que metaboliza o álcool, criando os mesmos efeitos tóxicos.

Ao contrário da glicose, que pode ser usada por praticamente todas as células do seu corpo, a frutose pode apenas ser metabolizada pelo fígado, porque seu fígado é o único órgão que tem o transportador para ela. Uma vez que quase toda frutose é transportada para o seu fígado e se você fizer uma dieta típica no estilo ocidental, você consumirá quantidades elevadas de frutose, que acaba prejudicando seu fígado da mesma maneira que o álcool e outras toxinas fazem.

Na verdade, quando você compara os resultados de saúde do consumo de frutose contra o consumo de álcool, você vê que as doenças que eles causam são praticamente idênticos:

Consumo crônico de etanol Consumo crônico de frutose
Hipertensão Hipertensão
Cardiomiopatia O infarto do miocárdio
Dislipidemia Dislipidemia
Pancreatite Pancreatite
Obesidade Obesidade
Disfunção hepática (ASH) Disfunção hepática (NASH)
Síndrome alcoólica fetal Resistência à insulina fetal
Vício Habituação, se não o vício

Doença hepática não alcoólica se tornou uma preocupação grave de saúde pública

Dr. Robert Lustig, Professor de Pediatria na Divisão de Endocrinologia da Universidade da Califórnia, foi um pioneiro na decodificação do metabolismo do açúcar e soar o alarme da frutose processada, ​​em particular.

Em um de seus trabalhos, publicado no Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics em 2010, Dr. Lustig descreve três semelhanças entre a frutose e seu subproduto da fermentação, o etanol (álcool):

  1. O metabolismo da frutose no seu fígado é semelhante ao do álcool, pois ambos servem como substratos para a conversão de carboidratos em gordura, que promove a resistência à insulina, dislipidemia (níveis anormais de gordura no sangue) e esteatose hepática.
  2. A frutose submetida a reação de Maillard com proteínas, leva à formação de radicais livres de superóxido que podem resultar em inflamação hepática semelhante a produzida pelo acetaldeído, um metabólito intermediário do etanol.
  3. Por “estimular o ‘caminho hedônico’ do cérebro, direta e indiretamente”, o Dr. Lustig observou que, “a frutose cria habituação e possivelmente, a dependência; também em paralelo com etanol”.

Como relatado recentemente na Scientific American, a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) afeta agora cerca de 25 por cento dos norte-americanos, incluindo 20 por cento estimado em crianças, que nunca ingeriram uma gota de álcool. Casos de DHGNA mesmo têm sido relatados em crianças de três anos de idade. Isto pode soar como uma impossibilidade. Mas você sabia que a maioria das fórmulas infantis contém o equivalente de açúcar de uma lata de Coca-Cola?

O mesmo vale para muitos alimentos para bebês, que podem conter tanto açúcar e gorduras trans prejudiciais como cookies de chocolate ou cheeseburgers. Os bebês são metodicamente “envenenados” com quantias exorbitantes de açúcar refinado e frutose processados, desde o primeiro dia, por isso não é de se admirar que muitos destes jovens lutem contra problemas de peso e doenças associadas. Conforme explicado na Scientific American : DHGNA descreve o acúmulo de gordura em hepatócitos ou células do fígado, em quantidades excessivas. Estas gorduras são tipicamente triglicerídeos, que o corpo naturalmente produz e armazena a partir de calorias que ele não precisa de imediato. Normalmente, essas gorduras são utilizadas para a produção de energia, mas se o corpo está sobrecarregado com calorias e com falta de exercícios, os triglicerídeos simplesmente não são utilizados. Em vez disso eles acumulam-se no fígado e causam esteatose hepática, a qual pode conduzir à inflamação, formação de cicatrizes, disfunção hepática e até mesmo câncer do fígado”.

Uma dieta saudável é fundamental para uma boa saúde, e o passo número um é ignorar o conselho para fazer uma dieta de baixo teor de gordura e colesterol. Outras estratégias que ajudarão a reduzir o seu risco de doença cardíaca incluem o seguinte:

  1. Substituir os alimentos processados ​(que são carregados com açúcar refinado e carboidratos, frutose processada ​​e gordura trans – todos promotores das doenças cardíacas) por alimentos integrais, não processados ​​ou minimamente processados, idealmente orgânicos e/ou produzidos localmente.
  2. Evite carnes e outros produtos de origem animal, como laticínios e ovos provenientes de animais criados em locais de alimentação de animais confinados. Em vez disso, opte por variedades de pasto, alimentados com capim, criados de acordo com os padrões orgânicos.
  3. Elimine alimentos sem gordura e de baixo teor de gordura, e aumente o consumo de gorduras saudáveis. Metade da população sofre com a resistência à insulina e se beneficiarão se consumirem de 50 a 85 por cento de suas calorias diárias a partir de gorduras saturadas saudáveis, tais como abacate, manteiga feita a partir de leite cru de pasto orgânico, leite cru, gemas de ovos orgânicos, cocos e óleo de coco, óleos de nozes orgânicas sem aquecimento, nozes cruas e carne de gado alimentado com capim. Alimentos sem gordura ou de baixo teor de gordura são normalmente alimentos processados ​​ que são ricos em açúcar, o que aumenta suas partículas pequenas e densas de LDL.
  1. Equilibrar a sua relação ômega-3/ômega-6 também é fundamental para a saúde do coração, como esses ácidos graxos ajudam a construir as células em suas artérias que produzem a prostaciclina que mantém o seu sangue fluindo livremente. Deficiência de ômega-3 pode causar ou contribuir para problemas de saúde muito graves, tanto físicos quanto mentais, e pode ser um fator subjacente significativo de até 96 mil mortes prematuras por ano. Para mais informações sobre o ômega-3 e as melhores fontes de gordura presente.
  2. Você também precisa das proporções adequadas de cálcio, magnésio, sódio e potássio, e todos estes são geralmente abundantes em uma dieta alimentar variada. Para obter mais vegetais  e frutas frescas in natura. Se você está com resistência a insulina, gordura abdominal ou simplesmente quer ter  um abdômen com mais definição, não use suco de frutas com alto teor de frutose, mesmo os naturais
  3. Otimize sua saúde intestinal. Comer regularmente alimentos fermentados, tais como vegetais fermentados, vai ajudar a propagar novamente no seu intestino bactérias benéficas que podem desempenhar um papel importante na prevenção de doenças cardíacas e inúmeros outros problemas de saúde.Considere usar um pool de lactobacilos
  4. Pare de fumar e reduza o seu consumo de álcool.
  5. Exercite-se regularmente. O exercício é realmente uma das maneiras mais seguras e eficazes para prevenir e tratar doenças cardíacas. Em 2013, pesquisadores da Harvard e Stanford avaliaram 305 estudos randomizados controlados, concluindo que “não há diferenças estatisticamente detectáveis” entre atividade física e medicamentos para doenças cardíacas. O HIIT (High-intensity interval training), que exige apenas uma fração do tempo em comparação com exercícios cardiocirculatórios convencionais, tem se demonstrado especialmente eficaz.
  6. Preste atenção à sua saúde oral. Há provas convincentes de que liga o estado de seus dentes e gengivas para uma variedade de problemas de saúde, incluindo doenças cardíacas. Em um estudo de 2010, aqueles com a pior higiene oral aumentaram o risco de desenvolver doenças cardíacas em 70 por cento, em comparação com aqueles que escovam os dentes duas vezes por dia.
  7. Evite estatinas, pois os efeitos colaterais destes medicamentos são numerosos, enquanto que os benefícios são discutíveis. Na opinião de alguns especialistas, o único grupo de pessoas que podem se beneficiar de um medicamento para baixar o colesterol são aqueles com hipercolesterolemia familiar genética. Esta é uma condição caracterizada por colesterol anormalmente elevado, que tende a ser resistente à redução com estratégias de estilo de vida, como dieta e exercício.

Para a saúde do coração, concentre-se nos seguintes exames:

  • Indice Homa
  • Insulina de jejum e pós prandial
  • Glicemia de Jejum e pós prandial
  • Fibrinogênio
  • Ferritina
  • LDL oxidado
  • HDL
  • Lipoproteína A

 

Dr. Roberto Franco do Amaral

Referências

The 2015 US Dietary Guidelines: Lifting the Ban on Total Dietary Fat
Dariush Mozaffarian, MD, DrPH1; David S. Ludwig, MD, PhD2
[+] Author Affiliations
JAMA. 2015;313(24):2421-2422. doi:10.1001/jama.2015.5941.

 

A dieta paleolítica no combate a obesidade

Postado em

Dr. Roberto Franco do Amaral Neto

 

Existem muitos mitos acerca da dieta “low carb” ou paleo sobre possíveis malefícios para o sistema renal, ósseo e principalmente, para o fígado. Pesquisando no PUBMED e MEDLINE não se encontra publicado, qualquer artigo que ligue negativamente dietas de baixo consumo de carboidratos ou de alto consumo de proteínas, com doença hepática. Na verdade, encontra-se muitos estudos que demonstram os benefícios do aumento do consumo de proteínas e restrição do consumo de carboidratos no que diz respeito a doenças hepáticas, particularmente à esteatose hepática.

A esteatose hepática, fígado gorduroso ou doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) é uma condição fortemente relacionada à alimentação, síndrome metabólica e diabetes tipo II. Cada vez mais pessoas são afetadas por esta condição, que associa-se fortemente com o risco cardiovascular. Estudos epidemiológicos têm revelado que a DHGNA é um problema de saúde pública, acometendo 20-40% dos indivíduos testados na dependência da prevalência da obesidade na população estudada. Um estudo mais recente, realizado nos Estados Unidos, com 328 pacientes assintomáticos, relatou que 46% dos indivíduos tinham esteatose, 26% eram diabéticos, 68% hipertensos e 70% obesos. No Brasil, estudos de Edison Roberto Parise e Helma Pinchemel Cotrim, utilizando a ultrassonografia (US) como método diagnóstico, encontraram em torno de 20% de esteatose hepática na população geral.

Os diversos estudos, realizados em animais experimentais, nos mostram que o que leva à esteatose hepática é a conversão do excesso de glicose e frutose em triglicerídeos no fígado; se esta conversão exceder a capacidade de depuração, estes se acumulam nos hepatócitos que são as células do fígado.

Os estudos também indicam que quanto menos carboidratos na dieta, menor a chance de desenvolver esteatose e que quanto maior o consumo de proteínas na dieta, menos esteatose e menos disfunção hepática o indivíduo apresentará.

Abaixo, serão apresentados alguns dos estudos que demonstram estes fatos que vão de encontro ao mito de que a dieta low carb ou paleo é prejudicial ao fígado.

Um estudo realizado pelos pesquisadores Okuda e Morita do National Institute of Advanced Industrial Science and Technology (AIST), em Sapporo no Japão e publicado no periódico Nutrition and Diabetes, em 2012, demonstra que uma dieta cetogênica (com grande quantidade de gordura) é capaz de impedir completamente o desenvolvimento de esteatose no fígado de camundongos geneticamente obesos, e que esse efeito é independente da obesidade.

Em outro estudo, realizado por pesquisadores das Universidades de Tokushima e Shizuoka no Japão, publicado no periódico American Journal of Physiology – Endocrinology and Metabolism em 2009, a esteatose hepática foi induzida em ratos, com uma dite rica em sacarose (açúcar refinado). Os ratos com esteatose hepática foram então colocados em duas dietas: uma dieta controle, rica em carboidratos, e outra pobre em carboidratos e rica em proteínas. A dieta low carb com mais proteínas reverteu a esteatose nos roedores, ao contrário da dieta com mais carboidratos, semelhante à pirâmide alimentar atual (ver referências).

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Zhong et al., pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte (EUA) induziram disfunção hepática em ratos associando álcool e óleo de milho em suas dietas. Quando o óleo de milho foi substituído por gordura saturada, o fígado dos animais melhorou. De acordo com os autores, as gorduras poliinsaturadas (óleos extraídos de sementes) são frágeis, oxidam-se facilmente, o que aumentam muito os danos oxidativos. Já as gorduras saturadas, especialmente as de cadeia média (óleo de coco por exemplo), são muito mais estáveis, reduzindo o estresse oxidativo.

Mas não são somente estudos em animais que comprovam estes fatos. Em um estudo Suíço de 2009, com voluntários humanos, uma dieta de alta ingesta de frutose por apenas 7 dias foi capaz de induzir esteatose hepática e deposição de gordura nos músculos, além de resistência à insulina no fígado, especialmente em pessoas com histórico familiar de diabetes.

Em outro estudo, realizado por pesquisadores da Universidade Duke em Durham, EUA, cinco pacientes obesos com esteatose hepática comprovada por biópsia foram colocados em dieta cetogênica por 6 meses. A perda de peso média foi de 12 Kg, variando de zero a 36 Kg. Todos foram novamente submetidos à biópsia após 6 meses. Dos cinco pacientes, quatro (os que perderam peso) mostraram melhora na esteatose, na inflamação hepática e no grau de fibrose do fígado.

Dos estudos citados acima e nas referências, pode-se concluir que uma dieta de baixo consumo de carboidratos e alto de gorduras, com quantidades adequadas de proteínas, composta de alimentos saudáveis, ricos em colina, na qual a gordura seja predominantemente monoinsaturada e saturada, e pobre em óleos se sementes é a melhor estratégia para a profilaxia e tratamento da esteatose hepática.

Referências 

A very low carbohydrate ketogenic diet prevents the progression of hepatic steatosis caused by hyperglycemia in a juvenile obese mouse model.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3506983/

Hypocaloric high-protein diet improves fatty liver and hypertriglyceridemia in sucrose-fed obese rats via two pathways.

http://ajpendo.physiology.org/cgi/doi/10.1152/ajpendo.00014.2009

Dietary fat sources differentially modulate intestinal barrier and hepatic inflammation in alcohol-induced liver injury in rats.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Gastrointestinal+and+liver+physiology%2C+305(12)%2C+pp. G919%E2%80%93932

Fructose overconsumption causes dyslipidemia and ectopic lipid deposition in healthy subjects with and without a family history of type 2 diabetes

http://ajcn.nutrition.org/content/89/6/1760

The effect of a low-carbohydrate, ketogenic diet on nonalcoholic fatty liver disease: a pilot study.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=Digestive+diseases+and+sciences%2C+52(2)%2C+pp.589%E2%80%93593.)

Doença hepática gordurosa não Alcoólica.

http://www.sbhepatologia.org.br/pdf/revista_monotematico_hepato.pdf

Prevention and reversal of hepatic steatosis with a high-protein diet in mice.

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0925443913000409

Role of Choline Deficiency in the Fatty Liver Phenotype of Mice Fed a Low Protein, Very Low Carbohydrate Ketogenic Diet.

http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0074806

Dietary fat sources differentially modulate intestinal barrier and hepatic inflammation in alcohol-induced liver injury in rats.

http://ajpgi.physiology.org/content/305/12/G919

Iatrogenic Hyperammonemia After Anorexia.

http://archinte.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=415679