transtornos alimentares

#Como o #isolamento social pode agravar os #transtornos alimentares?

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Exemplos de alimentos saudáveis que podem ajudar a evitar transtornos alimentares em época de isolamento social

Cada vez mais comuns em todo o mundo, os transtornos alimentares até ganharam uma data mundial de conscientização pela Academy for Eating Disorders: 2 de junho. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os transtornos alimentares são um conjunto de doenças psiquiátricas de origem genética, hereditária, psicológicas e/ou sociais, caracterizados por perturbação persistente na alimentação e, considerando suas características, eles podem ser exacerbados durante esse período de isolamento social.

No Brasil, segundo dados da própria OMS, 4,7 da população sofre de transtorno de compulsão alimentar (TCA). Esse número é quase duas vezes maior que a média mundial, que gira em torno de 2,6 da população. No país, a incidência maior é em jovens mulheres de 14 a 18 anos.

 

Isolamento social e alimentação

Os recentes artigos publicados sobre este assunto sugerem que pacientes com transtornos mentais estão sob maior risco durante este período de isolamento da quarentena, inclusive aqueles com transtornos alimentares.

Contudo, ainda é muito cedo para falar qual o impacto que o período de isolamento social terá sobre eles. No entanto, há hipóteses e suposições sobre como alguns fatores poderiam interferir nesses quadros.

“Alguns trabalhos sugerem que a preocupação com o ganho de peso na ausência de atividade física possa desencadear um transtorno alimentar, assim como o maior tempo gasto nas mídias sociais. Estes pacientes também podem apresentar problemas de regulação emocional”, diz Paula Benevenuto Hartmann, mestranda em Psiquiatria e Saúde Mental na Universidade do Porto, em Portugal.

Segundo a psiquiatra, que também é conteudista do Portal de Notícias da PebMed, em tempos de insegurança, a relação com a comida pode se agravar ainda mais. Por exemplo, os pacientes cujo padrão de comportamento alimentar é inflexível e rígido podem ter dificuldade de encontrar aquilo que geralmente consomem. Por outro lado, permanecer em casa o tempo inteiro também pode aumentar os episódios de compulsão.

“Além disso, devemos nos lembrar que neste momento o acesso aos hospitais, internações e consultas presenciais pode se encontrar dificultado, sendo este um fator adicional”, complementa.

 

Isolamento social como gatilho para má nutrição

A nutricionista Noadia Lobão, especialista em Nutrição Clínica pela Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN), pós-graduada em Obesidade e membro do movimento Slow Food Brasil, concorda que os fatores negativos e adversos decorrentes do isolamento da pandemia podem agir como gatilhos e levar indivíduos com propensão aos transtornos alimentares a desenvolver a condição.

“A ameaça de sofrer com o contágio do vírus, a insegurança, a preocupação sobre o que poderia acontecer com os entes queridos, aumentaram os hormônios do estresse. Todos esses fatores somados causam grandes impactos, afetando a bioquímica do organismo. E essa situação é agravada pelo isolamento social. Instintivamente, o ser humano procura soluções para todo este quadro de sofrimento e, como o alimento traz um prazer e um bem-estar imediato e momentâneo sem igual, pode aumentar o aporte energético e também causar a compulsão alimentar”, explica.

Orientações aos profissionais de saúde

O tratamento deve ser realizado com o acompanhamento de uma equipe multiprofissional, que costuma envolver um médico psiquiatra, psicólogo, nutricionista e, quando necessária uma internação, um médico clínico e uma equipe de enfermagem.

O profissional de educação física também pode ser envolvido, como nos casos de obesidade, por exemplo. A abordagem geralmente envolve psicoeducação para o paciente e seus familiares, psicoterapia para o paciente (e se necessário, terapia de família) e, em alguns casos, medicação.

“O tipo de medicação pode mudar bastante, se estamos falando de anorexia, obesidade ou compulsão. Em relação à psicoterapia podemos notar diferentes técnicas, como a cognitivo-comportamental (TCC) e a psicoterapia psicodinâmica, sendo que dependendo do caso a abordagem pode ser individual ou em grupo”, explica Paula Hartmann.

Acompanhamento à distância

Neste contexto atual, a telemedicina tem conseguido grande destaque. Com todas as vantagens e limitações que possui, permite o contato com profissionais especializados, como psiquiatras ou psicólogos. O médico generalista ou de outra especialidade, ao se deparar com pacientes apresentando transtornos alimentares durante o isolamento, pode encaminhá-lo para um colega psiquiatra.

“É necessária uma avaliação, pois para cada transtorno do grupo é possível adotar uma abordagem diferente, como medicações ou atendimento em psicoterapia. Já existem alguns trabalhos que começaram a investigar principalmente as técnicas de psicoterapia cognitiva-comportamental na forma de aplicativos, por exemplo. É importante notar que alguns pacientes, como aqueles com anorexia, podem não se interessar por um tratamento ou até oferecer resistência a ele. Uma estratégia aí é sugerir o encaminhamento ou iniciar a abordagem através das comorbidades que esses pacientes possam apresentar, como transtornos ansiosos ou transtornos do humor”, ressalta a psiquiatra.

 

Educação nutricional contra transtornos alimentares

Já o tratamento nutricional dos transtornos alimentares é dividido em duas etapas, educacional e experimental. Deve-se conduzir uma detalhada anamnese sobre dos hábitos alimentares do paciente e histórico da doença. É importante avaliar medidas de peso e altura, restrições alimentares, crenças nutricionais e a relação com os alimentos.

A educação nutricional abrange conceitos de alimentação saudável, tipos, funções e fontes dos nutrientes, recomendações nutricionais, consequências da restrição alimentar e das purgações. Na fase experimental, trabalha-se mais intensamente a relação que o paciente tem para com os alimentos e o seu corpo, ajudando-o a identificar os significados que o corpo e a alimentação possuem.

“O tratamento deve visar à promoção de hábitos alimentares saudáveis, a cessação de comportamentos inadequados e a melhora na relação do paciente para com o alimento e o corpo”, conclui a nutricionista Noadia Lobão.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Referências bibliográficas:

#TRANSTORNOS MENTAIS NA ADOLESCÊNCIA

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A Adolescência é um período de intensas atividades e transformações na vida mental do indivíduo, o que, por si só, leva a diversas manifestações de comportamento que podem ser interpretadas por leigos como sendo doença. Assim sendo, muitas das manifestações ditas normais da adolescência podem se confundir com doenças mentais ou comportamentos inadequados.

Exemplo disso é o uso de drogas, que pode constituir-se em um caso de dependência, mas também pode constituir-se em um simples comportamento de experimentação da vida. Temos de ter o cuidado inicialmente de avaliar bem o comportamento de um adolescente, antes de se garantir a existência ou não de um transtorno mental. Para tanto é necessário se conhecer um pouco acerca do que chamamos de “adolescência normal”.

Adolescência Normal

A adolescência é a fase da vida em que a pessoa se descobre como indivíduo separado dos pais. Isso gera um sentimento de curiosidade e euforia, porém também gera sentimentos de medo e inadequação. Um adolescente está descobrindo o que é ser adulto, mas não está plenamente pronto para exercer as atividades e assumir as responsabilidades de ser adulto. Assim sendo ele procura exemplos, de pessoas próximas ou não – ídolos artísticos ou esportivos, entre outros – para construir seu caráter e seu comportamento.

Também é visível a necessidade do adolescente de contrariar a vontade ou as idéias dos pais. Esse comportamento opositor aos pais acontece em decorrência da necessidade do adolescente de separar-se dos pais, ser diferente deles, para construir sua própria identidade como pessoa. Ao mesmo tempo, o adolescente pode não se ver capaz ainda de se separar desses pais, gerando então nele um sentimento de medo. De um lado a necessidade de separar-se dos pais para ser um indivíduo diferente e de outro lado a dificuldade de assumir a posição adulta (com suas responsabilidades e desejos) levam o adolescente a uma fase de intensa confusão de sentimentos, com uma constante mudança de opiniões e metas, e com um comportamento bastante impulsivo.

Embora haja grande quantidade de conhecimento existente hoje sobre esse assunto, é necessário alertar que muitos dos comportamentos atípicos manifestados pelos adolescentes podem apenas ser uma busca por sua identidade, e não uma doença mental específica.

Cabe também lembrar que muitas vezes os adolescentes necessitam de ajuda profissional nesse processo de “ser adulto”, o qual, mesmo não se constituindo em doença mental, pode constituir-se em sofrimento para o adolescente, podendo ele beneficiar-se, e muito, de intervenções psicológicas.

Dentre os transtornos mais comuns vistos na adolescência, destacam-se os seguintes:

Transtornos do Humor

É o grupo onde se incluem as doenças depressivas, de certo modo comuns na adolescência, acompanhadas das mais diversas manifestações. Podem apresentar humor deprimido (tristeza) acentuado ou irritabilidade (que por si só pode ser manifestação normal da adolescência), perda de interesse ou prazer em suas atividades, perda ou ganho de peso, insônia ou excesso de sono e abuso de substâncias psicoativas (mais comumente álcool, porém até outras drogas). O tratamento desses transtornos envolve o uso de fármacos (antidepressivos), associados a psicoterapia.

Transtornos Alimentares

Onde se incluem a Bulimia (ataques de “comer” compulsivo seguidos, muitas vezes, do ato de vomitar) e Anorexia (diminuição intensa da ingesta de alimentos). A pessoa demonstra um “pavor” de engordar, tomando atitudes exageradas ou não necessárias para emagrecer, mantendo peso muito abaixo do esperado para ela. O tratamento desses transtornos envolve uma equipe multidisciplinar (psiquiatra, nutricionista), fármacos antidepressivos e psicoterapia, necessitando em alguns casos de intervenções na família.

Transtornos do Uso de Substâncias Psicoativas

O uso de drogas, como é conhecido, é um tipo de alteração de comportamento bastante visto na adolescência. A dependência de drogas, que é o transtorno mais grave desse grupo, manifesta-se pelo uso da substância associado a uma necessidade intensa de ter a droga, ausência de prazer nas atividades sem a droga e busca incessante da droga, muitas vezes envolvendo-se em situações ilegais ou de risco para se conseguir a mesma (roubo e tráfico). O tratamento envolve psicoterapia, educação familiar e alguns fármacos, por vezes necessitando internação hospitalar.

Transtornos de Conduta

Caracterizam-se por comportamentos repetitivos de contrariedade a normas e padrões sociais, conduta agressiva e desafiadora. Constitui-se em atitudes graves, sendo mais do que rebeldia adolescente e travessuras infantis normais. Essas pessoas envolvem-se em situações de ilegalidade e violações do direito de outras pessoas. Aparecem roubos, destruição de patrimônio alheio, brigas, crueldade e desobediência intensa como algumas das manifestações. O tratamento envolve basicamente psicoterapia, podendo-se utilizar alguns fármacos no controle da impulsividade desses pacientes. São transtornos de difícil manejo, e muitas vezes necessitam de intervenções familiares e sociais.

Transtornos de Ansiedade

Os transtornos de ansiedade incluem desde a ansiedade de separação e a fobia escolar, condições que ocorrem quase que exclusivamente na infância, até o transtorno obsessivo compulsivo, transtorno de ansiedade generalizada, estresse pós-traumático, síndrome do pânico e fobias. Pessoas que vivem com um grau muito intenso de ansiedade podem chegar a ter prejuízos no seu funcionamento, por exemplo social, em decorrência dessa ansiedade. Além de causar importante sofrimento físico e psicológico, as conseqüências dos sintomas ansiosos costumam ser desmoralizantes e incapacitantes em mais de uma esfera, como por exemplo social, ocupacional, escolar e familiar. Os sintomas podem iniciar tanto na infância quanto na adolescência , e podem ser tanto primários, quanto secundários ou ocorrerem em comorbidade com outros sintomas psiquiátricos. O tratamento envolve basicamente psicoterapia, podendo-se recorrer a alguns fármacos como coadjuvantes.

Pessoas que vivem com um grau muito intenso de ansiedade, chegando a ter prejuízos no seu funcionamento, por exemplo social, em decorrência dessa ansiedade. Pode aparecer na adolescência sob a forma de ansiedade de separação, geralmente dos pais, aparecendo em adolescentes que não conseguem manter atividades sem a presença dos mesmos. São extremamente tímidos, e muitas vezes, não conseguem obter prazer em quase nenhuma atividade fora de casa. O tratamento envolve basicamente psicoterapia, podendo-se recorrer a alguns fármacos como coadjuvantes.

Transtornos Psicóticos

Nessa fase da vida muitos transtornos psicóticos, por exemplo a esquizofrenia, iniciam suas manifestações. Esses transtornos são graves, muitas vezes necessitam internação hospitalar e são caracterizados por comportamentos e pensamentos muito bizarros e distorcidos frente a realidade. O tratamento baseia-se em tratamento medicamentoso com o uso de antipsicóticos e psicoterapia de apoio. São transtornos, em sua maioria, cronificantes, principalmente se não tratados.

Suicídio na Adolescência

Muitos transtornos da adolescência podem se manifestar com comportamento suicida. Tentativas ou ameaças de suicídio podem aparecer. Alguns comportamentos de exposição e risco (dirigir em alta velocidade ou embriagado, envolvimento em brigas ou em atividades de risco, entre outras) também podem ser sinais de comportamento suicida na adolescência, mesmo sem a manifestação explícita dessa intenção. O comportamento impulsivo do adolescente, acarreta um risco maior de tentativas de suicídio mesmo na ausência de sintomas depressivos ou uma clara ideação suicida, o que torna o adolescente muito mais vulnerável a este tipo de comportamento.

 

Cuidados a tomar na Avaliação Diagnóstica

São muitas as possibilidades de transtornos mentais nessa fase da vida, mas todas as situações devem ser muito bem avaliadas antes de se fechar um diagnóstico, principalmente na adolescência. Além das dificuldades pessoais dos adolescentes e de sua intensa modificação corporal e mental, o que por si só já pode gerar comportamentos e sentimentos de inadequação, suas atitudes podem ainda refletir problemáticas familiares. Assim sendo, sem uma devida avaliação do adolescente é, no mínimo imprudente, caracterizá-lo como tendo uma doença mental específica.

#Aumentam casos de #automutilação entre #adolescentes do sexo feminino

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Pauline Anderson

A incidência de automutilação entre meninas dos 13 aos 16 anos de idade aumentou 68% durante um período de quatro anos, revela uma nova pesquisa.

O aparente aumento acentuado sugere a “necessidade urgente de identificar as causas deste fenômeno”, escreveram os autores, liderados por pelo Dr. Nav Kapur, médico e professor de psiquiatria e saúde da população da University of Manchester, no Reino Unido.

Estes achados reforçam a importância do papel da atenção primária na rapidez da intervenção, no monitoramento e no encaminhamento das crianças e adolescentes em situação de risco, disse o Dr. Kapur.

“Quando algum jovem se sentir angustiado e vier à unidade de atendimento com sinais de automutilação, isso constitui um verdadeiro marcador, uma indicação real de que precisamos intervir”, disse o pesquisador ao Medscape.

Dr. Nav Kapur

Os pesquisadores também observaram que o atendimento básico das regiões socialmente mais desfavorecidas tem menor probabilidade de encaminhar as crianças e adolescentes que se automutilam aos serviços especializados da saúde mental, e que estes adolescentes correm maior risco de morrer como consequência de algum episódio de automutilação em comparação aos seus pares sem história de automutilação.

O estudo foi publicado on-line em 18 de outubro no periódico BMJ.

Risco de suicídio

A automutilação entre os jovens é um importante problema de saúde pública. Em todo o mundo, é o fator de risco mais forte de suicídio ulterior. O suicídio é a segunda causa mais comum de morte (vem após os acidentes de trânsito) entre os jovens com menos de 25 anos de idade.

Os pesquisadores usaram o banco de dados UK Clinical Practice Research Datalink (CPRD), um dos maiores do mundo contendo prontuários eletrônicos de pacientes da atenção primária.

Este banco de dados (tornados anônimos) contém mais de 4,4 milhões de prontuários ativos de pacientes provenientes de 674 unidades de atenção primária, sendo amplamente representativo da população do país em termos de idade, sexo e etnia.

Cerca de 60% das unidades de atendimento participam da rede CPRD, o que facilita o acesso às estatísticas hospitalares e aos dados nacionais sobre mortalidade, bem como às informações sobre desfavorecimento social do censo.

A análise foi feita em três etapas.

Na primeira etapa da análise os pesquisadores identificaram 16.912 crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos de idade que apresentaram pelo menos um episódio de automutilação no período de 2001 a 2014. Dentre os primeiros episódios de automutilação, cerca de 80% foram por overdose de drogas.

No Reino Unido, a automutilação é considerada um “espectro de comportamentos” que engloba o envenenamento e/ou a intoxicação voluntários, bem como o ato de se ferir, por exemplo, fazendo cortes na pele, independentemente da intenção, disse o Dr. Kapur. O psiquiatra acrescentou que é difícil diferenciar as tentativas de suicídio dos episódios de automutilação não-suicida.

Neste novo estudo, a incidência da automutilação entre as adolescentes do sexo feminino foi cerca de três vezes maior do que entre os adolescentes do sexo masculino (37,4 a cada 10.000 em comparação a 12,3 a cada 10.000).

Foi feito diagnóstico de depressão para mais de um terço das jovens e mais de um quarto dos rapazes. O transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH), os transtornos do espectro do autismo, os transtornos da conduta e os transtornos do espectro da esquizofrenia foram mais comuns entre os meninos do que entre as meninas. Os transtornos alimentares foram mais prevalentes entre as adolescentes.

Nos 12 primeiros meses a contar do primeiro episódio, a reincidência de automutilação foi mais comum (cerca de 21,5%) entre as meninas do que entre os meninos.

Diferenças entre os sexos

Os pesquisadores investigaram cinco categorias de desfavorecimento social. Entre as crianças e adolescentes registrados nas unidades de saúde nas regiões mais desfavorecidas, a incidência anual a cada 10.000 jovens foi maior do que entre os registrados nas unidades de saúde nas áreas menos desfavorecidas (27,1 vs. 19,6).

Entre as adolescentes do sexo feminino dos 13 aos 16 anos de idade, a incidência específica por idade a cada 10.000 pacientes aumentou 68% ― de 45,9 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 41,7 a 50,0) para 76,9 (IC de 95%, de 70,7 a 83,2) entre 2011 e 2014.

Não houve incremento perceptível da incidência de automutilação ao longo do tempo entre as mulheres de outras faixas etárias, além do intervalo dos 13 aos 16 anos, nem entre os homens de qualquer idade.

Dr. Kapur lembrou que o estudo foi feito com informações obtidas em bancos de dados que podem omitir alguns casos, e que não capturam o detalhamento dos registros de automutilação.

Embora as razões por trás do recente aumento da automutilação entre as adolescentes não estejam claras, os autores indicam que ele pode estar relacionado a problemas de saúde mental comuns entre as jovens do sexo feminino, e também com fatores biológicos, como a puberdade.

Este aumento poderia simplesmente refletir problemas de identificação. Os jovens podem estar mais inclinados a falar sobre a automutilação, os pais mais propensos a revelar este quadro, e os médicos mais habituados a indagar sobre isso, disse o Dr. Kapur.

No entanto, o forte aumento delimitado a uma determinada idade e gênero sugere o contrário.

“Se o aumento fosse apenas uma questão de identificação, poderíamos esperar observá-lo em todas as faixas etárias, e poderíamos esperar observá-lo em ambos gêneros, disse o Dr. Kapur.

Uso responsável da mídia social

O autor observou que “indícios convergentes” provenientes de várias fontes, inclusive de enquetes recentes, sugerem que este aumento seja “real”, e que a incidência da automutilação “pode realmente estar aumentando”, disse o Dr. Kapur.

Partindo da premissa de que este aumento seja real, o Dr. Kapur sugeriu algumas causas plausíveis.

O aumento do estresse pode ter alguma participação nisso, disse o Dr. Kapur. As adolescentes do sexo feminino podem estar enfrentando o mesmo nível de estresse que os rapazes, mas estar respondendo a isso de forma diferente. Os adolescentes, por exemplo, podem estar tomando bebidas alcoólicas, enquanto as adolescentes podem estar se automutilando.

As mídias digitais também podem contribuir para o recente aumento da automutilação entre as adolescentes.

“As mídias sociais e a internet podem ser úteis para algumas pessoas, mas também podem ser prejudiciais”, disse o Dr. Kapur. Por exemplo, alguns sites podem conectar os jovens a recursos úteis, enquanto outros podem incentivar a automutilação ou apresentá-la como sendo uma reação normal a um evento estressante.

“Acredito que a solução nesses casos seria educar e treinar os jovens a usarem as mídias sociais de forma responsável”, disse o Dr. Kapur.

Na segunda etapa da análise os pesquisadores avaliaram a conduta médica adotada nos 12 meses subsequentes à automutilação. No total, 2.395 pacientes (17,7%) foram encaminhados para os serviços de saúde mental neste lapso de tempo. Destes, 18,2% eram do sexo feminino e 16,5% eram do sexo masculino.

O estudo mostrou que crianças e adolescentes acompanhados nas unidades de saúde do atendimento primário nas regiões mais carentes tiveram 23% menos probabilidade de serem encaminhados quando comparados aos pacientes atendidos nas áreas menos desfavorecidas.

Isto, disse o Dr. Kapur, é um exemplo da chamada “lei do atendimento inverso”, segundo a qual as pessoas com necessidades mais complexas ― mais doença mental e dificuldades econômicas, por exemplo ― “paradoxalmente” têm menos acesso ao atendimento em saúde. Isso pode ocorrer, em parte, devido a barreiras geográficas no acesso ao atendimento.

Não é um problema exclusivamente clínico

No total, 22,2% dos pacientes receberam prescrição de antidepressivos no ano imediatamente após o primeiro episódio de automutilação. Mais adolescentes do sexo feminino receberam estes medicamentos do que adolescentes do sexo masculino. Por outro lado, os garotos tiveram maior probabilidade de receber prescrição de hipnóticos, ansiolíticos e antipsicóticos do que as garotas.

Na terceira etapa da análise, cada paciente apresentando o primeiro episódio de automutilação foi pareado por idade, sexo e unidade de atendimento com até 20 pacientes de comparação para os quais não havia registros de automutilação.

Os pesquisadores compararam os dados de mortalidade de 8.638 participantes da coorte da automutilação aos de 170.274 jovens sem este comportamento. Houve 43 mortes no primeiro grupo e 176 na segunda coorte.

As crianças e os adolescentes que se automutilavam tiveram uma probabilidade mais de nove vezes maior de morrer de uma morte “não natural” durante o período de acompanhamento do que seus pares sem este perfil (hazard ratio, HR = 9,35; IC de 95%, de 5,84 a 14,97, após ajuste pelo nível de desfavorecimento social).

Estes jovens tiveram uma probabilidade 17 vezes maior de morrer por suicídio (HR ajustada = 17,48; IC de 95%, de 7,55 a 40,46).

“Esta é uma advertência importante, lembrando que a automutilação é um comportamento que precisa ser levado muito a sério”, disse o Dr. Kapur, acrescentando estar claro que a automutilação está “ligada ao suicídio”, e nem sempre é apenas uma tentativa de chamar atenção.

Além de avaliar o risco de automutilação entre os pacientes jovens, os médicos devem assegurar que esses pacientes tenham acesso a bons tratamentos psiquiátricos, inclusive à psicoterapia, disse o Dr. Kapur.

O pesquisador observou a importância de engajar outros membros da comunidade para ajudar a enfrentar o problema da automutilação entre os jovens.

“Esta não é uma responsabilidade exclusivamente médica ― precisamos trabalhar junto com as escolas, as famílias, e outras partes interessadas.”

Chamando a atenção

Comentando o estudo para o Medscape, o Dr. Robert Scott Benson, psiquiatra infantil e hebiátrico em Pensacola, na Flórida, e membro do comitê de diretrizes de conduta da American Psychiatric Association, elogiou os autores por “terem chamado a atenção para este problema”.

No entanto, os dados revelando um aumento de 68% da incidência de automutilação entre as adolescentes do sexo feminino são “um tanto quanto provocadores”, disse o Dr. Benson.

“É preciso olhar para a incidência relativa, que ainda é bastante baixa, embora seja maior do que costumava ser, e maior do que deveria ser.”

A grande maioria dos adolescentes “vai muito bem, obrigado”, disse o Dr. Benson. O comentarista acrescentou que o grupo de adolescentes problemáticos é pequeno, e que há um grupo intermediário “em cima do muro”.

“É para este grupo em cima do muro que podemos realmente fazer a diferença.”

Os resultados do estudo “vão ao encontro do que tem sido a nossa experiência clínica” observou o Dr. Benson, que disse caracterizar o ato de se cortar e a automutilação como “comportamentos para descarregar a tensão”.

“Este tipo de comportamento só me informa que alguém está sob enorme estresse e tensão, e não sente que está recebendo o tipo de apoio de que precisa”, disse o Dr. Benson.

“Nosso papel é identificar os jovens que estão passando por todo esse estresse e assegurar que recebam o atendimento necessário”.

Dr. Benson comentou que o fato de as regiões mais desfavorecidas terem menor acesso ao serviços de saúde mental poderia refletir um certo grau de instabilidade familiar.

“Se os jovens estão mais estressados, os pais deles também podem estar sofrendo de estresse, e por causa desse estresse podem ter menos capacidade de se articular para procurar atendimento para os filhos”.

O Dr. Nav Kapur chefiou o grupo de especialistas de qualidade das diretrizes do NICE (National Institute for Health and Care Excellence) sobre automutilação; é o atual diretor do comitê de diretrizes de conduta e tratamento da depressão do adulto do NICE; é especialista das diretrizes de prevenção do suicdio do NICE; e é membro do Department of Health Suicide Prevention Strategy Advisory Group. O Dr. Robert Scott Benson informou não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

BMJ. Publicado on-line em 18 de outubro de 2017. Artigo