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#Covid-19: #mídias sociais e a disseminação de notícias em #terapia intensiva pediátrica

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monitor de uti pediátrica e o uso das mídias sociais para divulgar informações sobre covid-19

O uso das mídias sociais para disseminação de informações científicas em terapia intensiva pediátrica durante a pandemia da doença do novo coronavírus (Covid-19) foi amplamente abordado no artigo Using Social Media for Rapid Information Dissemination in a Pandemic: #PedsICU and Coronavirus Disease 2019, de Kudchadkar e Carroll, publicado no jornal Pediatric Critical Care Medicine.

Segundo os autores, nunca houve uma necessidade tão importante de disseminação rápida de informações no século XXI do que durante a pandemia da Covid-19. “A mídia social é uma plataforma de comunicação instantânea e em tempo real usada na área da saúde para disseminação e aquisição de informações, networking profissional e em prol dos pacientes. Com o uso de hashtags, o equivalente a uma palavra-chave, a mídia social permite a curadoria de conteúdo relevante para uma área ou foco específico”.

 

Mídias sociais durante Covid-19

Em 2016, a hashtag #PedsICU foi criada para uma coorte de terapia intensiva pediátrica no Twitter. Dessa forma, os pesquisadores objetivaram descrever o impacto de uma estratégia de colaboração internacional e rápida disseminação de informações, no Twitter, entre uma comunidade de terapia intensiva pediátrica durante a pandemia.

Em 15 de março de 2020, os autores começaram a promover o uso da hashtag #PedsICU em combinação com #COVID19 no Twitter para todos os tweets relevantes acerca de terapia intensiva pediátrica e Covid-19. Kudchadkar e Carroll utilizaram o Symplur Signals (Symplur, LLC, Upland, CA), uma ferramenta de análise de mídia social para assistência médica, para rastrear todos os tweets que incluíam a hashtag #PedsICU entre 1º de fevereiro e 1º de maio de 2020.

Após extrair todos os tweets que continham # PedsICU durante o período do estudo, os pesquisadores revisaram manualmente para incluir, pelo menos, uma hashtag relacionada à Covid-19 e agregaram esses tweets. Essas hashtags relacionadas à Covid-19 incluíam: #COVID19, #coronavirus, #COVID—19, #Covid_19, #COVID2019, #COVID, #covid4MDs, #COVIDfoam, #SARSCoV2, #Coronavid19, #2019nCoV, #CoronavirusOutbreak, #COVID19pandemic, #COVID19mx, #CoronavirusPandemic, #sarscovid2 e #SARS_COV_2.

 

Os tweets, incluindo #PedsICU, foram compartilhados 49.865 vezes em seis continentes entre 1° de fevereiro e 1° de maio de 2020. Entre 1º de fevereiro e 13 de março, apenas 8% dos tweets #PedsICU incluíram uma hashtag da Covid-19. Após um forte aumento de casos durante a semana de 14 de março de 2020, o conteúdo da Covid-19 dominou a conversa #PedsICU no Twitter, compreendendo 69% dos tweets e impressões de #PedsICU (p <0,001). A hashtag da Covid-19 mais usada no período de estudo foi #COVID19 (69%).

Proporcionalmente, uma porcentagem maior de tweets #PedsICU incluindo a hashtag da Covid-19 (versus não) tinha imagens ou vídeos (45% versus 41%; p <0,001). Além disso, os prestadores de cuidados de saúde não médicos foram o maior grupo de usuários (46%) da combinação de hashtags #PedsICU e Covid-19. Os tweets mais populares compartilhados no Twitter foram recursos de acesso aberto, incluindo links para literatura atualizada, revisões narrativas e vídeos educacionais relevantes.

 

Conclusões

Os pesquisadores concluíram que o Twitter tem sido amplamente utilizado para compartilhamento e colaboração em tempo real de informações entre a comunidade internacional de terapia intensiva pediátrica durante a pandemia da Covid-19.

O uso direcionado das hashtags #PedsICU e #COVID19 para engajamento no Twitter é um canal para combater a desinformação e otimizar o alcance às partes interessadas em terapia intensiva pediátrica em todo o mundo.

Autora:

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB. Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

  • KUDCHADKAR, S. R.; CARROL, C. L. Using Social Media for Rapid Information Dissemination in a Pandemic, Pediatric Critical Care Medicine, 2020 doi: 10.1097/PCC.0000000000002474

#Qual a relação entre #vício em internet e #transtornos do sono?

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mãos de pessoa usando tablet, com computador ao fundo, devido ao vício em internet

Cada vez fala-se mais sobre o vício em internet. Por isso, optamos por abordar uma das questões associadas a este tema: os transtornos do sono. Para isso nos guiamos a partir deste artigo publicado este ano na Sleep Medicine Reviews.

É de conhecimento geral que o uso da internet vem aumentando ao longo dos anos. Um estudo de 2018 já relata que somos 4 bilhões de usuários em todo mundo. A maioria dos trabalhos indica que os principais usuários são adolescentes e jovens, embora também venha aumentando entre adultos. Por isso é necessário entender e estudar os possíveis riscos associados.

Vício em internet

O uso patológico ou compulsivo de internet (geralmente referido como “vício em internet”) possui uma prevalência inconsistente entre as populações. Estudos epidemiológicos relatam uma variação em jovens entre 0,9% e 37,9% na Ásia, 0,3 e 8,1% nos EUA e entre 2 e 18,3% na Europa. Mas muitos desses números provêm de uma amostra conveniente, sendo que algumas metanálises têm mostrado resultados um pouco diferentes. Considerando o número de usuários da internet, uma parcela relativamente pequena, mas significativa pode ser considerada como possuindo vício em internet, o que justifica a pesquisa dos riscos.

O uso excessivo de internet compreende um comportamento problemático no que concerne às interações humanas com as tecnologias da comunicação e da informação, tendo até mesmo se transformado num problema de saúde pública. Termos como “vício em internet”, “uso compulsivo da internet”, “uso patológico da internet” e “comportamento aditivo em internet” têm sido usados para descrever os sintomas do uso problemático associado aos problemas sociais.

Nessa população podemos separar 2 grupos: aquele que usa a internet para facilitar a comunicação, aumentar a socialização e a autoestima e diminuir a solidão. E o outro grupo com comportamento patológico que gasta mais horas em atividades online, como jogos de apostas, consumo de pornografia, compras ou jogos.

Há quem defenda que este tema faça parte dos vícios comportamentais, o que inclui aspectos como tolerância, perda de controle, isolamento, comportamento mentiroso, negligência física e psicológica e problemas educacionais e em casa. Sérios problemas psicológicos e emocionais estão ocorrendo entre os usuários patológicos de internet e vêm sendo feitas associações com impulsividade, depressão, ansiedade, psicose, sintomas obsessivos-compulsivos e ansiedade social. Desses, parece que a depressão é a que mais possui correlação.

Além disso, uma das potenciais causas de depressão pode ser a ocorrência de transtornos do sono a partir do uso excessivo de internet. Vários estudos indicam uma relação entre esse comportamento e alterações no sono, como redução do tempo de sono, maior propensão a dormir mais tarde, insônia, maior queixa de fadiga, sonolência diurna e outros transtornos do sono. Outro aspecto é que a exposição à luz da tela está associada com a supressão da secreção de melatonina e atraso no sono e no despertar, piorando alguns problemas da consciência e do próprio sono.

O uso excessivo de mídias sociais e de jogos apresentam um importante papel no início e aumento dos problemas de sono entre jovens. Contudo, alguns estudos tentaram avaliar a qualidade do sono nessa população, mas em alguns não foi encontrada uma relação significativa. Nos que encontraram uma relação, a gravidade foi variável (enquanto um reportou uma associação de 52% com transtornos do sono, outro afirmou ser 3 vezes maior do que nos usuários não patológicos).

Uma revisão sistemática de 2014 relatou uma associação entre jogos online, uso problemático da internet e problemas com o sono e ressaltou que parece haver uma associação entre o uso de internet e uma menor qualidade do sono e insônia subjetiva. Apesar disso, havia a necessidade de se estabelecer uma avaliação quantitativa e avaliar a gravidade da associação.

 

Novo estudo

Este novo trabalho foi feito a partir de um passo a passo sugerido por um guideline (PRISMA), sendo seu protocolo devidamente registrado. As buscas foram feitas em diversas bases de dados conhecidas e confiáveis. Foram incluídos estudos de coorte, caso-controle e transversais publicados em inglês entre janeiro de 1990 e agosto de 2018, tendo sido avaliados participantes de todas as idades. Num total, 23 trabalhos satisfizeram os critérios e foram incluídos, abrangendo uma população de 35.684 indivíduos pesquisados. Os trabalhos abrangeram estudos de 14 países, sendo a maioria asiáticos, seguidos pelos europeus e americanos.

Os resultados indicam que os pacientes com vício em internet, quando comparados aos que não possuem esta condição, tiveram maiores chances de sofrer com problemas de sono, assim como tempo de sono reduzido, sendo tal associação consistente em todos os trabalhos. Indivíduos adictos possuem 2,2 vezes mais chances de terem problemas de sono do que os não adictos. Em termos de duração do sono, foi encontrado que o grupo viciado em internet dormiu 0,24 horas a menos que indivíduos que não são viciados.

Embora possa não parecer clinicamente relevante isso deve ser levado em consideração em associação com os problemas de sono já encontrados. Ou seja, indivíduos adictos dormem menos e tem uma pior qualidade de sono, o que termina por contribuir com um aumento nos efeitos deletérios na saúde e no funcionamento diário. Em outras palavras, pessoas viciadas em internet podem não ter um sono efetivamente reparador (por ser mais curto e de pior qualidade) e, consequentemente, desenvolvem problemas de saúde, como fadiga e sofrimento emocional. Contudo, os resultados do trabalho não permitiram inferir a causalidade entre sono e saúde por questões envolvendo um dos estudos avaliados.

Apesar de alguns trabalhos sugerirem que a presença de problemas no sono pode causar um maior uso de internet, mais estudos são necessários nesse sentido. Também não é possível ainda inferir sobre como o vício em internet impacta no ritmo circadiano e nos horários de despertar devido à falta de evidências empíricas.

Mesmo sendo usada para trabalho, fonte de informação e entretenimento, o uso de internet pode desencadear um comportamento compulsivo numa parcela da população. Vale ressaltar que o transtorno de adicção à internet ainda não é um diagnóstico reconhecido e que a adicção pode estar restrita a uma aplicação ou comportamento, como cybersex, jogos, apostas, mídias sociais, etc. A maioria dos estudos sobre este tema acaba envolvendo jovens. Mas também é importante destacar que a população mais suscetível ao vício pela internet é justamente composta por crianças, adolescentes e jovens adultos, já que se encontram em desenvolvimento.

Clinicamente, isso demonstra que há um efeito negativo no sono quando adolescentes e jovens adultos adictos não se engajam na prática da higiene do sono. Os resultados também demonstram que há uma associação clara entre vício em internet e menor duração e problemas de sono. Ainda há necessidade de mais estudos e pesquisas para aprofundamento sobre este tema, mas as conclusões iniciais servem de alerta.

 

Autor:

Paula Benevenuto Hartmann
Paula Benevenuto Hartmann

Psiquiatra pela UFF ⦁ Graduação em Medicina pela UFF

Referência bibliográfica:

  • Alimoradi Z, Lin C, Brostrom A, Bülow PH, Bajalan Z, Griffiths MD, Ohayon MM, Pakpour AH. Internet addiction and sleep problems: A systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine Reviews 47 (2019) 51e61.

#Uso de #mídias sociais associado a prejuízos à #saúde mental de jovens

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Os prejuízos à saúde mental associados ao uso frequente de mídias sociais podem ser atribuíveis a intimidação cibernética, diminuição do sono ou a redução das atividades físicas – especialmente entre os jovens, sugere nova pesquisa.

Em um estudo longitudinal feito durante três anos com quase 10.000 adolescentes britânicos entre 13 e 16 anos de idade, a quantidade de uso “muito frequente de mídias sociais” passou de 34% no primeiro ano para 62% no terceiro ano entre os meninos e de 51% para 75% entre as meninas.

Embora o uso muito frequente de mídias sociais tenha sido associado a maior sofrimento psíquico em ambos os sexos, foi maior entre as meninas e atribuível aos efeitos da intimidação cibernética, do sono insuficiente e da redução das atividades físicas.

“Isso significa que os efeitos das mídias sociais sobre a saúde mental são indiretos”, disse ao Medscape a autora sênior, Dra. Dasha Nicholls, médica do Imperial College School of Medicine, no Reino Unido.

“O uso da mídia social foi muito maior entre as meninas do que entre os meninos, sendo possível que as meninas usem as mídias sociais de modo diferente dos meninos e tenham diferentes tipos de exposição e reação ao conteúdo que acessam”, disse Dra. Dasha, psiquiatra infantil e hebiatra, que também trabalha como consultora honorária no Central and North West London NHS Trust e no East London NHS Trust.

Os dados sugerem que “o uso muito frequente de mídias sociais entre os jovens não tenha o potencial de exercer efeitos nocivos diretos”, escreveram os autores, “mas tragam prejuízos relacionadas com a visualização de conteúdos nocivos ou pelo deslocamento de atividades saudáveis que promovem o bem-estar”, como o sono ou a atividade física.

“As intervenções para reduzir o uso de mídias sociais para melhorar a saúde mental podem ser inadequadas; as intervenções para prevenir ou aumentar a resiliência à intimidação cibernética e assegurar o sono e a prática de atividade física adequados entre os jovens devem ser consideradas”, concluíram os pesquisadores.

Os achados foram publicados on-line em 13 de setembro no periódico Lancet Child and Adolescent Health.

Evidências contraditórias

Mais de 90% dos adolescentes do Reino Unido utilizam a internet para relacionamentos sociais (ou social networking), levantando a questão de que esta atividade possa ter algum efeito deletério na saúde mental. No entanto, as evidências sobre essa questão “permanecem contraditórias”, escreveram os pesquisadores.

“O estudo foi motivado pela necessidade de compreender melhor a relação entre as mídias sociais e a saúde mental ao longo do tempo”, disse Dra. Dasha. “A maior parte das pesquisas até hoje tem sido transversa, não podendo examinar os mecanismos pelos quais os dois podem interagir.”

 

Além disso, poucos estudos têm investigado os potenciais mecanismos através dos quais as mídias sociais possam prejudicar a saúde.

Os pesquisadores do estudo em tela utilizaram dados do estudo Our Futures, um estudo de representação nacional, longitudinal com jovens de 13 a 16 anos de idade, que foi realizado em três etapas.

A 1a etapa começou em 2013 e contou com jovens de 13 a 14 anos (N = 12.866); a 2a etapa foi realizada em 2014, quando os participantes tinham entre 14 e 15 anos de idade (N = 10.963); e a 3a etapa foi realizada em 2015, quando os participantes tinham entre 15 e 16 anos (N = 9.797).

Durante cada etapa do estudo, os participantes foram solicitados a descrever a frequência com que habitualmente acessavam ou checavam suas mídias sociais. “Muito frequente” foi definido como acessar mídias sociais três vezes ou mais por dia.

As informações dadas pelos próprios participantes dos dados sobre a saúde mental e o bem-estar (satisfação com a vida, sentir que a vida vale a pena, felicidade e a ansiedade) foram obtidas durante a 2a e 3a etapas, respectivamente.

Na 2a etapa, os participantes preencheram o 12-item General Health Questionnaire (GHQ12) e também responderam perguntas sobre intimidação cibernética, duração do sono (todo o período entre a hora de dormir e o despertar) e prática de atividades físicas.

Na 3a etapa, os participantes responderam perguntas sobre o próprio bem-estar geral.

As análises foram ajustadas para haver “uma estrutura mínima suficiente de confusão”, e foram feitas separadamente com os meninos e as meninas. Os pesquisadores avaliaram a intimidação cibernética, a adequação do sono e a atividade física como potenciais mediadores dos efeitos. As características da amostra foram “muito semelhantes entre as etapas”.

Meninas mais vulneráveis

Quase todos os participantes (94,5%) informaram ter o próprio celular na 1a etapa, com acesso à internet relatado por 98% na 2a etapa. O uso muito frequente de mídias sociais entre ambos os sexos aumentou com a idade entre a 1a e a 3a etapas.

Tabela. Uso muito frequente de mídias sociais, da 1a à 3a etapas

Etapa Amostra total
(%, IC* 95%)
Meninos
(%, IC 95%)
Meninas
(%, IC 95%)
1 42,6 (41,2 a 44,2) 34,4 (32,4 a 36,4) 51,4 (49,5 a 53,3)
2 59,4 (58,1 a 60,7) 50,7 (48,8 a 52,5) 67,5 (65,7 a 69,2)
3 68,5 (67,3 a 69,7) 61,9 (60,3 a 63,6) 75,4 (73,8 a 76,9)

*IC = intervalo de confiança

Na 2a etapa, o sofrimento psíquico (definido como pontuação ≥ 3 no GHQ12) foi informado por 19% dos participantes.

Entre as meninas, foi encontrada uma relação de dose-resposta entre a frequência de uso de mídias sociais e a alta pontuação no GHQ12 na 2a etapa; 27,5% (variação de 25,6 a 29,5%) das meninas com uso muito frequente tiveram alta pontuação no GHQ12 vs. 19,9% (variação de 15,3 a 25,5) que utilizaram uma vez por semana ou menos.

Esse gradiente foi menos pronunciado entre os meninos, atingindo 14,9% (variação de 13,1% a 16,8%), com uso muito frequente vs. 10,2% (variação de 8,0 a 12,9) dos que usaram mídias sociais uma vez por semana ou menos.

O ajuste pelas variáveis de confusão da existência de alguma doença crônica, da conexão dos pais com a escola, do uso de substâncias químicas e da evasão escolar fizeram pouca diferença nos resultados de ambos os sexos.

A persistência do uso muito frequente da mídia social na 1a e 2a etapas previu menor bem-estar entre as meninas:

  • Satisfação com a vida: razão de chances ajustada ou adjusted odds ratio (aOR) = 0,86; IC 95%, de 0,74 a 0,99; = 0,039
  • Felicidade: aOR = 0,80; IC 95%, de 0,70 a 0,92; P = 0,0013
  • Ansiedade: aOR = 1,28; IC 95%, de 1,11 a 1,48; P = 0,0007

Quando os pesquisadores ajustaram por intimidação cibernética, sono e atividade física, as associações de uso de mídias sociais com a alta pontuação no GHQ12 foram atenuadas (proporção mediada = 58,2%, satisfação com a vida = 80,1%, felicidade = 47,7% e ansiedade = 32,4%) entre as meninas, de tal forma que estas associações não foram mais significativas (exceto para a ansiedade).

Por outro lado, a associação da alta pontuação com o GHQ12 entre os meninos permaneceu significativa, sendo mediada apenas 12,1% por esses fatores.

“As principais conclusões foram que existe uma relação de dose-resposta entre a frequência do uso e marcadores tardios de saúde mental e bem-estar, o que foi verdadeiro para meninos e meninas”, disse Dra. Dasha.

“No entanto, quando potenciais mecanismos pelos quais as mídias sociais podem influenciar a saúde mental foram examinados, isso respondeu perfeitamente por esta relação para as meninas”, disse a pesquisadora.

Pergunte sobre a intimidação on-line

Comentando o estudo para o Medscape, a Dra. Ann DeSmet, Ph.D., professora do Departamento de Comunicação da Universiteit Antwerpen, na Bélgica, disse que o desenho longitudinal e o grande tamanho da amostra “agregam força às evidências disponíveis sobre este tema”.

Além disso, “as mídias sociais não precisam necessariamente ser prejudiciais em si”, disse Dra. Ann, que escreveu o editorial que acompanha o estudo.

No entanto, pode se tornar prejudicial se substituir o tempo que poderia ser gasto em atividades físicas, sono “ou quando aumenta a ocorrência de intimidação cibernética”, acrescentou.

“A prevenção e a promoção de programas de saúde mental deveriam, portanto, incluir o suporte para uma vida saudável, bem como ensinar aos jovens como usar as mídias sociais de uma forma ‘saudável'”, disse a Dra. Ann.

Também comentando para o Medscape, o Dr. Ric Steele, Ph.D., professor de psicologia e ciências comportamentais aplicadas e diretor da Clinical Child Psychology Doctoral Program na University of Kansas, nos Estados Unidos, disse que os dados sobre os jovens do Reino Unido correspondem aos “dados sugerindo que os adolescentes nos EUA também são usuários assíduos das mídias sociais”.

Além disso, há “bastante evidências de que mulheres e homens utilizem as mídias sociais de forma diferente”, disse Dr. Ric, que não participou da pesquisa em tela.

Por exemplo, “a literatura sugere que as mulheres podem ser mais propensas a usar as mídias sociais como meio de expressar emoções, obter apoio e sensação de pertencimento, enquanto os homens podem ser mais propensos a usar de modo mais operacional (ou seja, menos relacional)”, disse o comentarista.

As adolescentes “que tentam obter aprovação social” podem ser especialmente vulneráveis à intimidação, observou o Dr. Ric.

“Além disso, o uso das mídias sociais pelas meninas para manter relacionamentos também pode explicar por que o maior uso pode afetar o sono, já que elas podem se sentir mais obrigadas a estarem disponíveis on-line quando seus amigos postam e/ou mandam mensagens a qualquer hora da noite”, disse o Dr. Ric.

A Dra. Dasha reiterou a importância de manter o equilíbrio de modo que as mídias sociais não substituam outras atividades importantes, como uma boa noite de sono, a prática de atividades físicas e contatos pessoais com os amigos.

“Também é importante estar ciente do potencial de intimidação on-line, que só pode ser conhecido quando diretamente perguntado”, acrescentou a pesquisadora.

A Dra. Dasha Nicholls e a Dra. Ann DeSmet informaram não ter conflitos de interesses relevantes. Os conflitos de interesses dos outros autores do estudo constam no artigo original. A pesquisa empírica do Dr. Ric Steele é financiada por subsídios dos US DHHS maternal Child Health Bureau, the Health Card Foundation of Greater Kansas City e National Institutes of Health.

Lancet Child Adolesc Health. Publicado on-line em 13 de agosto de 2019. Abstract Editorial

 

Uso de mídias sociais pelos pais pode trazer danos às crianças, alertam pesquisadores

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San Francisco — Os pais podem causar danos à reputação dos filhos ao compartilharem muito sobre eles nas mídias sociais, dizem pesquisadores.

A professora de pediatria Bahareh Keith, e a professora de direito Stacey Steinberg, ambas da University of Florida, em Gainesville, se uniram na busca por diretrizes para o uso de mídias sociais por cuidadores.

“Queremos mudar o discurso social de forma a equilibrar o direito dos pais de compartilharem com o direito dos filhos à privacidade”, disse Stacey ao Medscape.

Dra. Bahareh e Stacey apresentaram seu trabalho na Conferência e Mostra Nacional de 2016 da American Academy of Pediatrics (AAP).

Os pais podem se beneficiar do suporte emocional e de conselhos práticos obtidos ao discutir experiências com outros pais em fóruns on-line, concordam as professoras. “A mídia social pode ser uma ferramenta maravilhosa”, disse Stacey.

Mas os pais frequentemente postam informações privadas sem considerar que isso resulta em um registro indelével, por vezes público. “A informação que os pais colocam no universo digital pode alcançar o passado e o futuro distantes da criança”, acrescentou Stacey.

Por exemplo, um comentário sobre a dificuldade dos pais no treinamento de toalete da criança pode aparecer em uma busca na internet quando ela estiver enfrentando bullying cibernético no ensino médio ou mesmo se candidatando a um emprego.

Fotografias podem ser copiadas e compartilhadas de forma repetida, chegando a uma audiência muito maior que o intencionado pelos pais.

Um estudo na Austrália mostrou que metade das fotografias em sites de pedofilia foram pirateadas de mídias sociais. “Essa informação me deu calafrios”, disse a Dra. Bahareh ao Medscape. “Isso quantifica um risco muito maior que eu imaginava. Não eram fotos de nudez parcial, eram apenas fotos de pessoas fazendo coisas normais. Isso é extremamente perturbador”.

Alguns países europeus reconheceram o direito legal a privacidade que permite que um indivíduo force as companhias de internet a deletar informações ou links para websites. Mas os Estados Unidos ainda não estabeleceram essa questão legal, disse Stacey, que é ex-promotora.

Os direitos da criança à privacidade estão consagrados na Convenção de Direitos da Criança das Nações Unidas. Mas o senado dos Estados Unidos nunca ratificou esse tratado.

O governo dos Estados Unidos coloca a liberdade de expressão à frente da privacidade, disse ela. A lei dá aos guardiões o papel de zelar pelas decisões sobre a privacidade da criança, mas nesse caso os pais têm um conflito de interesse.

E os problemas podem ir além do constrangimento, alertou a Dr. Bahareh. Sequestradores ou ladrões de identidade também podem fazer uso dessas informações postadas sobre as crianças. Algumas vezes a informação sobre o momento e o local de uma fotografia está nos metadados anexados à imagem.

“É onde entra o modelo da saúde pública”, disse Dra. Bahareh. “É extremamente efetivo”. Os pediatras podem oferecer guias para os pais, antecipando informações sobre o uso de mídias sociais, assim como oferecem instruções sobre o uso de assentos no carro ou síndrome da morte súbita do lactente”, acrescentou.

As duas pesquisadoras recomendam as seguintes precauções para os pais:

  • Conheça as políticas de privacidade de suas mídias sociais.
  • Ajuste notificações de alerta para quando o nome de seu filho estiver on-line e disponível por uma busca no Google.
  • Se decidir compartilhar informações sobre questões comportamentais de seu filho considere fazê-lo de forma anônima.
  • Tenha cuidado ao compartilhar a localização de seu filho.
  • Considere dar a crianças mais velhas “poder de veto” sobre publicações on-line.
  • Considere os riscos antes de postar imagens de crianças com qualquer forma de nudez.
  • Considere o efeito que um compartilhamento pode ter no bem-estar futuro de seu filho.

É difícil determinar o quanto de dano já foi causado, pois existe muito pouca pesquisa sobre essa questão, ressaltou a Dra. Bahareh.

“Isso é novo”, concordou o Dr. Dimitri Christakis, professor de pediatria e diretor do Center for Child Health, Behavior and Development,em Seattle, Washington. “É importante. É algo para se pensar a respeito.

Quando os filhos dele se tornaram adolescentes, eles o repreenderam por postar fotos deles no Facebook sem permissão, contou o Dr. Christakis.

Os pediatras tipicamente aconselham os adolescentes a terem cuidado com o que postam, pois isso leva a uma impressão digital, disse ele ao Medscape.

“Mas nós não aconselhamos os pais. A maioria dos pais provavelmente tem menos noção que os nossos pacientes”, disse ele.

Stacey Steinberg, Dra. Bahareh, e o Dr. Christakis declararam não possuir conflitos de interesses relevantes.

Conferência Nacional de 2016 da American Academy of Pediatrics (AAP): Resumo 319978. Apresentado em 22 de outubro de 2016.