Marcel Bonn-Miller

Cannabis diretamente associada a recorrência de psicose

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Megan Brooks

Nova pesquisa mostra que continuar a fumar cannabis após um primeiro episódio de psicose está associado causalmente a um risco aumentado de recorrência da psicose.

Pesquisadores do Kings College London, no Reino Unido, observam: os resultados do estudo indicam que o consumo de cannabis é um “fator de modificação de risco para recorrência, sugerindo que a interrupção do consumo de cannabis após o início da psicose pode ajudar na redução do risco de recaída”.

“Embora tenha sido proposto que um risco genético comum ou causalidade reversa podem estar subjacentes à associação entre o consumo de cannabis continuado e a recorrência, nossos resultados indicam que a mudança do consumo de cannabis representa um fator de risco robusto para a recorrência em pacientes”, escrevem os pesquisadores, liderados pelo Dr. Sagnik Bhattacharyya,.

Os resultados foram publicados online em 28 de setembro no JAMA Psychiatry.

Fatores de risco modificáveis

O consumo de cannabis está associado a desfechos ruins para pacientes com primeiro episódio de psicose, mas a natureza causal dessa associação é incerta, observam os pesquisadores.

Para este novo estudo, eles usaram um projeto quasi-experimental para investigar a natureza causal da associação entre o uso continuado de cannabis e o risco de recorrência da psicose. Eles empregaram modelos longitudinais (análise de efeitos fixos, análise cross-lagged) para determinar se a associação entre as alterações do consumo de cannabis e risco de recorrência ao longo do tempo deriva de vulnerabilidade compartilhada entre a psicose e uso de cannabis, psicose aumentando o risco de uso de cannabis (causalidade reversa) ou um efeito causal do consumo decannabis na recorrência de psicose.

Os participantes incluíram 90 mulheres e 130 homens (média de idade de 29 anos), que foram acompanhados por pelo menos dois anos após o primeiro episódio de psicose.

De acordo com os pesquisadores, a taxa de recorrência foi maior para os indivíduos que consumiram cannabis continuamente após o primeiro episódio de psicose (59,1%), e foi menor para aqueles que não continuaram o uso (28,5%). Entre os usuários ocasionais, a taxa de recaída foi de 36,0%.

Em modelos de efeitos fixos que controlaram para fatores tempo-variantes, como uso de outras drogas ilícitas e uso de antipsicóticos, bem como genética e ambiente, o risco de recorrência de psicose foi 13% maior durante os períodos de consumo de cannabis em relação aos períodos em que não havia consumo (odds ratio, 1,13; IC de 95%, 1,03-1,24).

Também houve uma relação dose-resposta: uma mudança de 1 unidade no padrão de consumo de cannabis, o que significa maior regularidade de uso ao longo do tempo (de uso intermitente para uso continuado), foi correlacionada com uma probabilidade de risco de recorrência aumentada (odds ratio, 1,10; IC de 95%, 1,05-1,15).

A análise cross-lagged confirmou que esta associação refletiu um efeito do consumo de cannabis no risco subsequente de recorrência ao invés de um efeito da própria recaída no consumo subsequente de cannabis.

“Embora tenha sido proposto que um risco genético comum ou causalidade reversa podem estar subjacentes à associação entre o consumo de cannabis continuado e recorrência, nossos resultados indicam que a mudança do consumo de cannabis representa um fator de risco robusto para recorrência em pacientes”, escrevem os pesquisadores.

“Uma vez que o consumo de cannabis é um fator de risco potencialmente modificável, que tem uma influência adversa no risco de recaída de psicose e de hospitalização em um determinado indivíduo, com limitada eficácia das intervenções existentes, estes resultados sublinham a importância do desenvolvimento de novas estratégias de intervenção e exigem atenção urgente de clínicos e dos responsáveis pelas políticas de saúde”, concluem.

Uma limitação do estudo foi que o consumo de cannabis foi autorelatado e não medido objetivamente.

Ressalvas e notas de cautela

Comentando o estudo para o Medscape, o Dr. Rashmi Patel, do King’s College London, observou que estudos anteriores mostraram que uma história de uso de cannabis está associada a maior risco de desenvolver um transtorno psicótico e piores resultados clínicos.

“No entanto, até o momento, pouco se sabia sobre os efeitos do uso continuado de cannabis após o início de um transtorno psicótico”, disse Patel, que não esteve envolvido no estudo.

Este novo estudo, disse ele, “lança luz sobre esta questão ao demonstrar que pessoas que continuam a usar cannabis regularmente após o primeiro episódio de psicose têm um maior risco de recorrência em comparação com aquelas que reduzem ou interrompem o uso. Estes resultados têm implicações importantes para a prática clínica e destacam a necessidade de se desenvolver estratégias para reduzir os riscos do consumo contínuo de cannabis em pessoas com transtornos psicóticos”.

Mas Marcel Bonn-Miller, professor adjunto assistente de psicologia em psiquiatria na Perelman School of Medicine, da University of Pennsylvania, Filadélfia, disse que seria errado concluir que “toda a maconha é ruim e que toda maconha causa psicose”.

“Houve uma série de estudos ao longo de vários anos que mostraram uma associação entrecannabis e psicose, e este estudo acrescenta evidências e é importante”, disse ele. “Mas também é importante considerar que a cannabis é uma droga heterogênea. Ela tem vários componentes diferentes e acho que neste momento, a maior parte das evidências sugere que é THC (delta-9-tetra-hidrocanabinol) o responsável por esta associação”, disse ao Medscape Bonn-Miller, que não esteve envolvido no estudo.

Ele também comentou que “a maior parte da cannabis usada nas ruas ou que vem de dispensários têm níveis muito altos de THC e quase nada dos outros canabinoides e de praticamente qualquer outra coisa. Por isso acho que está sendo observada uma associação com a psicose. Mas há outros canabinoides, como o canabidiol, ou CBD, que mostrou algumas propriedades antipsicóticas. Mas estes são apenas estudos muito iniciais, definitivamente nada comparado ao que foi feito mostrando consequências negativas”.

O estudo não teve financiamento comercial. Um autor do estudo declarou relações com Janssen, Sunovian, Otsuka e Lundbeck.

JAMA Psychiatry. Publicado online em 28 de setembro de 2016. Artigo