Mark Petticrew

#Indústria do #álcool minimiza deliberadamente o #risco de câncer

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Kristin Jenkins

A indústria de bebidas alcoólicas está deliberadamente enganando o público e os responsáveis pela elaboração de políticas sobre o risco de câncer relacionado com o consumo de álcool, particularmente o câncer de mama e o câncer colorretal, no intuito de proteger seus lucros à custa da saúde pública – exatamente como o fez a indústria do tabaco, dizem pesquisadores.

A análise qualitativa de todos os textos relacionados com o câncer encontrados em websites e em documentos de 26 organizações da indústria do álcool revela que a maioria das informações deturpa abertamente as evidências sobre a associação entre o álcool e o câncer, dizem Mark Petticrew, PhD, professor de avaliação de saúde pública na Faculty of Public Health and Policy da London School of Hygiene and Tropical Medicine,no Reino Unido, e colaboradores.

No total, 24 websites de organizações contêm omissões significativas e/ou falsas declarações sobre as evidências que relacionam o consumo de álcool com o aumento do risco de muitos tipos de câncer, dizem os autores do estudo em um artigo publicado on-line em 7 de setembro no periódico Drug and Alcohol Review.

“Costumávamos presumir que, de modo geral, a indústria do álcool, ao contrário da indústria do tabaco, tendia a não negar os prejuízos causados pelo álcool”, escrevem os pesquisadores. Nossa análise mostra que, ao contrário, a indústria do álcool em todo o mundo está divulgando atualmente de forma pró-ativa informações enganosas sobre o consumo de álcool e o risco de câncer, particularmente o câncer de mama (…)  A dimensão real e a natureza dessas atividades requerem uma investigação urgente”.

O estudo demonstra que a indústria do álcool e seus parceiros de comunicação ou SAPROS, a saber, organizações de aspectos sociais e relações públicas (acrônimo do inglês s ocial aspects and public relations organizations), incentivam o “consumo responsável” usando a negação, a distorção e a distração (ou os “três Ds” do inglês: d enial, distortion, and distraction). Essas estratégias correspondem às da indústria do tabaco, e permitem que os produtores de álcool mantenham “a ilusão de retidão” diante dos responsáveis pela elaboração de políticas, ao mesmo tempo que eliminam todo e qualquer impacto negativo significativo no consumo das bebidas alcoólicas ou nos seus lucros”, dizem os autores do estudo.

“O paralelo mais óbvio é com a campanha de décadas da indústria mundial de tabaco para enganar o público sobre o risco de câncer, que também usou as organizações de frente e as atividades de responsabilidade social corporativa para enganar o público”, escrevem os autores. “Nossas descobertas são também um lembrete do risco inerente de outorgar à indústria do álcool a responsabilidade de informar o público sobre a relação entre o álcool e a saúde”.

Mesmo o consumo de pequenas quantidades de álcool está associado ao aumento do risco de pelo menos sete tipos de câncer (boca, faringe, laringe, esôfago, fígado, mama e intestino – câncer colorretal), dizem os pesquisadores, observando que a indústria do álcool usa a negação ou a omissão para contestar essas informações. As táticas de distorção mencionam o câncer, mas deturpam o risco real, e a tática da distração é usada para afastar a mensagem dos efeitos independentes do álcool nos tipos comuns de câncer, especialmente no câncer de mama e no câncer colorretal.

Contrariamente à indústria do tabaco, os grandes produtores mundiais de álcool ainda têm acesso aos departamentos de saúde do governo e mantêm o status de parceiros, ou partes interessadas nas reuniões da Organização Mundial de Saúde sobre as questões internacionais de saúde relevantes para a indústria do álcool, dizem Petticrew e colaboradores.

“A indústria do álcool participa da elaboração de políticas relacionadas com o álcool em muitos países, e da divulgação de informações referentes à saúde para o público, inclusive para crianças em idade escolar. Os responsáveis pela elaboração de políticas, os acadêmicos, a saúde pública e outros profissionais, devem reconsiderar a adequação de suas relações com esses representantes da indústria do álcool”.

Quando solicitado a comentar, Tim Stockwell, PhD, diretor do Center for Addictions Research of British Columbia, e professor do departamento de psicologia da University of Victoria,na Colúmbia Britânica, Canadá, concordou. “Eu faço meus os comentários dos autores, de que provavelmente eles só examinaram a ponta do iceberg da influência indevida da indústria do álcool nas informações públicas sobre álcool e saúde”, disse ele ao Medscape.

“Pessoalmente não estou surpreso com essas descobertas, porque tenho testemunhado em primeira mão as tentativas de negar, distorcer ou simplesmente minimizar as evidências sobre os impactos negativos do álcool na saúde feitas pelos altos representantes da indústria do álcool em vários países, bem como pelos órgãos internacionais do setor”.

Um arsenal de estratégias de influência nas mídias sociais em constante expansão, como o financiamento de grupos de especialistas “independentes” e de pesquisas universitárias, e o trabalho para conquistar um lugar nas mesas de discussão de políticas nacionais e internacionais, permitiu que a indústria do álcool exercesse “uma influência indevida sobre as informações públicas sobre o álcool e a saúde”, disse Stockwell, que não participou do estudo.

“As consequências dessas atividades justificam o ponto de vista de que a própria indústria do álcool é uma ameaça à saúde e à segurança pública. Uma dica seria dizer para se pensar em ‘indústria do álcool’, pensar ‘indústria do tabaco’ ao visualizar os recursos produzidos pelos órgãos da indústria de bebidas”, sugeriu.

   Uma expressão melhor seria “bebida de baixo risco”, pois isso reconhece o fato de que mesmo o consumo de uma pequena quantidade de álcool é um fator de risco de câncer. Tim Stockwell

Não existe algo como “consumo responsável” quando se trata das consequências em longo prazo para a saúde associadas ao consumo de álcool, acrescentou. “Uma expressão melhor seria ‘bebida de baixo risco’, pois isso reconhece o fato de que mesmo o consumo de uma pequena quantidade de álcool é um fator de risco de câncer”.

Informações sobre o consumo de álcool

Na análise os pesquisadores identificaram todas as informações disponíveis sobre o consumo de álcool e o câncer no website do Global Alcohol Producers, e em seus relatórios de atualização, de setembro a dezembro de 2016. Os autores também analisaram todo o conteúdo relacionado com a saúde nas seções de responsabilidade social corporativa de 27 websites de produtores de álcool. Um site estava inacessível, então 26 foram analisados.

Os pesquisadores descobriram que cinco organizações da indústria do álcool negaram a associação entre o álcool e pelo menos um tipo de câncer. As informações fornecidas pela International Alliance for Responsible Drinking ( IARD ), por exemplo, afirmam que “pesquisas recentes sugerem que o consumo leve a moderado de álcool não está significativamente associado a aumento do risco total de câncer em homens ou mulheres”. Da mesma forma, a Éduc’al-cool (Quebec, Canadá) declarou que “alguns estudos mostram uma relação entre o álcool e o câncer de mama na mulheres antes e depois da menopausa. No entanto, não foi demonstrada nenhuma relação causal entre o consumo moderado de álcool e o câncer de mama”.

Para distorcer o vínculo entre o álcool e o risco de câncer, 12 das 20 SAPROS alegaram que o risco de alguns tipos comuns de câncer existe apenas para certos padrões de comportamento de consumo de bebidas alcoólicas, como o consumo intenso prolongado ou o beber compulsivamente. A página da web DrinkWise (em português: “beba com sabedoria”, da Austrália) afirma que “o  risco de câncer associado ao consumo de álcool está relacionado com os padrões de consumo de álcool, particularmente beber muito durante longos períodos de tempo”, por exemplo. O site da International Alliance for Responsible Drinking faz declarações semelhantes, como, “em geral, os tipos de câncer relacionados com o álcool foram associados ao consumo excessivo de álcool”.

Oito dos sites das SAPROS usam a tática da distração para conduzir a discussão para longe dos efeitos independentes do álcool no aumento do risco de tipos comuns de câncer, mostra o estudo. No site TalkingAlcohol.com, por exemplo, SABMiller parece insinuar que o álcool está associado apenas a formas menos comuns de câncer de mama: “Estudos recentes indicam que o consumo de álcool pode estar mais fortemente relacionado com determinada forma menos comum de câncer de mama (câncer lobular), do que com o tipo mais comum de câncer de mama (câncer ductal)”.

Algumas empresas da indústria do álcool chegam inclusive a afirmar que o consumo de álcool é protetor contra o câncer, particularmente nos fumantes. O site da SABMiller afirma que o consumo moderado de álcool pode ser relacionado com menor risco de câncer de bexiga, rim, ovário e próstata, ressaltam os pesquisadores. Além disso, a International Alliance for Responsible Drinking insiste que “foi demonstrado que entre os fumantes de longa data, o consumo de álcool é protetor contra adenomas colorretais”.

As duas áreas de desinformação mais frequentes se concentram no câncer de mama e no câncer colorretal, ressaltam os autores do estudo. No total, 21 organizações apresentam informações enganosas sobre o câncer de mama ou não apresentam nenhuma informação, e 22 apresentam informações enganosas sobre o câncer colorretal ou não apresentam nenhuma informação, dizem eles.

Embora a amplitude do estudo fortaleça sua possibilidade de generalização, sua principal fraqueza é o fato de não ter examinado outros mecanismos de divulgação de informações sobre saúde, como pelo Twitter ou em congressos e campanhas publicitárias. “Entretanto, não parece plausível que a indústria adote mensagens diferentes em relação ao câncer em diferentes canais de comunicação, embora esta seja uma questão importante para novas pesquisas”, escrevem Petticrew e colaboradores.

“Também é possível que essas fontes da indústria citem de forma inapropriada, ou mostrem fora de contexto, as opiniões de especialistas ou outros comentários incluídos”.

Também é necessário fazer uma análise mais aprofundada do viés de citação por meio da “escolha seletiva” das evidências pela indústria do álcool, assim como o acompanhamento rigoroso das informações produzidas por novos órgãos da indústria do álcool, como a Alcohol Information Partnership. Outros sites da indústria, documentos, redes sociais, e outros tipos de material também devem ser examinados “para avaliar a natureza e a extensão da distorção das evidências, e se isto se estende a outras informações sobre saúde – por exemplo, em relação às doenças cardiovasculares. Também são necessárias pesquisas comparativas entre as indústrias e outras áreas de política de álcool, a fim de examinar a distorção de evidências da indústria”.

Necessidade de alertas explícitos sobre os malefícios à saúde

Stockwell recomenda que se dê prioridade a limitar “a perigosa influência dos grupos da indústria do álcool nas comunicações públicas sobre o álcool” suspendendo definitivamente o financiamento do governo e a colaboração com as organizações da frente do setor. Os grupos da indústria do álcool devem ser obrigados por lei a veicular alertas explícitos sobre a saúde, e declarações públicas de conflitos de interesse em quaisquer informações sobre saúde que divulgarem, e os médicos devem ser extremamente criteriosos sobre as suas fontes de informações sobre o álcool”, disse ele.

   O álcool nas bebidas alcoólicas é reconhecido como cancerígeno e não existe um nível seguro para o consumo. Tim Stockwell

Todos os recipientes de álcool deveriam conter mensagens importantes sobre a saúde, e essas mensagens deveriam incluir informações sobre os diversos riscos para a saúde relacionados com o uso de álcool, mesmo moderado, acrescentou.

“A noção de que o álcool nas bebidas alcoólicas é reconhecidamente cancerígeno e que não há um nível seguro deve fazer parte dessas informações”, disse Stockwell ao Medscape.

Os médicos devem ser extremamente criteriosos com as próprias fontes de informações relacionadas ao álcool, aceitando apenas fontes imparciais e independentes que, idealmente, sejam peer-reviewed (revisadas por especialistas), e não estejam vinculadas a nenhum tipo de financiamento de grupos com interesses comerciais, aconselhou Stockwell. Os médicos também precisam manter o ceticismo ao serem apresentadas “boas notícias” que minimizam os riscos, ou enfatizam os potenciais benefícios do álcool, e se manterem alertas sobre a própria tendência a contemporizar, quando se trata de álcool, advertiu.

“Existe uma tendência na profissão médica de subestimar os efeitos do álcool sobre a saúde e, de fato, há evidências consideráveis de que as profissões relacionadas com a medicina costumam ter alto risco de problemas relacionados com o álcool”, disse ele.

A boa notícia é que os médicos podem desempenhar um papel crucial no enfrentamento do impacto das mensagens enganosas sobre o risco de câncer relacionado com o álcool. As evidências mostram que os pacientes são mais propensos a aceitar conselhos sobre o próprio comportamento em relação ao álcool quando estes conselhos são dados por um médico ou algum outro profissional de saúde, destacou Stockwell.

“Existem boas evidências de que mesmo conselhos simples para reduzir o consumo podem ser eficazes, especialmente se isso for reforçado nas futuras consultas”, disse Stockwell.

   Conselhos sobre consumo de baixo risco ou abstinência devem fazer parte dos programas de rotina no tratamento do câncer. Tim Stockwell

Medidas pró-ativas, como a triagem dos pacientes para fatores de risco comportamentais (por exemplo, consumo de álcool) também são importantes, particularmente para os pacientes com maior risco de doença grave, ou para aqueles que já foram diagnosticados.

“Há evidências de que o consumo de álcool pode aumentar a velocidade de crescimento dos tumores e, portanto, o aconselhamento sobre consumo de baixo risco ou abstinência deve ser parte integrante dos programas de rotina de tratamento de câncer”, observou Stockwell.

Os autores do estudo e Stockwell informaram não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

Drug Alcohol Rev. Publicado em 7 de setembro de 2017. Resumo