THC (delta-9-tetra-hidrocanabinol)

#Uso de #maconha entre #adolescentes na era do #vape, nos EUA

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mulher fumando cigarro eletrônico, vape

vape de maconha expandiu entre os adolescentes nos Estados Unidos, de acordo com o 2019 Monitoring the Future (MTF) survey. Desde 1975, o MTF mede o uso de drogas e de álcool e as atitudes relacionadas ao uso dessas substâncias entre estudantes adolescentes americanos. A pesquisa é financiada pelo NIDA, um componente do National Institutes of Health (NIH), e realizada pela Universidade de Michigan.

Vaping é o ato de inspirar e expirar o aerossol (vapor), produzido por um cigarro eletrônico ou dispositivo similar. O termo é usado porque os cigarros eletrônicos não produzem fumaça, mas sim um aerossol, frequentemente confundido com vapor de água que, na verdade, consiste em partículas finas. Muitas dessas partículas contêm quantidades variadas de produtos químicos tóxicos que têm sido associados ao câncer, além de doenças respiratórias e cardíacas.

Maconha no vape

O tetra-hidrocanabinol (o principal constituinte psicoativo da maconha) pode ser vaporizado. No entanto, o vape de maconha produz efeitos fisiológicos e psicológicos significativamente maiores em comparação aos métodos tradicionais de fumar o tetra-hidrocanabinol, levantando preocupações sobre os possíveis efeitos à saúde.

Em carta recente publicada online na revista JAMA, Miech e colaboradores (2019) relataram a prevalência do uso de vape de maconha para 2019 entre adolescentes americanos e o aumento dessa prevalência entre 2017, 2018 e 2019.

No total, 42.531 estudantes de 396 escolas públicas e privadas dos Estados Unidos participaram da pesquisa MTF de 2019. As análises foram baseadas na pergunta “Em quantos dias (se houver) você consumiu maconha” com os períodos de “nos últimos 30 dias”, “nos últimos 12 meses” e “na sua vida”. A palavra “dias” na questão principal substituiu a palavra “ocasiões”, usada em 2017 e 2018.

 

Em 2019, o vape de maconha “quase diariamente” foi medido pela primeira vez e indicado o uso em “mais de 20 dias” nos últimos 30 dias. Uma amostra de dois terços selecionada aleatoriamente recebeu as perguntas sobre o cigarro eletrônico de maconha em 2019 e uma amostra de um terço selecionada aleatoriamente recebeu as perguntas em 2017 e 2018.

O número de estudantes selecionados aleatoriamente para receber as perguntas foi 14.560 de 43.703 em 2017, 14 857 de 44 482 em 2018 e 28 346 de 42 531 em 2019. Em 2019, a prevalência de vape de maconha nos últimos 30 dias foi de 3,9% (IC95%, 3,3%-4,7%) da 8ª série, 12,6% (IC95%, 11,1%-14,3%) da 10ª série e 14,0% (IC95%, 12,6%-15,5%) da 12ª série. Os níveis de prevalência relatados nos últimos 30 dias aumentaram significativamente de 2018 a 2019. Os aumentos absolutos foram de 1,3% (IC95%, 0,4%-2,2%; P = 0,006) nos alunos da 8ª série, 5,6% (IC95%, 3,7%-7,5%; P <0,001) na 10ª série e 6,5% (IC 95%, 4,7%-8,4%; P <0,001) na 12ª série.

Entre os alunos da 12ª série, esse aumento foi significativamente maior que o aumento de 2017 para 2018 por uma diferença absoluta de 4,0% (ou seja, 6,5%-2,5% [IC 95%, 1,3% -6,8%]; P = 0,004). Entre os alunos da 10ª série, o aumento foi de 2,9% (ou seja, 5,6%-2,7% [IC 95%, 0,1% -5,7%]; P = 0,04). Os resultados foram semelhantes nos últimos 12 meses e no tempo de vida. Os aumentos de prevalência a cada ano foram estatisticamente significantes para todas as séries. Para todos os intervalos, o aumento da prevalência entre os alunos do 12º ano foi maior entre 2018 e 2019 do que entre 2017 e 2018. Em 2019, o consumo quase diário de maconha foi relatado por 0,8% (IC95%, 0,6%-1,2%) da 8ª série, 3,0% (IC95%, 2,3%-4,0%) da 10ª série e 3,5% (IC95%, 2,9%-4,3%) da 12ª série.

 

As limitações do estudo incluem o potencial de relatar erros e a ausência de evasão do ensino médio. Entretanto, os autores destacam que, à medida que aumenta o número de adolescentes que usam maconha, também aumenta o escopo e o efeito de quaisquer consequências associadas à saúde, que podem incluir lesões pulmonares. Esse estudo mostra que o rápido aumento do consumo de maconha indica a necessidade de novos esforços de prevenção e intervenção direcionados especificamente aos adolescentes.

 

Autor:

Roberta Esteves Vieira de Castro
Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença. Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes. Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil pela Universidade Federal Fluminense (Linha de Pesquisa: Saúde da Criança e do Adolescente). Doutora em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pós-graduanda em neurointensivismo pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ e do Hospital Caxias D’Or. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro. Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Membro do comitê de filiação da American Delirium Society (ADS). Coordenadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG). Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS).

Referências bibliográficas:

Cannabis diretamente associada a recorrência de psicose

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Megan Brooks

Nova pesquisa mostra que continuar a fumar cannabis após um primeiro episódio de psicose está associado causalmente a um risco aumentado de recorrência da psicose.

Pesquisadores do Kings College London, no Reino Unido, observam: os resultados do estudo indicam que o consumo de cannabis é um “fator de modificação de risco para recorrência, sugerindo que a interrupção do consumo de cannabis após o início da psicose pode ajudar na redução do risco de recaída”.

“Embora tenha sido proposto que um risco genético comum ou causalidade reversa podem estar subjacentes à associação entre o consumo de cannabis continuado e a recorrência, nossos resultados indicam que a mudança do consumo de cannabis representa um fator de risco robusto para a recorrência em pacientes”, escrevem os pesquisadores, liderados pelo Dr. Sagnik Bhattacharyya,.

Os resultados foram publicados online em 28 de setembro no JAMA Psychiatry.

Fatores de risco modificáveis

O consumo de cannabis está associado a desfechos ruins para pacientes com primeiro episódio de psicose, mas a natureza causal dessa associação é incerta, observam os pesquisadores.

Para este novo estudo, eles usaram um projeto quasi-experimental para investigar a natureza causal da associação entre o uso continuado de cannabis e o risco de recorrência da psicose. Eles empregaram modelos longitudinais (análise de efeitos fixos, análise cross-lagged) para determinar se a associação entre as alterações do consumo de cannabis e risco de recorrência ao longo do tempo deriva de vulnerabilidade compartilhada entre a psicose e uso de cannabis, psicose aumentando o risco de uso de cannabis (causalidade reversa) ou um efeito causal do consumo decannabis na recorrência de psicose.

Os participantes incluíram 90 mulheres e 130 homens (média de idade de 29 anos), que foram acompanhados por pelo menos dois anos após o primeiro episódio de psicose.

De acordo com os pesquisadores, a taxa de recorrência foi maior para os indivíduos que consumiram cannabis continuamente após o primeiro episódio de psicose (59,1%), e foi menor para aqueles que não continuaram o uso (28,5%). Entre os usuários ocasionais, a taxa de recaída foi de 36,0%.

Em modelos de efeitos fixos que controlaram para fatores tempo-variantes, como uso de outras drogas ilícitas e uso de antipsicóticos, bem como genética e ambiente, o risco de recorrência de psicose foi 13% maior durante os períodos de consumo de cannabis em relação aos períodos em que não havia consumo (odds ratio, 1,13; IC de 95%, 1,03-1,24).

Também houve uma relação dose-resposta: uma mudança de 1 unidade no padrão de consumo de cannabis, o que significa maior regularidade de uso ao longo do tempo (de uso intermitente para uso continuado), foi correlacionada com uma probabilidade de risco de recorrência aumentada (odds ratio, 1,10; IC de 95%, 1,05-1,15).

A análise cross-lagged confirmou que esta associação refletiu um efeito do consumo de cannabis no risco subsequente de recorrência ao invés de um efeito da própria recaída no consumo subsequente de cannabis.

“Embora tenha sido proposto que um risco genético comum ou causalidade reversa podem estar subjacentes à associação entre o consumo de cannabis continuado e recorrência, nossos resultados indicam que a mudança do consumo de cannabis representa um fator de risco robusto para recorrência em pacientes”, escrevem os pesquisadores.

“Uma vez que o consumo de cannabis é um fator de risco potencialmente modificável, que tem uma influência adversa no risco de recaída de psicose e de hospitalização em um determinado indivíduo, com limitada eficácia das intervenções existentes, estes resultados sublinham a importância do desenvolvimento de novas estratégias de intervenção e exigem atenção urgente de clínicos e dos responsáveis pelas políticas de saúde”, concluem.

Uma limitação do estudo foi que o consumo de cannabis foi autorelatado e não medido objetivamente.

Ressalvas e notas de cautela

Comentando o estudo para o Medscape, o Dr. Rashmi Patel, do King’s College London, observou que estudos anteriores mostraram que uma história de uso de cannabis está associada a maior risco de desenvolver um transtorno psicótico e piores resultados clínicos.

“No entanto, até o momento, pouco se sabia sobre os efeitos do uso continuado de cannabis após o início de um transtorno psicótico”, disse Patel, que não esteve envolvido no estudo.

Este novo estudo, disse ele, “lança luz sobre esta questão ao demonstrar que pessoas que continuam a usar cannabis regularmente após o primeiro episódio de psicose têm um maior risco de recorrência em comparação com aquelas que reduzem ou interrompem o uso. Estes resultados têm implicações importantes para a prática clínica e destacam a necessidade de se desenvolver estratégias para reduzir os riscos do consumo contínuo de cannabis em pessoas com transtornos psicóticos”.

Mas Marcel Bonn-Miller, professor adjunto assistente de psicologia em psiquiatria na Perelman School of Medicine, da University of Pennsylvania, Filadélfia, disse que seria errado concluir que “toda a maconha é ruim e que toda maconha causa psicose”.

“Houve uma série de estudos ao longo de vários anos que mostraram uma associação entrecannabis e psicose, e este estudo acrescenta evidências e é importante”, disse ele. “Mas também é importante considerar que a cannabis é uma droga heterogênea. Ela tem vários componentes diferentes e acho que neste momento, a maior parte das evidências sugere que é THC (delta-9-tetra-hidrocanabinol) o responsável por esta associação”, disse ao Medscape Bonn-Miller, que não esteve envolvido no estudo.

Ele também comentou que “a maior parte da cannabis usada nas ruas ou que vem de dispensários têm níveis muito altos de THC e quase nada dos outros canabinoides e de praticamente qualquer outra coisa. Por isso acho que está sendo observada uma associação com a psicose. Mas há outros canabinoides, como o canabidiol, ou CBD, que mostrou algumas propriedades antipsicóticas. Mas estes são apenas estudos muito iniciais, definitivamente nada comparado ao que foi feito mostrando consequências negativas”.

O estudo não teve financiamento comercial. Um autor do estudo declarou relações com Janssen, Sunovian, Otsuka e Lundbeck.

JAMA Psychiatry. Publicado online em 28 de setembro de 2016. Artigo