fibrilação atrial

#Doenças por trás da# fibrilação atrial e #flutter atrial

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médico conferindo eletrocardiograma de paciente com flutter atrial

fibrilação atrial e o flutter atrial são arritmias comuns em pacientes portadores de cardiopatia, muitos buscam a emergência por eventos de taquicardia que geram diversos sintomas. Inicialmente pode-se focar no tratamento da arritmia em questão, mas alguns pacientes apresentam outras doenças que ficam mascaradas por essas arritmias, não recebendo o tratamento adequado ou sofrendo consequências negativas pelo tratamento da arritmia.

Fibrilação e flutter atrial

Pensando nessa questão, um grupo canadense resolveu fazer um estudo retrospectivo de pacientes que deram entrada na emergência com este diagnóstico. O período compreendeu o ano de 2009, os pesquisadores (dois médicos da emergência e dois estudantes de medicina do último ano) eram cegados. Os pacientes eram avaliados de acordo com os registros de ECG e eram selecionados os que apresentavam fibrilação ou flutter atrial e tinha as mais variadas queixas (dispneia, dor torácica, tonteira, síncope).

Foram excluídos os pacientes que apresentavam na admissão parada cardíaca, IAM com supra de ST ou AVC. Também foram excluídos pacientes que passaram por procedimentos cardíacos há menos de sete dias antes do follow up, pacientes referenciados pelo médico assistente e pacientes que procuraram o serviço para ajuste de anticoagulação.

 

O objetivo do estudo era identificar variáveis que pudessem suscitar que o paciente poderia ter uma doença mascarada pelas arritmias, sendo esse o desfecho primário.

Foi proposta a avaliação de uma série de patologias que pudessem ser mascaradas (sepse, pneumonia, insuficiência cardíaca descompensada, valvulopatia, emergência hipertensiva, DPOC descompensado, embolia pulmonar, tireotoxicose). Características do diagnóstico dessas doenças deveriam estar presentes desde a admissão, não sendo consideradas caso surgissem dias depois da entrada no hospital. Foram então propostas diversas possíveis variáveis preditoras para a identificação das doenças.

Resultados

Dos 1083 pacientes do estudo, 400 apresentaram uma doença mascarada pela fibrilação ou flutter atrial. A maioria eram idosos com múltiplas comorbidades. Os principais preditores foram a chegada ao hospital de ambulância, queixa principal de dor no peito, dispneia ou fraqueza e escore CHA2DS2-VASc >2. Essas variáveis apresentaram uma sensibilidade de 93% e uma especificidade de 54% para detecção das doenças.

 

Portanto, pacientes que se apresentem na emergência com essas características devem ser avaliados para outras doenças antes da terapia específica esses tipos de arritmia, caso seja possível. Entretanto, esse estudo apenas suscita variáveis que devem ser testadas em um estudo controlado. Mesmo assim é racional postergar o tratamento da fibrilação ou flutter atrial caso haja suspeita de outra doença aguda sempre que possível.

Autor:

Gabriel Quintino Lopes
Gabriel Quintino Lopes

Sou médico clínico geral e cardiologista, atualmente atuando na área de terapia intensiva, ambulatorial, assistência em enfermaria e coordenação médica. Trabalho no Hospitais Santa Casa em Barra Mansa e na Unidade Cardiointensiva do Hospital São Lucas em Copacabana.

Referência bibliográfica:

  • Scheuermeyer F.X., Barrett T. et al. Decision aid for early identification of acute underlying illness in emergency department patients with atrial fibrillation or flutter. CJEM 2019:1–8

Interromper os novos anticoagulantes orais para ablação da fibrilação atrial pode causar lesões cerebrais assintomáticas detectáveis na RM

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Steve Stiles

VIENA, ÁUSTRIA — Talvez o assunto possa ser resolvido agora: interromper os novos anticoagulantes orais (NACOs) antes dos procedimentos de ablação para fibrilação atrial (FA) não é apenas desnecessário, provavelmente é ruim para o cérebro e deve ser evitado.

Um estudo prospectivo de 410 pacientes consecutivos[1] – com a rara particularidade de realizar ressonância magnética cerebral de rotina, tanto antes quanto após o isolamento da veia pulmonar (IVP) padrão para FA – mostrou uma alta taxa de lesões cerebrais novas, assintomáticas e talvez reversíveis em pacientes que interromperam os NACOs antes do procedimento. Houve, entretanto, menos lesões em pacientes que mantiveram a anticoagulação oral com antagonistas de vitamina K (AVK) durante o procedimento.

Atualmente, o campo ganhou confiança com experiência e conhecimento dos estudos clínicos para manter os pacientes em uso dos NACOs ou AVKs que já estão tomando, mesmo quando a heparina é iniciada para a realização do procedimento de ablação. A nova experiência com uso de RM sugere a magnitude do risco potencial de se retirar a anticoagulação oral para realizar o procedimento.

Pela prática contemporânea, os pacientes que permaneceram em sua terapia prescrita com AVK ao longo do procedimento mostraram uma taxa de 9,6% de lesões cerebrais assintomáticas, em sua maioria pequenas, na ressonância magnética pós-procedimento. Aqueles que anteriormente usavam um NACO, mas interromperam o medicamento um dia antes do procedimento, também por prática padrão na ocasião, apresentaram uma taxa de 17,3% dessas lesões cerebrais (P = 0,049).

A taxa para os pacientes que não interromperam os AVKs é consistente com “números mais antigos” na era pré-NACOs, quando a taxa foi “cerca de 12%”, disse o Dr. Michael Derndorfer (Elisabethinen University Teaching Hospital, em Linz, Áustria) ao Medscape. Ele relatou os novos resultados no encontro da European Heart Rhythm Association (EHRA) EUROPACE-CARDIOSTIM 2017.

Dr. Michael Derndorfer

Quando foram encaminhados para a ablação da FA, os pacientes já estavam em uso de dabigatrana, apixabana ou rivaroxabana, ou dos AVKs fenprocumônio ou acenocoumarol, ambos derivados da cumarina. A edoxabana não estava disponível na Áustria na época, disse o Dr. Derndorfer em entrevista.

Os resultados não dizem que os AVKs devem ser preferidos em relação aos NACOs antes da ablação da FA, enfatizou. Na verdade, eles ressaltam a importância da anticoagulação oral ininterrupta durante todo o procedimento, seja com AVKs ou NACOs.

“A interrupção foi a razão pela qual tivemos tantas a mais”, disse ele, classificando a taxa de lesões cerebrais assintomáticas no grupo NACO como “surpreendentemente” alta.

Em uma entrevista, o Dr. Josep Brugada Terradellas (Universidad de Barcelona, ​​Espanha) pareceu concordar. A coorte foi tratada em um momento no qual era prática usual interromper o NACOs para o procedimento de ablação, “mas agora não fazemos mais isso. Então, a impressionante taxa de 17% de novos eventos localizados no cérebro provavelmente diminuiu dramaticamente”.

A experiência com os NACOs é bastante limitada em pacientes com FA encaminhados para ablação, por isso esses medicamentos eram interrompidos antes do procedimento, por precaução.

“Nós éramos mais cautelosos quanto a prevenir sangramento do que na prevenção de acidente vascular encefálico (AVE), pois a taxa de AVE é muito baixa”, disse o Dr. Terradellas, referindo-se ao AVE clínico. Eventos cerebrais assintomáticos, como os documentados aqui, não estavam no radar.

“Se você não procura por eles, você não os encontra”. Como aconteceu, com o estudo, ele disse: “agora sabemos que não há um grande perigo de sangramento, assim podemos manter o paciente nos NACOs”.

As recentes descobertas de ressonância magnética, de acordo com o Dr. Derndorfer, vão além ao sugerir que qualquer interrupção na anticoagulação oral pode ser uma má ideia. Não há evidência de que as lesões assintomáticas tenham um efeito no longo prazo, disse ele ao ser entrevistado, mas “alguns sugerem que elas podem significar declínio cognitivo no futuro”.

Atualmente, no centro onde atua, os pacientes são rotineiramente submetidos a exame de imagem antes e após a ablação da FA, mas não têm acompanhamento em longo prazo com RM. O seguimento de longo prazo com exame de imagem mostrou anteriormente que as lesões assintomáticas, pelo menos aquelas com dimensões de aproximadamente 5 mm, não são mais visíveis pela ressonância magnética passados três meses. Aquelas que eram maiores que 1 cm persistiram, mas permaneceram assintomáticas, ao menos dentro do que foi possível determinar.

Clinicamente, houve poucas diferenças entre pacientes que receberam AVKs ou NACOs. Cerca de dois terços tinham FA paroxística e um terço FA persistente. Menos de um terço era composto por mulheres, e a duração da FA e os antecedentes de hipertensão, AVE, ataque isquêmico transitório (AIT) e diabetes eram aproximadamente os mesmos nos dois grupos.

Características iniciais e relacionadas ao procedimento, NACOs interrompidos e AVKs contínuos, em pacientes encaminhados para ablação de FA

Parâmetro NACOs, n=96 AVKs, n=314 P
Início do estudo
Fração de ejeção do ventrículo esquerdo (%) 60,8 56,9 <0,0001
Diâmetro do átrio esquerdo (mm) 41,5 39,7 0,01
CHADS2 0,96 0,68 0,006
CHA2DS2-VASc 1,63 1,19 0,003
Procedimento
TTPa alcançado (sec) 301,3 345,1 <0,0001
Tempo de procedimento (min) 179,5 171,9 0,523
Tempo de ablação (min) 37,1 45,3 0,001

AVK = antagonista da vitamina-K
TTPa = tempo de tromboplastina parcial ativado

No entanto, os pacientes no grupo que interrompeu um NACO apresentaram maior risco de AVE, conforme medido pelos escores CHADS2 e CHA2DS2-VASc. E, embora a heparina durante o procedimento tenha sido titulada para um tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPa) de 300 a 400 em todos, por recomendações, o TTPa médio alcançado foi significativamente menor no grupo que interrompeu o NACO.

Na verdade, os preditores aparentes das novas lesões cerebrais assintomáticas incluíram maior diâmetro do átrio esquerdo, maiores pontuações de risco de AVE e talvez um TTPa mais baixo durante o procedimento, de acordo com o Dr. Derndorfer.

“Este é um estudo muito pouco reprodutível, porque eles realizaram ressonância magnética encefálica antes e depois da ablação em cada paciente”, disse o Dr. Terradellas.

“Isso é algo que você pode fazer somente se for um projeto de pesquisa. É tão complexo e oneroso que não é possível fazer isso para cada paciente”.

Mas é “confirmatório”, disse ele. Este estudo foi uma demonstração incomum das consequências potenciais de se interromper a anticoagulação oral, mas a prática clínica evoluiu: os NACOs não são mais interrompidos para os procedimentos de ablação, disse ele. Ensaios clínicos em andamento estão agora analisando o problema e “esperamos que eles mostrem que não se deve interromper os NACOs”.

O Dr. Derndorfer declarou não possuir conflitos de interesses relevantes. O Dr. Terradellas já divulgou relações com Boehringer Ingelheim, Sorin Group, Daiichi Sankyo, Sanofi, Medtronic e Boston Scientific.

Novo estudo contribui para incerteza do uso de betabloqueadores em casos de insuficiência cardíaca com fibrilação atrial

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Patrice Wendling

Uma nova análise post hoc revela que os betabloqueadores reduzem o risco de mortalidade por todas as causas, mas não o risco de hospitalização nos pacientes com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial. [1]

Os resultados contradizem uma controversa meta-análise de 2014 que mostrou não haver benefícios em termos de sobrevida com o uso de betabloqueadores para os pacientes com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial, e recomendou que estes não sejam mais utilizados como um dos pilares terapêuticos para este subgrupo pacientes com insuficiência cardíaca.

“O importante é que o nosso estudo reforça a noção de que ainda é cedo para descartar completamente os potenciais benefícios dos betabloqueadores nos pacientes com fibrilação atrial e insuficiência cardíaca, com base nessa única meta-análise”, disse o pesquisador sênior Dr. Paul Khairy (Montreal Heart Institute, Quebec) para o Medscape.

Ele disse ainda; “acho que as pessoas lutaram contra esses resultados, não tanto por causa do desenho do estudo, mas porque a fisiologia que ampara esta hipótese é fraca. É difícil entender por quê, do ponto de vista fisiopatológico, os betabloqueadores não teriam bons resultados na sobrevida de pacientes com fibrilação atrial”.

“Eu não acho que os dois estudos sejam comparáveis”, afirmou o Dr. Dipak Kotecha (University of Birmingham, Reino Unido), pesquisador responsável pela meta-análise, em comentário para o Medscape.

Ele observou que a meta-análise se fundamentou em dados individuais de pacientes de ensaios controlados randomizados, enquanto o novo estudo é uma análise post hoc baseada em “dados essencialmente observacionais” do estudo  Atrial Fibrillation-Congestive Heart Failure (AF-CHF), no qual os pacientes foram randomizados para controlar a fibrilação atrial pela frequência cardíaca (velocidade) vs. controle do ritmo, mas não para os betabloqueadores em si. Em um esforço para parear os dois grupos, ele também se baseou nos escores de propensão por pareamento, uma técnica de ajuste importuna ao analisar os desfechos terapêuticos.

“Ele acrescentou: “Como a medicina é uma profissão de cunho científico, precisamos voltar ao que aprendemos na faculdade, que foi que o ensaio clínico randomizado é sagrado e todos esses tipos de análises são geradoras de hipóteses”, acrescentou.

Coorte Atrial Fibrillation-Congestive Heart Failure

Para a análise post-hoc, os pesquisadores, liderados pela Dra. Julia Cadrin-Tourigny (Montreal Heart Institute), analisaram dados de 1.376 pacientes (média de idade: 70 anos; 81% do sexo masculino) randomizados no ensaio clínico Atrial Fibrillation-Congestive Heart Failure. No total, 291 pacientes não recebiam betabloqueadores no início do estudo, desses, 229 foram avaliados por escores de pareamento por propensão a um máximo de dois pacientes expostos (n = 426), usando 28 variáveis iniciais.

Durante uma mediana de 37 meses de acompanhamento os betabloqueadores foram associados a uma redução de 28% da mortalidade por todas as causas, mas não reduziram a mortalidade cardiovascular nem as internações hospitalares nas coortes pareadas por propensão. Os modelos de análises de sensibilidade que usaram os betabloqueadores como covariável dependente do tempo confirmaram os resultados (mortalidade por todas as causas hazard ratio 0,668; IC de 95% de 0,511 a 0,874; P = 0,0032).

Desfechos nas coortes pareadas por propensão

Desfecho

Sem betabloqueadores (n = 229)

Betabloqueadores (n = 426)

Hazard Ratio (intervalo de confiança de 95%)

P

Todas as causas de morte

41,5%

31,2%

0,721 (0,549 a 0,945)

0,018

Mortalidade cardiovascular

31,4%

25,6%

0,763 (0,562 a 1,037)

0,083

Internação por todas as causas

65,4%

63,6%

0,886 (0,715 a 1,100)

0,273

Internação cardiovascular

52,2%

51,5%

0,914 (0,721 a 1,158)

0,455

Internação por piora da insuficiência cardíaca

27,1%

24,7%

0,894 (0,659 a 1,214)

0,474

A ausência de benefícios dos betabloqueadores na incidência das internações hospitalares provavelmente foi influenciada pelo protocolo do ensaio Atrial Fibrillation-Congestive Heart Failure, no qual foram realizadas tentativas agressivas de manter os pacientes com um ritmo cardíaco normal quando randomizados para o controle do ritmo, segundo Dr. Khairy.

Dr. Kotecha ofereceu uma explicação alternativa: “Talvez eles não tenham identificado essa consistência nos resultados porque tudo se deve à confusão sobre a mortalidade”.

Dr. Khairy e colaboradores tentaram conciliar as conclusões gerais com as da meta-análise, teorizando que talvez Dr. Kotecha tenha identificado um subgrupo de pacientes com uma forma mais permanente de fibrilação atrial, usando apenas o eletrocardiograma (ECG) feito ao início do estudo como referência, que se tornou uma crítica recorrente da análise.

“Pensávamos que os pacientes com menos fibrilação atrial teriam mais benefícios dos betabloqueadores e aqueles com mais fibrilação atrial se assemelhariam à população do estudo do Dr. Kotecha, e teriam menos benefícios, mas isto não foi, de fato, o que encontramos. Mesmo entre aqueles com maior nível de fibrilação atrial houve forte redução da mortalidade”, afirmou Dr. Khairy.

Fatores de confusão

O Dr. Dhiraj Gupta (Liverpool Heart and Chest Hospital, Reino Unido), que não participou de nenhum dos estudos, declarou ao Medscape:

“Vamos esclarecer o seguinte: o estudo é falho, assim como a meta-análise. Este estudo é falho pela simples razão de que, no início, os pacientes que não estavam recebendo betabloqueadores ao iniciar o estudo foram os que tiveramos piores prognósticos em vários aspectos”.

Por exemplo, eles tiveram menores índices de anticoagulação oral e complexos QRS mais alargados, sendo que ambos são fortes preditores de mortalidade. Além disso, 20% dos pacientes não estavam recebendo betabloqueadores por intolerância (presumivelmente por hipotensão) e a causa mais importante de hipotensão nesses pacientes costuma ser a precariedade das frações de ejeção deles.

Para ser justo, o Dr. Gupta observou que os pesquisadores reconhecem as diferenças iniciais entre os pacientes recebendo ou não betabloqueadores, e tentaram abordar a questão por meio do pareamento por propensão, mas “por mais pareamento por propensão que se faça, é provável que você acabe com uma população mais doente do que a que está usando para fazer a correspondência “.

Influência na prática clínica

Em relação a como a discordância dos resultados deixa os médicos em atividade, Dr. Gupta disse que, assim como em muitos casos, é preciso ter mais dados.  Ele observou que, apesar do controverso artigo do Dr. Kotecha ter sido publicado em um periódico de grande alcance “felizmente a prática clínica continuou sendo mais ou menos a mesma, pelo fato de as diretrizes de insuficiência cardíaca terem permanecido inalteradas”. Os betabloqueadores ainda são o cerne do tratamento da insuficiência cardíaca, e as orientações não diferenciam os pacientes com ou sem fibrilação atrial.

No entanto, o que ele disse ter notado desde a publicação do estudo do Dr. Kotecha e do estudo PARADIGM-Heart Failure , no qual a administração de sacubitril associado a valsartana mostrou um enorme benefício de sobrevivência, é que muitos médicos estão começando a suspender os betabloqueadores e a, talvez, administrar valsartana em lugar deles, quando os pacientes apresentam pressão arterial limítrofe e fibrilação atrial.

“Me preocupo que esta seja uma área virgem, ainda sem levantamento de evidências, porque a valsartana no estudo PARADIGM foi muito pesquisada como adicional aos betabloqueadores; 93% dos pacientes no estudo recebiam betabloqueadores. Então não sabemos se este medicamento irá funcionar igualmente bem em substituição aos betabloqueadores”, acrescentou.

Os Drs. Jonathan Piccini (Duke University Medical Center, Durham, NC) e Larry A Allen (University of Colorado School of Medicine, Aurora) liberaram uma nota semelhante a respeito da prática em um editorial [2] acompanhando o estudo, na qual escreveram: “Até que haja mais dados, os médicos devem resistir a abandonar uma terapia comprovada para insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida em pacientes que também têm fibrilação atrial. Não deem adeus aos betabloqueadores ainda”.

Eles sugerem que uma melhor fenotipagem e farmacogenética podem ter algum papel na adaptação terapêutica dos pacientes com insuficiência cardíaca e observam, por exemplo, que o bucindolol demonstrou reduzir o risco de aparecimento da fibrilação atrial em 74% dos pacientes com insuficiência cardíaca com o genótipo ß1389Arg/Arg, mas não fez nada para reduzir o risco dos portadores da ß1389Gly.

Dr. Kotecha afirmou que seu grupo está apenas começando a recrutar pacientes com fibrilação atrial de toda Birmingham para o estudo randomizado RATE-AF, que irá comparar bisoprolol digoxina como terapia inicial de controle da frequência cardíaca. A conclusão primária do estudo-piloto está programada para julho de 2018.

O estudo Atrial Fibrillation-Congestive Heart Failure foi financiado pelos Canadian Institutes of Health Research. Dr. Khairy e Dra. Cadrin-Tourigny declararam não possuirem conflitos de interesse relevantes ao tema. Declarações dos coautores estão listadas no artigo. Dr. Kotecha é apoiado pelo National Institute of Health Research; recebeu o apoio ao desenvolvimento profissional não financeiro da Daiichi Sankyo e bolsas de pesquisa da Menarini; e trabalhou na European Society of Cardiology Guideline Task Force. O Dr. Gupta declarou não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema. O Dr. Piccini informou concessão de financiamento para pesquisa clínica das empresas ARCA Biopharma, Boston Scientific, Gilead, Janssen Pharmaceuticals, ResMed, Spectranetics e St Jude Medical; e prestar consultoria para as empresas Allergan, Amgen, GlaxoSmithKline, Johnson & Johnson, Medtronic e Spectranetics. Allen tem prestado consultoria para Janssen, ZS Pharma, e Novartis.

Abuso de álcool aumenta o risco de infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca e fibrilação atrial em um grande estudo de coorte

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Marlene Busko

Em uma grande coorte de pacientes na Califórnia, aqueles que abusavam de álcool tiveram risco aumentado de fibrilação atrial (FA), infarto agudo do miocárdio (IAM) e insuficiência cardíaca congestiva (ICC), e o risco adicional foi semelhante ao dos fatores de risco tradicionais, como o diabetes tipo 2.[1] Além disso, pacientes sem os fatores de risco tradicionais que consumiram álcool em excesso tiveram probabilidade desproporcionalmente maior de ter esses três desfechos cardíacos.

Os resultados do estudo feito pelo Dr. Isaac R Whitman (University of California, San Francisco) e colaboradores foram publicados na edição de 3 de janeiro de 2017 do Journal of the American College of Cardiology.

O abuso de álcool “foi determinado pelo profissional de saúde usando códigos da CID-9 que descreviam ou inebriação aguda ou evidência de vício ou dependência crônica”, disse ao Medscape o autor sênior Gregory M. Marcus (University of California, San Francisco).

Os resultados sugerem que “o abuso de álcool deve ser considerado como um fator de risco para doença cardiovascular”, e “não devemos encorajar nossos pacientes a beberem, na esperança de que isso possa reduzir o risco de um evento cardíaco”, afirmou ele.

Este estudo mostrou que “o abuso de álcool é um poderoso fator de risco cardíaco, um dos mais fortes para a FA e pelo menos equivalente a fatores de risco estabelecidos para IAM e ICC”, concordam os Drs. Michael H. Criqui e Isac C. Thomas (University of California, San Diego, La Jolla, CA) em um editorial de acompanhamento.[2]

“A recente admiração pelos potenciais benefícios do consumo leve a moderado para a proteção de DCV parece estar baseada em dados observacionais e que apresentam confusores sutis, em vez de evidências de ensaios clínicos, e talvez em um pouco a mais de ilusão”, advertem.

“Temos de ser muito cuidadosos na interpretação de todos esses dados – concordou Dr. Marcus. “Levando em consideração a evidência disponível, não é insensato beber de forma leve ou com moderada, pois pode ajudar a prevenir IAM, mas há evidência de que mesmo beber moderadamente aumenta o risco de FA”.

Álcool em excesso, um fator de risco CV modificável

Até o momento, nenhum estudo com poder suficiente avaliou de forma rigorosa a associação entre abuso de álcool e IAM, ICC e FA, escreveram o Dr. Whitman e colaboradores.

Eles fizeram esta pesquisa em um banco de dados de 14.727.591 pacientes submetidos a cirurgia ambulatorial, consultas de emergência ou internação na Califórnia, de 2005 a 2009, e que tinham dados de acompanhamento até 31 de dezembro de 2009. Os profissionais de saúde haviam identificado que 268.084 dos pacientes (1,8%) abusavam do álcool.

Risco de desfechos cardíacos com abuso de álcool em relação a ausência de abuso de álcool*

Desfecho HR (IC de 95%) P
FA 2,14 (2,08–2,19) < 0,0001
IAM 1,45 (1,40–1,51) < 0,0001
ICC 2,34 (2,29–2,39) < 0,0001

*Ajustado para idade, sexo, raça, hipertensão, diabetes, doença arterial coronariana (para os desfechos FA e ICC), insuficiência cardíaca congestiva (para os desfechos FA e IAM), doença renal crônica, doença valvar cardíaca (para FA e ICC), dislipidemia, obesidade, apneia obstrutiva do sono, tabagismo e renda

Hipertensão e insuficiência cardíaca congestivs foram, de longe, os riscos mais importantes para cada desfecho, mas o risco de abuso de álcool foi semelhante ao de fatores de risco bem estabelecidos, teoricamente modificáveis, escrevem o Dr. Whitman e colaboradores.

Eles estimam que a erradicação completa do abuso de álcool resultaria em mais de 73.000 casos a menos de fibrilação atrial, 34.000 IAMs a menos, e 91.000 menos pacientes com ICC nos EUA.

Limitações do estudo incluem falta de informações sobre o quanto de álcool os pacientes bebiam, o que os impediu de determinar o quanto é prejudicial, admitem os pesquisadores.

No entanto, este banco de dados identificou “muito precisa e especificamente” os pacientes que tinham abuso de álcool reconhecido e documentado – que poderiam ser alvo de uma possível intervenção, acrescentam eles.

“O achado de que o abuso de álcool foi associado a maior risco de IAM foi bastante surpreendente”, disse o Dr. Marcus, “uma vez que dados anteriores mostravam que o álcool parecia proteger contra o IAM. No entanto, isso provavelmente demonstra que mais não é necessariamente melhor”.

Anteriormente, os pesquisadores haviam mostrado que as pessoas que acreditam que o álcool é saudável tendem a beber mais, observou ele, “então a esperança é de que essa evidência possa inibir tal justificativa, certamente quanto ao consumo de álcool além do moderado.

“Eu tenderia a não aprovar mais de uma dose de bebida alcoólica ao dia para uma mulher e duas doses para um homem”, disse ele.

Também é importante observar que, até agora, os estudos sobre o consumo de álcool e doenças cardiovasculares foram todos observacionais, de forma que a evidência não é tão convincente quanto a de um estudo randomizado. “Nós já fomos enganados antes – pelo estrogênio, por exemplo, onde parecia que o estrogênio realmente protegia contra eventos cardíacos, mas os ensaios randomizados sugeriram que ele pode, na verdade, aumentar o risco”, advertiu o Dr. Marcus.

“Então, onde estamos agora em relação ao consumo de álcool e doenças cardíacas?” perguntam, retoricamente os Dr. Criqui e Thomas. “O álcool é uma droga potencialmente viciante e perigosa, tanto para o sistema cardiovascular quanto para vários outros sistemas orgânicos”, advertem.

“Em conjunto, esses dados demonstram que o álcool em excesso não deve ser considerado cardioprotetor, mas sim cardiotóxico, contribuindo para o aumento do risco dos três principais, e distintos, desfechos cardíacos adversos” resumem o Dr. Whitman e colaboradores.

O estudo foi financiado por doações do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism dos National Institutes of Health. Os autores e editorialistas declararam não possuir conflitos de interesse relevantes.